É domingo em Caracas, em 1919, e um amigo que passa para cumprimentar José Gregorio Hernández o encontra cheio de alegria. Na véspera, em Versalhes, foi assinado o tratado que põe fim à Grande Guerra, e o médico se alegra porque o mundo volta a estar em paz. Depois, quase num sussurro, ele confia ao amigo mais uma coisa. Ofereceu a Deus a própria vida por essa paz.
Pouco depois, sai apressado. Em La Pastora, o seu bairro, uma senhora idosa, pobre e muito doente, está à sua espera, e no caminho ele mesmo compra numa farmácia o que ela não pode pagar. Naquela tarde, ele não chega à casa da doente.
E esse homem da rua, o doutor de terno escuro e chapéu, certa vez quis se fechar para sempre no silêncio de um mosteiro na Itália, onde lhe deram outro nome, frei Marcelo.
Um lenço de seda
Aquela pressa por uma doente sem dinheiro não tinha nada de novo. Vinha de muitos anos de consultório em Caracas, desde o fim do século dezenove, quando ele já lecionava na universidade. À sua porta chegam os que podem pagar e os que não podem, e todos entram.
Junto à cama, José Gregorio fica de pé, numa postura quase humilde, com os braços cruzados sobre o peito, e escuta a história do doente. Depois pede um lenço de seda, estende-o sobre a pele e encosta o ouvido por cima. Mede a febre com o termômetro, conta o pulso pelo relógio e escreve a receita em pé.
Dos que não têm como pagar não cobra nada, e muitas vezes ainda lhes deixa na mão o dinheiro dos remédios. Aos pacientes ricos pede outra coisa, que deixem uma esmola para os mais pobres. Por isso Caracas começa a chamá-lo de médico dos pobres.
O dia dele começou muito antes, ainda no escuro. Ele se levanta para rezar, assiste à missa e comunga, todas as manhãs. Na universidade, num ambiente de forte materialismo, onde só a matéria é tida como real, ele faz o sinal da cruz diante dos alunos antes de começar cada aula.
Esse jeito de rezar e de cuidar dos doentes ele aprendeu em casa. Em Isnotú, um pequeno povoado dos Andes de Trujillo, a mãe e a tia o levavam à igreja e a visitar os doentes, para lhes dar ânimo. A mãe morre em 1872, quando o menino ainda não completou oito anos, e desde então quem o cria é a tia, María Luisa.
Já adulto, José Gregorio dirá sobre a mãe, «Desde o berço me ensinou a virtude, me fez crescer na ciência de Deus e me deu como guia a santa caridade».
Naquele mesmo povoado ele tinha nascido num 26 de outubro, e é nesse dia que hoje a Igreja o celebra como santo.
É a mesma Igreja que, muito tempo depois daquela casa de Isnotú, vai reconhecer uma cura pedida em nome dele.
Quatro microscópios
Aquele menino que entrava com a mãe nas casas dos doentes não fica muito tempo em Isnotú. O professor do povoado percebe o valor do garoto e convence o pai a mandá-lo estudar na capital. Aos treze anos ele deixa a serra e chega como interno a um colégio de Caracas.
Ali cresce um jovem alegre. Gosta de festas e de dançar, aprende música e costura ele mesmo os próprios ternos. Pensa em estudar direito, mas o pai, um comerciante que conhece bem a vontade dele de ajudar os outros, o incentiva a ser médico. Em junho de 1888, a Universidade Central lhe concede o título de doutor.
Com o diploma na mão, ele volta para a sua terra, porque quer curar no meio dos seus. Durante sete meses sobe a cavalo pelos caminhos de tropa, as trilhas das mulas de carga, entre Isnotú, Betijoque e os lugarejos da montanha. Vai da casa de um doente à de outro. Entre uma visita e outra, conta cada caso a Santos Aníbal Dominici, seu amigo íntimo, médico como ele, que está em Caracas. Fala de uma mulher cuja hemorragia finalmente parou, de duas disenterias que ainda não cedem e de um doente de tuberculose. Pede notícias e conselhos da capital, porque conhece os próprios limites. E confia ao amigo um plano, juntar dinheiro para ir estudar em Paris.
Não vai ser preciso juntá-lo. Em 1889, o governo o envia a Paris para aprender o que em Caracas ainda não se ensina, os micróbios e a histologia, o estudo dos tecidos do corpo ao microscópio. Trabalha ao lado do grande histologista Mathias Duval, que numa carta escreve que ele alcançou o nível de um técnico. Outro de seus professores lhe entrega a medalha de melhor aluno. Em Paris deixa a lembrança da sua piedade, e depois completa a formação em Berlim.
Enquanto ele está longe, morre na Venezuela o pai, aquele que o tinha encaminhado para a medicina. José Gregorio não fica com a herança e a cede aos filhos da irmã.
Em 1891 ele volta a Caracas, e na bagagem traz quatro microscópios Zeiss modernos, de uma só objetiva. Com eles funda na Universidade Central três cátedras, a de histologia, a de fisiologia experimental, que estuda como funciona o corpo vivo, e a de bacteriologia, a ciência dos micróbios. Os alunos se debruçam sobre aquelas lentes, e assim começa na Venezuela a medicina que se aprende comprovando no laboratório.
Com que dor
O que os alunos aprendem naquele laboratório lhe dá um nome entre os médicos do país, e em 1904 ele está entre os fundadores da Academia Nacional de Medicina. Ali, diante dos colegas, a sua fé vem à tona. Discute-se se a ciência deve adotar como doutrina a evolução, a ideia de que as espécies vivas se transformam umas nas outras com o passar do tempo. José Gregorio, sem rodeios, se declara criacionista. Acredita que Deus criou a vida e sustenta que nenhuma academia deve transformar uma hipótese em doutrina, porque isso freia o avanço da ciência. Mesmo assim, diz que pode admitir a evolução, sempre em harmonia com a ideia de um Deus criador.
Do outro lado está Luis Razetti, um cirurgião que defende a evolução e não compartilha a sua fé. Os dois discutem com força, mas a amizade entre eles não se rompe. Razetti vai proclamar sempre os méritos de José Gregorio como professor e como cientista, e a sua conduta imaculada.
Nesse homem a fé e a medicina trabalham juntas, e uma santa vai colocá-lo à prova. A sua devoção a Santa Teresa de Jesus, a mística espanhola, é tão antiga que ele não saberia dizer quando começou. Um dia, um dos seus mestres mais queridos publica um estudo sobre a histeria, um transtorno dos nervos. Afirma que a santa sofria dela e que os seus êxtases, os momentos em que ficava arrebatada em Deus, eram crises histéricas. José Gregorio diz assim.
«Com que dor eu li o artigo do meu mestre!»
Ele se propõe a demonstrar, com as armas do seu ofício, que nela não há sinal de histeria. Procura a verdadeira doença naquilo que a própria Teresa conta no livro da sua vida e chega a uma conclusão de médico. Foi uma doença aguda da juventude, parecida com o reumatismo articular agudo, que inflama as articulações e dá febre. O ensaio que escreve para defendê-la fica inacabado. Nessas páginas ele conta também por que a ama ainda mais. Foi ela quem difundiu a devoção a São José, de quem ele é devoto.
Essa fé tem, além disso, uma regra. Desde dezembro de 1899 ele pertence à Ordem Terceira Franciscana, um modo de viver como leigo, em casa e no trabalho, a regra de São Francisco. Os alunos continuam a vê-lo chegar à aula de terno escuro.
Em junho de 1906 ele envia ao ministro uma carta em que pede a aposentadoria como catedrático. Junto com ela manda o seu livro recém-publicado, Elementos de Bacteriologia, o primeiro sobre essa ciência escrito na Venezuela. Ele tem quarenta e um anos.
Como uma árvore gigantesca
No ano seguinte, aquele médico que já reza com uma regra franciscana quer dar um passo a mais. Vai ver Juan Bautista Castro, o arcebispo de Caracas, que o guia na vida de fé há muitos anos, e lhe diz que deseja entregar-se por completo à vida religiosa. O arcebispo hesita, porque acredita que a Venezuela ainda precisa muito da ciência de José Gregorio. Mesmo assim, deixa que ele tente.
O desejo vem de longe. José Gregorio sempre teve amor pelo convento. Com os anos, à medida que estuda a Igreja no seu dogma, na sua moral e na sua história, esse amor cresce como uma árvore gigantesca até orientar a sua vida inteira. Aquilo que ele procura tem um nome, a vida contemplativa, uma existência inteira dedicada a rezar e a estar com Deus. Por isso escolhe a cartuxa, um mosteiro onde os monges vivem em silêncio e solidão. É a ordem que mais combina com o seu espírito.
Mas esse passo tem um preço. Em junho de 1908, em Puerto Cabello, prestes a embarcar para a Itália, ele se despede do irmão César com uma carta e lhe confessa o quanto isso lhe custa.
«Somente para obedecer ao chamado divino pude dar este passo, que é para mim tão duro.»
Ele ama profundamente a sua família, e separar-se dela dói. De todos os sacrifícios, o mais doloroso é deixar a tia María Luisa, a mulher que o criou quando a mãe morreu. Pede perdão a todos e espera revê-los no céu. Deixa-lhes também um tesouro, a carta em que o mestre de noviços, o monge que forma os recém-chegados, lhe anunciava que tinha sido admitido. Para ele essa carta é uma verdadeira relíquia, porque foi escrita por um santo.
Para trás ficam a cátedra, o laboratório e os doentes de Caracas. Ele se desprendeu da família e disse adeus à sua pátria. No dia 16 de julho daquele ano, atravessa a porta da cartuxa de Farneta, entre ciprestes, perto da cidade de Lucca, na Toscana. Chega tão esgotado que pesa noventa e sete libras, pouco mais de quarenta quilos.
Frei Marcelo
Dentro dos muros de Farneta começa, enfim, a vida que ele sempre desejou. Em agosto recebe o hábito dos cartuxos e, com ele, um nome novo. A partir de agora, passam a chamá-lo de frei Marcelo.
À meia-noite chega a hora das matinas, a oração que os monges cantam juntos enquanto o mundo dorme. Junto ao riacho vizinho cantam as rãs, os ciprestes e as murtas se erguem até a altura da torre, e o claustro inteiro se cala.
Em novembro, de sua cela, ele escreve ao irmão César. Garante que a saúde continua sempre muito boa e conta como reza por eles. A cada dia, em turnos, oferece por um dos seus a comunhão, as missas, o ofício divino e o da Santíssima Virgem, o jejum e a vigília. O ofício divino é a oração da Igreja distribuída pelas horas do dia. Assim vai passando pelos irmãos, pelos cunhados e pelos sobrinhos. Em sua ordem os monges vivem da solidão, do silêncio e da distância das pessoas, e por isso ele escreve tão pouco. Mas isso não os separa, porque podem se reunir sempre que quiserem dentro do Coração de Jesus. Assina com o nome novo, frei Marcelo Hernández, noviço cartuxo.
Mas o corpo não responde. Faltam-lhe forças para o frio, para o jejum e para o trabalho manual que a regra pede a cada monge. E o latim, a língua em que se reza todo o ofício, resiste a ele. Passam-se nove meses, até que um dia o superior geral da ordem o chama e lhe diz estas palavras.
«Meu filho, o senhor já vê que não podemos recebê-lo. Volte para o seu país e procure adquirir o que lhe falta.»
José Gregorio não culpa ninguém além de si mesmo. A seu ver, aconteceu com ele o que acontece com quem, cegado pela pretensão e apoiado na própria vaidade, se lança a um voo tão alto. Do superior só elogia a caridade, a de tê-lo suportado nove meses vendo-o tão incapaz. Aquelas palavras são uma sentença, mas também uma esperança. E ele obedece. Assim atravessa a terrível dor de entrar novamente no mundo.
É a primeira porta que se fecha diante do homem que, dez anos mais tarde, sairá às pressas pelas ruas de La Pastora com uns remédios na mão. Na primavera de 1909, frei Marcelo deixa a cartuxa e embarca de volta para a Venezuela.
Uma luz na universidade
Obedecer à ordem de voltar para o seu país tem um preço, e ele é pago no cais. Em 21 de abril de 1909, o vapor Città di Torino deixa José Gregorio em La Guaira, o porto de Caracas. Ele não sobe para a capital, porque teme as zombarias que o esperam, e passa a noite numa pensão da rua Los Baños, em Maiquetía, à beira-mar.
Desse quarto escreve ao irmão César. Conta que, um mês antes, o superior lhe disse que sua vocação não era a vida contemplativa, e sim a ativa, e lhe falou dos jesuítas ou do sacerdócio. Agora José Gregorio pede a César que vá falar com o arcebispo, porque quer entrar no seminário, a casa onde se formam os futuros sacerdotes.
Com o sim do arcebispo, ele sobe a Caracas sem chamar atenção e entra no seminário. Em 24 de abril a imprensa católica publica a notícia, e o seminário se enche de gente. Chegam a família, os colegas e os alunos, e com eles estudantes de medicina. Chegam também os seus pacientes, os doentes que entravam no consultório sem dinheiro e saíam com o remédio pago.
Uma pergunta já corre pela cidade, e Luis Razetti, o cirurgião que discutia com ele na Academia sem deixar de ser seu amigo, a faz em público. «Onde ele é mais útil à sociedade, no laboratório ou no seminário?» Ninguém tem o direito de censurá-lo, acrescenta, mas a decisão dele apaga uma luz na universidade.
Então Juan Bautista Castro, o arcebispo que o deixou experimentar a cartuxa, o aconselha a voltar para a universidade, porque a juventude precisa dele. José Gregorio obedece mais uma vez. Em setembro é nomeado professor de anatomia patológica, o estudo dos tecidos doentes, e volta a estar de pé diante dos alunos.
Três anos depois, em outubro de 1912, ele se senta para contar tudo numa carta a Santos Aníbal Dominici, aquele amigo que recebia seus casos pelos caminhos de Trujillo e que agora mora longe, em Washington. Ele lhe fala da crise terrível que atravessou e do que encontrou em Farneta.
«Vi ali a santidade em grau heroico, e posso te garantir que, uma vez visto esse espetáculo, todo o resto da terra se torna lama.»
Depois lhe explica a volta, e onde está agora.
«E aqui estou, obedecendo àquele mandato.»
No fim se despede como o amigo que mais o quer, quase o seu único amigo, e lhe deixa uma certeza para a distância que os separa.
«Mas, se não retomarmos a nossa amizade na terra, para isso temos o céu.»
Na cátedra ele guarda a esperança que trouxe de Farneta, a de reunir um dia as forças que lhe faltaram e bater outra vez à porta.
Muito a meu gosto
As forças que lhe faltaram na cartuxa, ele as procura em Caracas, e uma tradição conta que as procurava com as mãos. Ao sair da universidade, sem que quase ninguém soubesse, entrava um pouco para rezar numa igrejinha e seguia até uma pequena oficina de carpintaria. Ali deixava a roupa de professor, vestia a de trabalho e trabalhava a madeira, como quem fortalece o corpo para uma vida austera.
Em 1913 ele tenta outra vez. Apresenta sua renúncia à Academia de Medicina, que não a aceita porque o cargo é vitalício, e embarca para Roma. Entra num colégio onde os jesuítas formam futuros sacerdotes da América hispânica. Estuda latim, o mesmo que lhe resistia em Farneta, e teologia, sem pressa. Em fevereiro de 1914 conta isso ao irmão César numa carta.
«Agora me encontro no Colégio muito contente e a meu gosto.»
Pouco depois ele cai doente com uma pleurisia, uma inflamação da membrana que envolve os pulmões, e sua estadia em Roma termina depois de oito meses. Em abril está em Paris, e ali um médico examina a sua expectoração e encontra o bacilo de Koch, o micróbio da tuberculose.
De Paris ele escreve que voltar a Caracas depois de ter se desprendido de tudo lhe pesa muito, e que sente que ninguém consegue compreendê-lo. Sempre desejou a morte que livra de tantos males e põe a salvo no céu, e agora teme ter de ficar para sempre no mundo. Mesmo assim, pede que em tudo se cumpra a vontade do Senhor.
Com a irmã Avelina, ao contrário, ele se permite um sorriso. É assim que lhe escreve de Paris.
«O médico me diz, achando que me dá uma grande notícia, que desta eu não vou morrer.»
No começo de setembro está de novo em Caracas. Em algum momento desses anos, o arcebispo Juan Bautista Castro lhe deu um conselho simples para decidir o que vem pela frente. Que ponha a sua vocação num prato da balança e as necessidades da Venezuela no outro, e que observe para onde se inclina a agulha, que chamam de fiel da balança. E lhe disse como lê-la.
«Para onde o fiel se inclinar, veja a vontade de Deus, e siga-a.»
A agulha se inclina para os doentes e os alunos da sua terra. Desde então ele se dedica apenas a ensinar e a curar, numa Caracas onde a universidade está fechada.
O retrato de Nova York
A primeira coisa que a balança põe diante dele são os rapazes que ficaram sem salas de aula. Ele pede licença para ensinar por conta própria e, num colégio de Caracas, ao lado de um sobrinho, dá aulas gratuitas de histologia a quem quiser aprender. E a oração, ele a leva para dentro da própria casa.
Em junho de 1915 reúne toda a família em sua casa, entre as esquinas de San Andrés e Desbarrancado. Quer consagrá-la ao Sagrado Coração de Jesus, isto é, colocar o lar sob o amor de Jesus Cristo, esse amor que a Igreja contempla no seu coração. Por volta das cinco e meia da tarde, todos se ajoelham. Um frade capuchinho reza algumas orações, a família diz o Credo em voz alta e depois se lê a consagração, que pede a Jesus que visite aquela casa «na companhia da tua doce Mãe».
Em agosto daquele ano morre o arcebispo Juan Bautista Castro. Foi ele quem o deixou experimentar a cartuxa, quem o devolveu às salas de aula e quem pôs a balança diante dele. Esteve ao seu lado diante de cada porta, a que se abriu para a Itália e as que depois se fecharam.
Em 1917 ele viaja a Nova York e a Madri para estudar e preparar a segunda edição do seu livro de bacteriologia. Em Nova York entra num estúdio fotográfico e se deixa retratar de pé, de terno escuro de três peças, um lenço branco no bolso, o chapéu de feltro na cabeça e as mãos nas costas. Manda uma cópia ao irmão César, para se sentir menos longe dos seus. Esse homem imóvel é o que tantas famílias vão reconhecer depois em seus santinhos.
A outro sobrinho, o que estuda medicina, ele lembra com este conselho para que serve o estudo.
«Bom médico é aquele que sabe curar seus doentes, e isso se começa a aprender não no laboratório, mas no hospital.»
Em outubro de 1918 a gripe espanhola chega à Venezuela. Ela se abate sobre uma população já castigada pela malária, pela tuberculose, pela fome e pela falta de higiene, e em todo o país os mortos se contam às dezenas de milhares. Forma-se uma junta nacional de socorro com o novo arcebispo, e quem a coordena é Luis Razetti, o velho companheiro de José Gregorio na Academia. José Gregorio se junta ao esforço da emergência. Durante vinte e dois dias usa um automóvel com motorista para chegar a mais doentes, de uma porta a outra e de uma cama a outra.
A ele e a Razetti se atribui ter dito em público que era a miséria, mais do que a gripe, o que matava tanta gente.
Em dezembro a epidemia se extingue, e o doutor Hernández volta às suas aulas e aos seus doentes de sempre.
O mundo em paz
A última dessas aulas cai num sábado, 28 de junho de 1919, e às três da tarde ele está pontualmente na sala da Escola de Medicina. Explica aos alunos o bacilo da lepra, como ele aparece no microscópio, como se faz a coloração e como se cultiva, e ao terminar anuncia o tema da aula seguinte. Nesse mesmo sábado, do outro lado do oceano, assina-se em Versalhes o tratado que encerra quatro anos de combates na Europa, aquela guerra em que ele tinha visto, em Londres, em 1914, a Inglaterra entrar.
No dia seguinte é domingo. Ele se levanta antes das cinco e reza o Angelus, a oração que recorda o anúncio do anjo a Maria. Vai à igreja da Divina Pastora, a do seu bairro, ouve missa e comunga.
Depois começa a sua ronda. Passa pelas casas dos seus doentes pobres, pelos órfãos da Divina Providência e pelas enfermarias do Hospital Vargas. Ao meio-dia entra na igreja de San Mauricio para fazer a sua visita ao Santíssimo, um momento de oração diante de Jesus presente na Eucaristia, e volta a rezar o Angelus.
À uma e meia chega um amigo para cumprimentá-lo e o encontra radiante. A notícia de Versalhes já chegou a Caracas, e José Gregorio a celebra e exclama.
«Foi assinado o Tratado de Paz! O mundo em paz!»
Depois baixa a voz. Confia ao amigo que entregou ao Senhor a própria vida como oferta, para que o mundo tenha paz.
Pouco depois se despede e sai às pressas, porque uma senhora idosa e pobre de La Pastora está muito doente e não tem com que pagar os remédios. Ele entra numa farmácia, compra os remédios dela e segue a pé até a casa da doente.
Conta-se que, já na rua, atravessou diante de um bonde parado sem ver o automóvel que se aproximava, e que uma vizinha viu tudo da sua janela.
Na esquina de Amadores, ele é atropelado por um dos poucos automóveis que circulam por Caracas. Ao volante vai um bom amigo seu, um ex-aluno. Uma testemunha ouve José Gregorio gritar.
«Virgem Santíssima!»
Levam-no quase moribundo ao Hospital Vargas, o mesmo cujas enfermarias ele percorreu naquela manhã, e ali um sacerdote lhe dá a extrema-unção, a unção com que a Igreja acompanha os que estão morrendo. José Gregorio morre quase em seguida, pronunciando o nome da Virgem.
Em outra enfermaria do hospital, contam, convalesce de uma cirurgia uma religiosa, Candelaria de São José, hoje beata, que começa a rezar por ele.
Luis Razetti, o companheiro da Academia que não tinha fé, chega até o corpo do amigo. Diante dele, diz estas palavras.
«Este homem era um santo.»
O doutor é nosso
A morte numa esquina se torna, naquela mesma noite, o luto de uma cidade inteira. Ele é velado no Salão Nobre da Universidade Central, sobre um catafalco coberto de flores trazidas do Ávila, a montanha que se ergue sobre Caracas. Milhares de caraquenhos passam devagar diante do caixão, e a fila não termina.
No dia seguinte, 30 de junho, a cidade para. A missa fúnebre é celebrada na Catedral, presidida pelo arcebispo. Quando ela termina e o caixão sai para a rua, o povo exige ser ele mesmo a carregá-lo. Um grito corre pela multidão.
«O doutor Hernández é nosso.»
Erguem o caixão nos ombros e começam a andar. O cortejo sai às quatro da tarde e atravessa Caracas passo a passo. Chega ao Cemitério Geral do Sul às nove da noite.
Quando o descem à terra, Luis Razetti fala diante do túmulo e diz que o amigo não deixa uma única mancha. Atrás do caixão caminhou também o escritor Rómulo Gallegos, e na sua crônica daquele dia deixa registrado que todos sentiam «o desejo de ser bons».
A justiça prende e processa o amigo que estava ao volante. Então a família Hernández escreve ao juiz. Não pede castigo algum, porque está convencida de que foi um acidente sem intenção, e aceita o que aconteceu como vontade de Deus. Depois dessa carta, o promotor retifica o pedido de condenação, o motorista é absolvido e a Corte Superior confirma a absolvição.
O motorista se chamava Fernando Bustamante. Os irmãos dele contavam que ele e o doutor iam ser compadres, esse laço que une duas famílias por um batizado, e que com os anos ele se tornou devoto de José Gregorio. Viveu até 1981.
Desde a noite do enterro, o túmulo nunca fica sozinho. As pessoas voltam com flores, santinhos, placas de agradecimento e receitas médicas, e acendem velas sem parar, até que um dia essas velas incendeiam o túmulo.
Quando, em 1975, retiram dali os seus restos, estão presentes alguns dos que o viram morrer. Levam os restos para a igreja de Nossa Senhora da Candelária, no centro de Caracas, e ali eles repousam desde então.
Uma menina de Apure
As velas que o povo acende naquele túmulo acabam chegando à Igreja. Uns trinta anos depois do enterro, a arquidiocese de Caracas abre a causa de José Gregorio, o exame longo e minucioso com que a Igreja estuda uma vida antes de chamar alguém de santo. Ela chama para depor os que o conheceram. Entre eles está Santos Aníbal Dominici, o amigo das cartas, que se senta diante do tribunal para contar o que viu.
Também chegam objeções. Um antigo vigário-geral, o sacerdote que governava a diocese ao lado do arcebispo, as expõe numa carta que o núncio, o representante do papa, envia a Roma. Roma pede que sejam examinadas, e um tribunal de Caracas ouve sete testemunhas. O tribunal conclui que aquela oposição se dirigia contra o próprio arcebispo desse sacerdote, e não contra as virtudes de José Gregorio. Em 1964, Roma declara que nada impede seguir adiante.
Em 1986, o papa João Paulo II o declara venerável, o título com que a Igreja reconhece que alguém viveu as virtudes cristãs em grau heroico. Para dar o passo seguinte é preciso um milagre, uma cura que a medicina não consiga explicar, pedida a Deus por meio dele. E, durante décadas, a causa fica à espera desse milagre.
Essa espera se cruza, num dia de março de 2017, com uma família das planícies de Apure. Yaxury Solórzano, uma menina de dez anos, está na garupa da moto do pai quando uns assaltantes surgem no caminho e atiram. A menina é ferida na cabeça.
Levam a menina a uma clínica de San Fernando de Apure, e o neurocirurgião sai para anunciar que vai operá-la. A mãe de Yaxury conta que, naquele momento, o doutor José Gregorio Hernández entrou e lhe disse que ele mesmo operaria a menina, porque Deus o tinha enviado.
A menina é operada, e os médicos esperam sequelas graves. A mãe, a irmã e a anestesiologista que cuida dela pedem a Deus por meio do venerável José Gregorio.
Cinco dias depois do tiro, Yaxury melhora de repente. Duas semanas mais tarde, sai do hospital em bom estado, sem nenhum déficit neurológico nem cognitivo.
Anos depois, os médicos que estudam o caso para a Igreja examinam essa cura e não encontram explicação para ela. Em 2020, a Igreja a reconhece como o milagre que a causa esperava, uma cura pedida em nome dele.
Em 30 de abril de 2021, em Caracas, o representante do papa Francisco preside a missa em que José Gregorio Hernández é proclamado beato, o passo que permite à Igreja venerá-lo publicamente antes de declará-lo santo.
Um chapéu sobre um microscópio
Meses antes daquela missa, a Igreja tinha precisado abrir a urna dele em La Candelaria. O cardeal venezuelano Baltazar Porras, que esteve presente na abertura, sai da igreja naquele outubro de 2020 e diz «Há pequenos ossos, terra e pedaços de metal e de madeira que possivelmente faziam parte da urna anterior». É isso o que resta do doutor, um punhado de ossos no meio da terra. Deles sairão as suas relíquias, pequenos fragmentos do seu próprio corpo que a Igreja guarda para rezar junto deles.
Esses fragmentos chegam às mãos das Servas de Jesus, as religiosas fundadas por Carmen Rendiles, uma freira venezuelana do século vinte. Durante um mês inteiro, elas preparam mais de cento e sessenta relíquias. Enquanto trabalham, rezam pelo fim da pandemia, pelos profissionais de saúde e pela paz da Venezuela e do mundo.
Para as dioceses do país são feitos quarenta relicários. A base é um microscópio de ferro venezuelano. Sobre ele se ergue um chapéu como o de feltro que o doutor usava na foto de Nova York. No alto fica a relíquia, cercada de pérolas de Margarita, a ilha venezuelana do Caribe. As pérolas lembram o Rosário. Os bispos da Venezuela cuidam da devoção ao doutor e lembram que uma relíquia é um sacramental, um sinal abençoado que ajuda a rezar, e não um amuleto. Os bispos também rejeitam os usos supersticiosos e espíritas que alguns fazem da sua figura.
Muitos venezuelanos tiveram de deixar a sua terra, e as relíquias vão com eles, para paróquias de Madri, das ilhas Canárias e das comunidades que eles formaram em outros países.
Essa devoção, que encheu de velas o seu túmulo no Cemitério Geral do Sul, é a que abre o último passo. Em 24 de fevereiro de 2025, do hospital Gemelli onde está internado, o papa Francisco aprova os votos favoráveis de cardeais e bispos à canonização de José Gregorio Hernández. A Igreja segue para ele um caminho especial, sem o segundo milagre que costuma ser pedido, porque a sua devoção se manteve e se espalhou sem interrupção durante um século.
Em 19 de outubro de 2025, na praça de São Pedro, o papa Leão XIV proclama santo José Gregorio Hernández, junto com Carmen Rendiles e outros cinco beatos. Ela e ele são os dois primeiros santos da Venezuela.
Naquele mesmo outubro, o cardeal Porras promete uma relíquia do novo santo ao superior da cartuxa de Farneta.
A cela de Farneta
A promessa se cumpre em fevereiro de 2026. Um diácono venezuelano, Jean Carlos González, viaja de Assis até Farneta com um fragmento de osso do santo e bate à porta da cartuxa. Por essa mesma porta saiu, em 1909, um noviço magríssimo que não aguentava o frio nem o jejum.
Os monges deixam o diácono entrar na cela onde viveu frei Marcelo, o nome que José Gregorio recebeu ao tomar o hábito. Naquele dia, conta o diácono, eles colocam juntos em oração todo o povo venezuelano.
Depois põem a relíquia junto às dos seus próprios irmãos mártires de 1944, cartuxos daquela casa fuzilados pelos nazistas por terem dado refúgio a perseguidos. Entre eles havia um venezuelano. Os monges recebem o médico de Caracas com «uma humilde alegria», e, quando falam dele, não dizem José Gregorio. Dizem frei Marcelo.
O diácono diz também que o santo continua intercedendo, sobretudo por quem o procura por causa da saúde.
Assim volta a esse silêncio o homem que um dia o quis para sempre, e a quem um superior mandou voltar para o seu país e adquirir o que lhe faltava. Ele obedeceu. E o que lhe faltava ele não encontrou entre estes muros. Encontrou no consultório onde não cobrava dos pobres, nas enfermarias do Hospital Vargas e nas ruas de La Pastora, de terno escuro e chapéu, com uns remédios na mão, até a esquina de Amadores.
Que porta fechada está nos devolvendo, também a nós, para os outros?
São José Gregorio Hernández, médico dos pobres, tu desejaste o silêncio do claustro. E obedeceste quando Deus te devolveu à rua. Tu pagaste do teu bolso os remédios que outros não podiam comprar. Ensina-nos a reconhecer a vontade de Deus nas portas que se fecham. Alcança-nos a graça de praticar as obras de caridade a teu exemplo. Acompanha os doentes que esperam num hospital ou em casa. Acompanha os médicos e as enfermeiras que cuidam deles, e quem chora por alguém que partiu de repente. Pede para o mundo a paz pela qual ofereceste a tua vida. São José Gregorio Hernández, rogai por nós. Amém.





