Em Coria, bastava alguém avisar «Por esta rua vai frei Pedro de Alcântara» para o povo sair às portas e se debruçar nas janelas. Passava descalço, com um único hábito estreito e a cabeça calva sempre descoberta.
Em Ávila, uma freira o olhou de perto, quando ele já era velho. Santa Teresa de Jesus o encontrou consumido e calado, e abriu a alma àquele homem seco por fora. Naqueles dias, quase ninguém confiava no jeito como ela rezava. Ele a escutou, e a compreendeu.
Aquele frade tinha escolhido para si o que havia de mais estreito. E por essa estreiteza entrava todo aquele que batia à porta.
Pela voz
Aquela cabeça que Coria saía para ver tinha aprendido a se inclinar em 1515, nos Majaretes, um pobre convento franciscano da Extremadura. Chegou ali um rapaz de uns dezesseis anos, Juan de Sanabria, de uma família de posição de Alcântara. Tinha estudado em Salamanca. Tinha pela frente uma carreira de estudos e o nome dos seus.
Deixou as duas coisas. Recebeu o hábito das mãos do tio, que era o guardião, o superior daquela casa. Entrava na custódia do Santo Evangelho, um pequeno grupo de conventos de frades muito pobres, com superior próprio, ao qual muitos dentro da Ordem tinham se oposto com dureza. No ano seguinte fez os votos, a promessa que o ligava para sempre a essa vida, e com eles deixou também o nome de Juan. Desde então passou a ser Pedro.
Do que o levou a trocar as salas de aula de Salamanca por aquele burel, o pano pobre e áspero do hábito, não ficou nenhuma palavra, nem dele nem de quem o conheceu. O que fica é o modo como ele começou a viver.
Começou pelos olhos. Durante três anos, numa casa da sua Ordem, não conheceu nenhum frade a não ser pela voz, porque nunca levantava os olhos. Quando precisava ir a algum lugar, se colocava atrás dos outros e os seguia.
De tudo o que se negava por Deus naqueles começos, o que mais lhe custou foi vencer o sono, e para vencê-lo passava as horas da noite de joelhos ou de pé.
Com aquele mesmo hábito estreito, foram quase trinta anos de caminhos pela Extremadura e por Portugal. Foi ordenado sacerdote, e pouco a pouco seus irmãos foram lhe confiando o governo dos outros. Aquela custódia pobre tinha se tornado província, com o nome de São Gabriel, já em 1519, e frei Pedro chegou a ser seu provincial, o superior de todos os seus conventos.
Sem ofício
No outono de 1554, os frades de São Gabriel se reuniram em capítulo, a assembleia que elegia os seus superiores, na mesma casa dos Majaretes onde aquele rapaz tinha deixado o seu nome. Presidia aquele capítulo o comissário-geral, o superior que a Ordem enviava acima das províncias, e ele chegava com um desejo claro. Queria que elegessem frei Pedro como provincial. Mas os frades não queriam essa eleição, e frei Pedro também não. Foi eleito frei Juan de Espinosa, e o homem que tinha passado quase toda a sua vida de frade cuidando dos outros ficou sem ofício, sem nenhum cargo a cumprir.
Não reclamou nada. O que pediu depois foi outra coisa, e pediu do jeito que as coisas se pedem na Igreja. Obteve um rescrito pontifício, uma permissão escrita do Papa com valor de lei, para viver como ermitão com um companheiro, a sós com Deus. Pediu também a licença do seu novo provincial, e Espinosa a concedeu.
Contava ainda com o amparo do bispo de Coria, que vivia quase como mais um entre os frades descalços. Assim, com os seus dois papéis em ordem, foi por volta de 1555 para um eremitério de Santa Cruz de Paniagua. Ficava a um tiro de besta do povoado, a distância que uma flecha alcançava, e bem perto da casa onde o bispo ia descansar.
Nessa casa vivia então um rapaz, sobrinho do bispo, que via o ermitão de perto. O eremitério era um quarto muito pequeno. A porta dava para uma hortinha minúscula, que tinham feito para frei Pedro porque ele gostava, e a plantavam de salsinha para que estivesse sempre verde. À esquerda da entrada havia um cantinho tão pequeno que era preciso abaixar a cabeça para entrar, e lá dentro não dava para ficar deitado. Ali dormia frei Pedro, com uma pedra como travesseiro. Do outro lado, o companheiro tinha o seu próprio canto, um pouco maior.
Mas aquele solitário não vivia trancado. Descia muitas vezes do eremitério para comer com o bispo e com toda a família do rapaz. Sentava-se à mesa descalço e com o seu hábito estreito, e no arvoredo vizinho, entre a água e as hortas, se falava de Deus. Ao cair da tarde, recolhia-se bem cedo no seu cantinho.
Assim passou cerca de dois anos.
O uso simples
Enquanto isso, nas terras de Coria, um fidalgo de Ciudad Rodrigo e sua esposa, que queriam muito bem a frei Pedro, tinham levantado uma casa e cercado uma horta junto a uma fonte. Aquela casa não era para eles. Em maio de 1557, em El Pedroso, Rodrigo de Chaves se apresentou diante do juiz do lugar e de um escrivão, em seu nome e no de sua esposa, Francisca. Iam entregar aquela casa a frei Pedro, com a horta cercada e a terra ao redor, numa área de pasto com azinheiras, junto à fonte de El Palancar.
Davam-lhe a casa para toda a vida do frade e para os companheiros que ele quisesse ter, mas só em uso simples, de modo que poderia viver ali para sempre sem nunca ser o dono. Davam-lhe também licença para fazer uma capela num dos cômodos e celebrar a missa nela. Assim frei Pedro poderia se dedicar por inteiro à oração, que era justamente aquilo para que o Papa lhe tinha dado permissão.
Naquele mesmo mês começaram ali as obras para transformar aquela casa num convento mínimo. Os pedreiros, ao verem as medidas, pediram-lhe que não fizesse as portas tão baixas nem tão estreitas, porque ninguém ia conseguir passar sem se abaixar e entrar de lado. Frei Pedro não mudou uma única medida, e respondeu assim. «O caminho do céu é muito estreito, e por isso é preciso que nos estreitemos muito.»
As portas ficaram baixas e estreitas, e nelas, contavam depois os vizinhos, quem batia a cabeça era ele.
Rodrigo de Chaves lhe pediu muitas vezes que escrevesse sobre a oração alguma coisa breve e clara. O pequeno livro de oração que leva o nome de frei Pedro começa respondendo a ele, e diz que nunca teria se disposto a reunir ali o melhor de outras obras se não fosse tanta insistência. Fez o livro pequeno no tamanho e no preço para que servisse aos pobres, que não podem comprar livros mais caros, e claro para que os simples o entendessem. A Rodrigo e a dona Francisca chama de filhos muito amados no Senhor.
O que ele propõe meditar, ou seja, pensar devagar diante de Deus, é a Vida e a Paixão de Cristo nosso Salvador, na qual, diz ele, está todo o nosso bem. E no fim do prólogo entrega tudo nas mãos de Jesus Cristo, para sua honra e sua glória, porque d'Ele é tudo o que é bom.
Rodrigo e dona Francisca acabaram seguindo frei Pedro. Foram morar em El Pedroso e viveram ali uns dois anos, vestidos de burel como o frade, para ficar perto dele.
Vinde cá, filhos
Pela porta baixa de El Palancar começaram a entrar e sair os pobres, as crianças e os vizinhos do lugar, e sessenta anos depois muitos deles juraram o que lembravam. Lorenzo Pérez, advogado de Coria, tinha setenta anos quando, em janeiro de 1616, se apresentou diante dos juízes da Igreja que examinavam se frei Pedro tinha sido um santo, e jurou o que tinha visto quando menino. Com ele depuseram outros dezessete moradores de Coria, de Torrejoncillo e de El Pedroso. Muitos não sabiam assinar o nome. Mas quase todos diziam por si mesmos o que tinham visto com os próprios olhos e o que só tinham ouvido contar.
O que Lorenzo tinha visto, muitas vezes, era frei Pedro atravessando as ruas da sua cidade. O povo saía para olhá-lo porque ele era, disse, uma figura extraordinária. Como em Coria ainda não havia convento da sua ordem, ele se hospedava na casa de um casal, os que com os anos seriam os sogros do próprio Lorenzo.
Lá dentro, quem o via de perto era a dona da casa. Muitas vezes ela entrava no quarto do hóspede e o encontrava entregue à oração. E dizia que, se Deus lhes fazia algum bem, era por tê-lo recebido em casa.
Em El Palancar, a porta que se abria todos os dias era a da portaria, a entrada onde se atendia quem vinha de fora. O filho de um operário do convento viu muitas vezes frei Pedro sair por ela com umas tigelas nas mãos. Chamava os pobres com muito amor e lhes dizia «Vinde cá, filhos». Ele mesmo lhes dava a comida, com a própria mão, e depois os consolava e os ensinava.
Por outra porta, a da sua celinha, entravam as crianças. Um desses meninos, ainda bem pequeno, ia com outros recitar para ele a lição de leitura, ler em voz alta o que tinham aprendido. Encontrava-o ajoelhado, ou sentado sobre a cortiça, um pedaço de cortiça que era tudo o que havia na cela, e não uma vez, mas muitas.
E houve outra porta, a de uma moradora de El Pedroso que tinha dois irmãos frades descalços. A neta dela, que jurou isso aos setenta e seis anos, viu certa vez frei Pedro sentado ali. Estava com os pés descalços, como sempre, e os dedos esfolados e feridos.
A avó teve pena dele e lhe pediu «Padre, deixe, pelo amor de Deus, que eu ponha uns paninhos nesses dedos, que estão muito machucados». Ele não consentiu, e respondeu assim.
«Irmã, estas são rosas e flores para mim.»
Os vizinhos juraram que nunca o viram triste nem o ouviram se queixar das suas dores, e que andava sempre alegre.
O que viram e o que ouviram
Essas mesmas testemunhas, tão cuidadosas em separar o que tinham visto do que tinham ouvido, juraram também duas coisas que não sabiam explicar, uma missa no campo debaixo da tempestade e um rio atravessado sem barca. Era dia de festa em El Pedroso, e veio tanta gente que não cabia na igreja. Por isso frei Pedro celebrou a missa no campo. No meio do povo estava um rapaz de uns dezesseis anos, que já passava dos setenta quando jurou o que aconteceu naquele dia.
Levantou-se uma grande tempestade de vento, e todos temeram algum perigo. Mas onde frei Pedro celebrava, a tempestade não se fez sentir. O frade continuou no altar, e rezou e terminou a sua missa com toda a calma.
Outros, que não estavam lá e ouviram contar, acrescentavam mais coisas. O pároco tinha temido pelo Santíssimo, o pão consagrado no qual os católicos adoram Cristo presente. Frei Pedro lhe disse que não tivesse medo, que a tempestade não ia atrapalhá-los. E as velas do altar não se apagaram.
Aquilo, quem viu foi um rapaz. O caso do rio, nenhuma testemunha disse ter visto.
Frei Pedro ia de El Pedroso a Garrovillas e, como tinha deixado o companheiro doente em Portezuelo, ia sozinho. Chegou ao Tejo pela travessia da barca de la Lubia. Os barqueiros não o levaram, e mesmo assim ele se viu na outra margem, a mesma onde eles estavam.
Frei Pedro, sem perceber que já tinha atravessado, pediu que o levassem até Garrovillas. Eles responderam que ele já estava do outro lado, que visse bem o que estava pedindo, porque parecia estar fora de si.
Em Torrejoncillo e em El Pedroso, todos davam aquilo como coisa certa, e um dos moradores deixou isso dito assim diante dos juízes. «Até as crianças sabem e contam.»
Fugitivo e apóstata
Entre os seus irmãos da província de São Gabriel, a mesma que ele tinha governado, não se falava dele do mesmo jeito. Em setembro de 1557, poucos meses depois que frei Pedro chegou a El Palancar, os frades da sua província se reuniram em capítulo no convento de Monticelo del Hoyo, e um dos assuntos que trataram foi o dele. Sobre aquela assembleia pesava um documento vindo de Roma. Naquela primavera, o papa Paulo IV tinha assinado um breve, uma determinação papal para toda a Igreja, contra os frades fugitivos e apóstatas. Apóstata era o frade que abandonava a sua ordem sem permissão.
Quem presidia o capítulo aplicou esse breve. Ao provincial, frei Juan de Espinosa, o mesmo que tinha dado a frei Pedro a licença para ir para o eremitério, o presidente tirou a voz e o voto por causa do que tinha acontecido com frei Pedro. E a assembleia tratou frei Pedro como fugitivo e apóstata.
E isso apesar de frei Pedro ter em ordem a permissão do Papa para viver como eremita com um companheiro, junto com a licença do seu provincial. Os papéis que o tinham levado a Santa Cruz e depois a El Palancar não lhe valeram de nada diante dos próprios irmãos. Alguns não gostavam daquela vida retirada, que ele levava por conta própria.
Os provinciais que vieram depois lhe retiraram o apoio. Frei Pedro respondeu procurando outra porta, e a procurou dentro da lei. No fim de 1557, passou com o seu conventinho de El Palancar para a custódia de São Simão, um pequeno grupo de conventos que dependia dos conventuais, o outro grande ramo dos franciscanos. Privilégios antigos concedidos pelos papas lhe permitiam fazer isso sem pedir a Roma uma nova permissão. Por esse caminho, levou adiante a partir de El Palancar a sua reforma, uma vida de frades descalços, pobres e entregues à oração.
Aquela oposição dos irmãos não fechou a porta a quem buscava o seu conselho. Em 1558, no palácio do bispo de Coria, o mesmo que o tinha amparado no eremitério de Santa Cruz, quem o procurava era um jovem com pressa. Luis de Rojas, outro sobrinho do bispo, tinha uns vinte e cinco anos e se deixava guiar por frei Pedro na oração. Acabava de saber que herdava o marquesado de Poza, e queria partir logo para Valladolid para tomar posse. A mãe e os parentes o incentivavam.
Frei Pedro lhe disse que não fosse. Como o jovem não lhe deu ouvidos, levou-o à parte, para outro aposento, a sós. Lembrou-lhe quantas vezes ele, na oração, tinha pedido com fervor para padecer sofrimentos por amor de Deus. Luis respondeu que continuava querendo o mesmo. Então o frade foi lhe nomeando humilhações e desprezos vindos da própria família do jovem, e a tudo o rapaz respondia que sim.
Por fim, disse-lhe o mais duro. Ele podia se ver por algumas horas com a alma perdida, cega contra Deus, e por isso preso, sentenciado e com sambenito, a túnica que a Inquisição impunha aos condenados.
Luis respondeu «Que Deus me tenha em sua mão, para que eu não o ofenda».
Frei Pedro não o reteve. Despediu-se dele dizendo «Agora, ide com Deus e tende boa paciência».
Luis saiu do palácio e tomou o caminho de Valladolid.
O livrinho
Em Valladolid se cumpriu o que frei Pedro lhe tinha anunciado naquele aposento de Coria. Um tio de Luis, que era frade, andava envolvido com o grupo protestante da cidade e arrastou o jovem com ele. Luis foi denunciado, confessou que tinha sido herege durante vinte e quatro horas e se arrependeu. Foi condenado ao desterro perpétuo da corte e à perda das suas honras de cavaleiro.
No verão de 1559, recolhido num mosteiro da cidade, ele contou chorando a dois franciscanos, palavra por palavra, o que frei Pedro lhe tinha dito antes de deixá-lo partir.
As suspeitas chegaram também a Coria. Em julho daquele mesmo ano, foi lido na cidade um decreto do inquisidor de Llerena, o juiz da Inquisição para aquela região. O decreto mandava entregar os livros proibidos ao mestre-escola, um cônego da catedral. Um morador declarou várias vezes que tinha entregado o livrinho de frei Pedro de Alcântara.
Era o livro pequeno e barato que o frade tinha feito para os pobres. Na lista de livros proibidos daquele ano, ele não aparecia. Mas era um livro de oração na língua do povo, dos que a Inquisição via então com desconfiança, e resumia em parte outro livro, o de um frade dominicano, que esse sim estava proibido.
Em novembro, o mestre-escola foi mais longe e denunciou o bispo de Coria ao inquisidor. Na denúncia, falava de uma liga e companhia de teatinos, o nome que ele dava a um grupo que, segundo dizia, se afastava dos outros fiéis. Entre os nomes que pôs nela estavam Luis de Rojas, frei Pedro de Alcântara e Rodrigo de Chaves, o benfeitor de El Palancar. Acusou ainda o bispo de acolher um apóstata bem conhecido, contra o breve do Papa, aquele mesmo pelo qual os irmãos de frei Pedro o tinham tratado como fugitivo.
Enquanto isso, frei Pedro não tinha parado. Desde a morte do frade que dirigia a custódia de São Simão, era ele quem de fato a guiava. Naquela primavera, o superior dos conventuais, o ramo do qual agora dependia, o tinha confirmado nesse cargo, e frei Pedro tinha saído da Espanha para uma assembleia desse ramo. Em outubro, tinha reunido os frades da sua custódia no eremitério de San Isidro de Loriana, uma casinha para cinco ou seis frades nas terras de Ávila. E, apesar da denúncia, continuou à frente da sua custódia.
Ele me entendia por experiência
A suspeita que frei Pedro conhecia tão bem pesava também sobre uma freira de Ávila. Foi uma senhora da cidade, amiga dos dois, quem pôs frei Pedro e Teresa de Jesus frente a frente, em agosto de 1560. Teresa era freira carmelita do mosteiro da Encarnação e tinha quarenta e cinco anos. O confessor dela atribuía ao demônio algumas das coisas que ela vivia na oração, e o mesmo pensavam outras boas pessoas do lugar.
Diante daquele frade descalço, ela lhe contou a sua vida e o seu modo de rezar com toda a clareza de que foi capaz. Ele tinha passado a vida inteira na oração, seguindo o Cristo pobre pelo que há de mais estreito.
É assim que Teresa conta. «Vi que me entendia por experiência.» E isso era tudo de que ela precisava. «Deu-me luz em tudo.»
Quando frei Pedro soube o que ela tinha padecido, sentiu uma pena imensa. Disse-lhe que poucos sofrimentos há na terra tão grandes quanto o que ela tinha passado, a oposição que vem das pessoas boas. O homem que lhe falava assim tinha sido tratado pelos próprios irmãos de província como um frade fugido.
No livro da sua vida, Teresa o chama de um homem santo e de grande espírito, e o descreve tal como o viu naquele verão. Ela o achou muito velho, embora ele andasse pelos sessenta anos. E estava tão consumido que não parecia outra coisa senão feito de raízes de árvores.
Com tudo isso, era muito afável. Falava pouco, se não lhe perguntavam, mas então dava gosto ouvi-lo, diz ela, porque tinha um entendimento muito bom.
Aquela conversa a deixou muito consolada e contente, segura de que o que vivia na oração vinha de Deus.
Desde então ele gostava de conversar com ela, e lhe confiava as suas coisas e os seus assuntos. Aquele que, quando jovem, não erguia os olhos nem para conhecer os seus irmãos tinha naquela freira alguém com quem falar de Deus de coração aberto.
Contentar o corpo
Naquelas conversas de Ávila, o frade de poucas palavras foi contando a Teresa como dormia, como comia e como passava as noites de frio. Em uns quarenta dos seus anos de penitência, não tinha dormido mais que uma hora e meia entre a noite e o dia. Dormia sentado, com a cabeça apoiada num pedacinho de madeira pregado na parede. Deitado não conseguia, porque a sua cela media quatro pés e meio, pouco mais de um metro.
Nunca tinha posto o capuz, por mais sol ou chuva que fizesse, nem nada nos pés. Sobre a pele usava um único hábito de burel, tão estreito quanto se podia aguentar, e por cima uma capa curta do mesmo pano.
Nas noites de muito frio, ele tinha o seu próprio jeito de se agasalhar. Tirava a capa e abria a porta e a janelinha da cela. Depois tornava a vesti-la e fechava tudo, e assim, depois de tanto frio, aquele pouco de agasalho contentava o corpo.
Comer a cada três dias era o normal para ele. Quando Teresa se espantou, ele lhe perguntou por que estranhava, se aquilo era muito possível para quem se acostumava. Um companheiro de frei Pedro contou a ela que o frade às vezes passava oito dias sem comer nada. Teresa atribuía isso aos arroubamentos dele, aqueles momentos de oração em que Deus o enchia tanto que ele ficava fora de si. Uma vez ela mesma o viu assim.
A Teresa, tudo aquilo parecia uma força de ânimo que só Deus podia dar.
Mas, naqueles anos, quem precisava de ajuda era ela. Teresa queria fundar uma pequena casa de freiras, a de São José. Não sabia se devia fazê-lo com rendas, um dinheiro fixo que garantisse o pão, ou na pobreza, vivendo do que lhes dessem. Desde 1560 os dois trocavam cartas.
Em abril de 1562, frei Pedro lhe mandou uma carta que a decidiu a fundar na pobreza. Teresa manteve distância em outros pontos de doutrina daquela mesma carta, mas na pobreza seguiu o conselho do frade que não tinha nada de seu.
Faltava ainda que o bispo de Ávila aceitasse a fundação sob a sua autoridade. Frei Pedro foi visitá-lo para interceder por ela. E o bispo acabou admitindo a casa.
Laetatus sum
Teresa e frei Pedro se viram pela última vez em agosto de 1562. Naquele outono, frei Pedro estava doente em Arenas, onde em 1561 tinha começado uma fundação. Um amigo, o médico da vila, o acolheu em sua casa.
Ali ele recebeu a extrema-unção, o sacramento com que a Igreja unge os doentes graves e os entrega nas mãos de Deus. O seu fim foi como a sua vida, e até o último momento ele continuou pregando aos seus frades e dando-lhes conselho.
Era o dia 18 de outubro. Quando viu que chegava ao fim, com o corpo que Teresa tinha visto feito de raízes, começou a rezar em latim o salmo que canta a alegria de ir à casa do Senhor.
«Laetatus sum in his quae dicta sunt mihi.»
Que alegria, quando me disseram «Vamos à casa do Senhor!»
E assim, de joelhos, ele morreu.
A vida inteira ele tinha escolhido as portas mais baixas. Pela última, passou com a alegria do salmo nos lábios.
Teresa estava em Ávila, longe de Arenas.
Na hora em que ele expirou, ela o viu diante de si, e frei Pedro lhe disse que ia descansar.
Ela não acreditou que ele tivesse morrido, e contou isso a algumas pessoas.
Oito dias depois chegou a Ávila a notícia da sua morte, ou de que ele tinha começado a viver para sempre, como ela preferia dizer. A Teresa pareceu que o mundo já não estava em condições de suportar tanta perfeição.
Desde então ela o viu muitas vezes, com imensa glória. Na primeira vez, ele lhe disse que era feliz a penitência que lhe tinha alcançado tamanho prêmio.
Depois foi o Senhor quem falou a ela. Disse-lhe que nada do que lhe pedissem em nome de frei Pedro deixaria de ser ouvido.
Ao velho que tanto gostava de conversar com ela, Teresa continuou falando. Confiou-lhe muitas coisas, e as viu realizadas.
A figueira santa
O que Teresa lhe confiava em Ávila, o povo de El Palancar buscava na horta do convento, à sombra de uma figueira. Os vizinhos contavam como aquela árvore tinha nascido. Frei Pedro levava na mão um bordão seco de figueira, o seu cajado de caminhante, e um dia o fincou na terra da horta. Aquela vara morta lançou ramos e deu figos.
Em 1616 a figueira estava lá, enorme, e todos a chamavam de figueira santa. Os seus figos eram levados por toda a região contra as febres e outros males, e as crianças iam até os frades pedir os figos santos. Assim o juraram naquele inverno os vizinhos de El Pedroso e de Torrejoncillo, como coisa da sua própria terra.
Aqueles figos chegavam também a Coria, ao convento da Conceição. Ali uma freira que nunca conheceu frei Pedro os pedia por devoção e os repartia entre os doentes que os procuravam. Alguns voltavam depois para lhe agradecer.
Depois, a doente foi ela. Os médicos diziam que ela tinha tísica, a doença dos pulmões que naquele tempo consumia tanta gente. Num dia de agosto alguém lhe trouxe três figos, e ela, surpresa, respondeu assim. «Jesus, senhora, figos em agosto para quem está tísica!»
Ela os comeu. Ficou livre e sã, e a febre nunca mais voltou. Aos trinta e seis anos, sem saber assinar, ela jurou isso na grade do locutório, a sala onde as freiras falavam com quem vinha de fora.
Aqueles juramentos viajaram para Roma junto com muitos outros. A Igreja o beatificou em 1622, um primeiro passo, e em 1669 o Papa o canonizou, isto é, declarou-o santo para toda a Igreja. A sua memória é celebrada todo dia 19 de outubro na família franciscana. O primeiro imperador do Brasil levava desde o batismo o nome de Pedro de Alcântara, pela devoção que a casa real de Portugal tinha por ele, e em 1826 pediu que frei Pedro fosse padroeiro do seu país, o seu santo protetor. O Papa atendeu ao pedido.
Os seus restos são venerados hoje num convento de Arenas, a vila onde ele morreu, que agora se chama Arenas de San Pedro.
No Brasil, a catedral de Petrópolis leva o nome de São Pedro de Alcântara, padroeiro da cidade, da diocese e de todo o país. Ali se reza a ele uma oração que o invoca como padroeiro do Brasil.
No convento de Arenas há uma cópia da sua cela de El Palancar. Quem chega se debruça sobre aquele vão onde um homem não conseguia se deitar, assim como os vizinhos de Coria se debruçavam para vê-lo passar.
Frei Pedro tinha escolhido por Cristo uma vida tão estreita, e nela couberam os pobres da portaria, os vizinhos de El Pedroso e Teresa, em Ávila, que precisava ser entendida.
São Pedro de Alcântara, vivestes descalço e pobre por amor a Cristo crucificado. Na portaria de El Palancar chamáveis os pobres como a filhos. Em Ávila entendestes Teresa quando ninguém a entendia. Ensinai-nos a rezar com simplicidade, contemplando a vida e a Paixão de Jesus. Dai-nos um coração que use sem possuir e uma porta aberta para quem bate. Acompanhai os doentes e os que sofrem dores no corpo, que vós carregáveis sem queixa. Consolai os que padecem a oposição dos bons e os que se sentem sozinhos. E quando chegar a nossa hora, que possamos dizer com alegria que vamos para a casa do Senhor. Rogai por nós. Amém.





