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FIDES VIVA

24 de outubro

missionário a pé, arcebispo de Cuba e confessor de Isabel II

Santo Antônio Maria Claret

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Capítulos
  1. 0:00Mais máquinas que santos
  2. 5:11A tempestade de Montealegre
  3. 9:03Uma perna que não anda
  4. 13:42A trouxa
  5. 18:50El Padrito
  6. 23:18A terra que treme
  7. 27:38Como cristão, como sacerdote
  8. 31:41O pássaro engaiolado
  9. 37:01Antônio, retira-te
  10. 40:57Com Ele morrerá
  11. 47:00A caixa do carpinteiro

Fazia dias que ele dizia do púlpito que queria selar com o próprio sangue aquilo que pregava. Numa noite de fevereiro de 1856, o arcebispo de Santiago de Cuba, Antônio Maria Claret, caminhava pela calle Mayor de Holguín. Dos dois lados, o povo o cumprimentava, e um sacristão iluminava o caminho com uma lanterna.

Um homem se inclinou para ele como quem vai beijar o anel. Em vez de beijá-lo, puxou uma navalha de barbear e lhe abriu o rosto da orelha até o queixo.

O arcebispo apontou uma botica ali perto e disse «Vamos entrar aqui, que teremos os remédios mais à mão». Lá dentro, foi ele quem teve de dar ânimo aos médicos. Naquela noite, o que ele sentia era alegria.

Esse homem tinha começado a vida na Catalunha, entre o barulho dos teares.

Mais máquinas que santos

No fim da década de 1820, aquele futuro arcebispo não pensava em dar o sangue por ninguém. Pensava em fios. Numa fábrica de Barcelona, uma cidade que se enchia de oficinas e de máquinas novas, um rapaz de Sallent abria sobre a mesa as amostras de tecido que chegavam de Paris e de Londres. Desmanchava cada uma até entender como era feita, e depois desenhava o tear capaz de reproduzi-la.

Tinha chegado aos dezessete anos, estudava desenho na escola da Lonja e se vestia com elegância, talvez até demais. Era tão habilidoso que chegou a corrigir o encarregado que dirigia a fábrica.

Poucos anos antes, na oficina do pai em Sallent, esse mesmo rapaz puxava o terço entre os teares, e os operários respondiam sem largar o trabalho. Ainda menino, tinha dito a um visitante da escola que queria ser padre.

Agora, em Barcelona, alguns senhores propunham ao pai dele montar uma fábrica própria com o filho. E Antônio, que até então sempre tinha obedecido ao pai, dessa vez disse que não. Sentia por dentro uma repugnância que não sabia explicar. Mesmo assim, a fabricação o dominava por inteiro, como um delírio. Na missa, tinha «mais máquinas na cabeça do que santos havia no altar».

Foi na missa que algo se rompeu. Certa manhã, enquanto o sacerdote prosseguia no altar, veio-lhe à mente uma pergunta de Jesus no Evangelho. De que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, se no fim perde a sua alma? Aquela frase foi uma flecha que lhe feriu o coração.

Ele buscou ajuda na casa de São Filipe Néri, onde vivia uma comunidade de sacerdotes. Um irmão da casa o levou até um dos padres, e o conselho foi simples. Devia estudar latim, a língua que na época era preciso saber para chegar a ser padre.

Nesses mesmos anos, a vida o sacudiu três vezes. Um dia, na praia que ficava atrás da Barceloneta, uma onda o arrastou mar adentro. Ele chamou por Maria, e se viu de volta na areia.

Outra vez, uma senhora quis seduzi-lo, e ele se soltou dos braços dela lutando com todas as forças. Não contou a ninguém, para não manchar a honra dela.

A terceira sacudida veio de um colega com quem jogava na loteria em sociedade. Roubou-lhe recibos, dinheiro, roupas e livros, e acabou condenado a dois anos de presídio, uma prisão com trabalhos forçados. Mais do que o que tinha perdido, doeu em Antônio a vergonha, e ele mal tinha coragem de sair à rua. Assim, à força de amarguras, Deus foi afastando Antônio daquela vida que ele chamava de Babilônia, como se afasta uma criança do peito da mãe.

Desiludido do mundo, Antônio foi falar com o pai e lhe disse que queria ser cartuxo, um desses monges que vivem em silêncio, cada um na sua cela. Juan Claret queria tê-lo como sócio na fábrica. Sentiu muita tristeza, e lhe respondeu «Eu não quero tirar a sua vocação... Mesmo assim, faça-se a vontade de Deus».

Com o latim mal começado e a Cartuxa guardada no coração, Antônio saiu de Sallent rumo a Vic numa tarde de chuva.

A tempestade de Montealegre

Chegou a Vic já de noite, em 29 de setembro de 1829, encharcado até os ossos. Continuava querendo ser cartuxo. O bispo o recebeu muito bem. Ali fez uma confissão geral, repassando a vida inteira diante do padre Pedro Bach, do Oratório de Vic, que desde então foi o seu diretor espiritual.

Na mesa de estudo, Antônio colocou um santinho grande de São Bruno, o fundador dos cartuxos. Ao terminar o primeiro ano, o diretor lhe acertou a entrada na Cartuxa de Montealegre, perto de Barcelona, e Antônio se pôs a caminho.

No caminho, foi surpreendido por uma tempestade. Correu até perder o fôlego, e no meio do aguaceiro disse a si mesmo «Talvez Deus não queira que você vá para a Cartuxa!». Não teve coragem de seguir, e voltou para Vic. Com o tempo, entendeu que aquela vocação de monge tinha sido só para uma temporada.

Certo inverno, no segundo ano de filosofia, caiu de cama com um resfriado. No meio da manhã, foi assaltado por uma tentação muito forte contra a pureza. Chamou por Maria, pelo anjo da guarda e pelos seus santos, fez o sinal da cruz na testa e tentou pensar em outra coisa. Foi tudo inútil.

Ao se virar na cama, ele a viu. Maria estava ali, muito bonita, com um vestido carmesim, um manto azul e uma coroa de rosas. Antônio a ouviu dizer «Antônio, esta coroa será sua se você vencer», e ela lhe pôs a coroa. À direita, viu santos que rezavam por ele, e à esquerda, demônios que se retiravam.

Ele garantia que não estava dormindo nem com a cabeça rodando. A tentação foi embora, deixou-lhe uma grande alegria, e durante anos ele não voltou a sofrer tentações daquele tipo.

Continuou estudando em Vic, e em 13 de junho de 1835, dia de Santo Antônio, seu padroeiro, foi ordenado sacerdote. Oito dias depois, cantou a primeira missa em Sallent, e ali ficou, a serviço da paróquia da sua terra. Pregava, ensinava o catecismo e atendia confissões desde muito cedo. Todo dia visitava os doentes, desde o momento em que lhes levava o viático, a comunhão de quem está morrendo, até que morressem ou se curassem.

Mas, ao ler a Bíblia, tinha a impressão de que uma voz dizia a ele, pessoalmente, aquilo mesmo que ia lendo. Nas páginas dos profetas, Deus lhe dizia que o tinha escolhido e não o tinha rejeitado, e que o enviava para levar a boa notícia aos pobres. Punha diante dele também o vigia, aquele que observa do alto para avisar o seu povo.

Então decidiu deixar a paróquia e ir a Roma, oferecer-se como missionário ao escritório do Papa que enviava os missionários pelo mundo afora. O superior dele levantou dificuldades, e o povoado também. Os moradores de Sallent mostraram o quanto gostavam dele justamente quando ele se preparava para ir embora.

Sem passaporte e sem dinheiro, o padre de Sallent pegou a estrada rumo aos Pireneus.

Uma perna que não anda

Em 1839, como em Barcelona não lhe tinham dado passaporte, ele ia a pé para Roma, atravessando as montanhas de uma Catalunha em guerra. Perto da Font del Picasó, um homem gritou «Alto!» e apontou um fuzil para ele. Fazia parte de um bando de dez homens armados. O chefe o interrogou, e o padre de Sallent respondeu a tudo com firmeza.

Enquanto conversavam, os presos que eles levavam fugiram. O bando seguiu rumo a Puigcerdá, com ele no fim da fila, e Antônio aproveitou para desviar em direção à França. O homem que o tinha detido se aproximou e cochichou «Não diga isso a ninguém». Antônio respondeu «Vão com Deus».

Em Marselha, embarcou num vapor rumo à Itália e pagou o lugar mais pobre, no convés da proa, ao relento. Dormia sobre um rolo de corda, com a cabeça apoiada num canhão. Certa noite, foi surpreendido por uma tempestade e ficou encharcado até o amanhecer. O pão e o queijo que comia estavam salgados pelo mar. Um passageiro inglês, católico, deu-lhe de presente alguns duros, moedas de prata. Antônio os repartiu entre uns monges espanhóis exilados e um conterrâneo que tinha sido roubado no caminho, e desceu do navio sem nada.

Em Roma, não encontrou o cardeal que devia enviá-lo às missões. Enquanto esperava, fez os exercícios espirituais, dias inteiros de silêncio e oração, e ali lhe propuseram entrar na Companhia de Jesus. Em 2 de novembro, já vivia no noviciado, a casa onde os jesuítas formam os que estão começando. Da noite para o dia, viu-se jesuíta.

Aprendeu a pregar retiros, a fazer sermões e a atender confissões. Como ainda não podia sair para trabalhar, rezava, e escreveu a Maria uma oração em que se colocava nas mãos dela como instrumento para converter os pecadores. Nessa oração, disse à Virgem «Não me calarei, mesmo sabendo que me farão em pedaços».

Quatro meses depois, sentiu uma dor tão forte na perna direita que não conseguia andar. O superior de todos os jesuítas, o padre-geral Jan Roothaan, falou com ele sem hesitar. «É vontade de Deus que o senhor vá logo para a Espanha, não tenha medo, coragem.» Mais tarde, Roothaan lhe escreveu que Deus o tinha levado à Companhia não para que ficasse nela, mas para que aprendesse a ganhar almas.

De volta à Catalunha, em 1840 o colocaram à frente da paróquia de Viladrau, uma aldeia do Montseny saqueada vez após vez pela guerra. Os médicos tinham ido embora. Então ele fez as vezes de médico do corpo e da alma, com livros de medicina e o que sabia de plantas, sem nunca cobrar nada. Nenhum dos doentes que visitava morria, e começaram a chegar doentes de outros povoados. Quando já eram demais, ele só fazia o sinal da cruz sobre eles, e o povo dizia que ficavam curados. Ele atribuía isso à fé dos doentes.

Mas também saía para pregar em outros povoados, e os que adoeciam na sua ausência, esses, sim, morriam. Na volta, as famílias o recebiam com as palavras que Marta disse a Jesus diante do túmulo do irmão, que se ele estivesse ali o irmão não teria morrido. Ele não podia ressuscitar ninguém, e aquelas lágrimas o afligiam muito.

Por isso pediu ao superior que o liberasse de Viladrau e de qualquer paróquia, para ficar disponível e pregar onde o enviassem. Em janeiro de 1841 foi embora, e o povo sentiu muito a sua partida.

Livre agora de paróquia, com a trouxa na mão, começou a percorrer a Catalunha a pé.

A trouxa

Caminhava cinco horas de manhã e cinco à tarde, com neve ou com sol, e usava o mesmo capote no inverno e no verão. Num lenço amarrado iam o breviário, o livro de orações que o padre reza todos os dias, uma camisa e um par de meias. Para não se perder, levava um mapa da Catalunha forrado de pano. Dinheiro, não levava nem aceitava. Um dia pôs a mão no bolso, achou que tocava uma moeda e levou um susto. Era uma medalha que tinham lhe dado muito tempo antes, e ele sentiu como se voltasse da morte para a vida.

Roma tinha lhe dado o título de missionário apostólico, que o autorizava a pregar missões. Mesmo assim, não pregava em nenhuma paróquia sem uma ordem expressa do seu bispo. Cada missão popular era feita de vários dias de sermões, confissões e oração num povoado, e antes de subir ao púlpito ele rezava o terço com o povo. O seu objetivo, dizia, era «que Deus seja conhecido, amado e servido por todos».

Aquela pressa vinha de muito longe. Em Sallent, aos cinco anos, o menino ficava na cama sem dormir, pensando na eternidade. Imaginava distâncias enormes, somava outras a elas e nunca chegava ao fim. Sempre, sempre, repetia para si, e sentia muita pena ao pensar nos que teriam de sofrer sem fim. Já adulto, comparava-se a quem vê uma casa pegando fogo de noite e sai correndo pelas ruas aos gritos de «Fogo!».

Às vezes bastava um pedaço de papel. Numa cidade grande, um menino beijou a mão dele e lhe pediu um santinho. No dia seguinte, depois da missa, um homem alto e corpulento, de bigodes compridos, com o rosto escondido na capa, pediu para se confessar. Na sacristia, caiu no choro. O menino tinha deixado o santinho na mesa de casa, o homem o tinha lido por curiosidade, e cada palavra se cravava nele como um dardo. Tinha cinquenta anos, não se confessava desde criança e tinha sido comandante de gente muito má. Então perguntou «Padre, será que há perdão para mim?». Claret respondeu «Sim, senhor, sim, coragem, confiança».

Em Barcelona, com outros dois companheiros, fundou uma editora para imprimir livrinhos e folhetos tão baratos que qualquer um pudesse tê-los. No começo de quase todos, colocou a sua oração à Virgem. O rapaz que tinha sido ferido por uma frase do Evangelho como por uma flecha agora se oferecia a Maria com essa mesma imagem. Dizia a ela «Eu sou como uma flecha posta na vossa mão poderosa».

Mas o fruto tinha o seu preço. O governo chegou a procurá-lo para prendê-lo, porque, como um general lhe contou anos depois em Cuba, tinha medo das multidões que o seguiam. Na primeira metade de cada missão corriam contra ele mentiras de todo tipo, como a de que tinha roubado um burro. Na segunda metade, todos o chamavam de santo. E no fim, quando mais o elogiavam, vinha-lhe uma tristeza que ele não sabia explicar. Ele a entendia como um lastro, o peso que um navio leva para que o vento não o vire, no caso dele o vento da vaidade.

Durante quinze anos, fez exame de consciência sobre a humildade duas vezes por dia, ao meio-dia e à noite. Passado todo esse tempo, confessava «e ainda não sou humilde». Tinha momentos bons e outros tão amargos que a própria vida lhe dava fastio. Então só pensava e falava do céu, e isso lhe devolvia o ânimo.

Na diocese de Tarragona quase todos gostavam dele, mas alguns queriam matá-lo, e o arcebispo sabia disso. Claret lhe pediu que o mandasse para onde quisesse, e disse que, mesmo que no caminho o esperassem duas fileiras de assassinos de punhal na mão, ele seguiria em frente.

«Lucrum mori», dizia em latim, morrer é lucro. Desejava que um dia o seu próprio sangue selasse o que ensinava.

Em 1847, uma nova guerra fechou os caminhos da Catalunha, e o seu bispo o colocou às ordens do bispo das Canárias.

El Padrito

Na Catalunha, até o nome dele tinha virado uma arma. Durante a guerra dos matiners, os bandos que se levantaram contra o governo, alguns jornais chegaram a dizer que os rebeldes não fariam nada sem consultar «Mosén Claret», como então se chamavam os padres na Catalunha. Era uma maneira de comprometê-lo. Por isso o bispo das Canárias o levou para as ilhas.

Na Grã-Canária o povo não cabia nas igrejas, então Claret pregava nas praças. Para que ninguém ficasse sem se confessar, organizava as confissões em grupos de oito. Em cada povoado o recebiam com alegria e se despediam dele com lágrimas.

Em Lanzarote, ia com ele um padre tão gordo que não aguentava os caminhos, e para que ele não fosse a pé os dois montaram num camelo. Ao chegarem a um povoado, alguém não quis ouvir Claret. Aquele não podia ser o missionário da Grã-Canária, dizia, porque esse andava sempre a pé.

Quando deixou as ilhas, ofereceram a ele um capote novo. Recusou e levou o velho, com cinco rasgões que o povo tinha feito nele. Nas Canárias o chamavam de «el Padrito», o Paizinho, com esse diminutivo carinhoso. Em 1951, Pio XII o declarou copadroeiro da diocese das Canárias, junto com Nossa Senhora do Pino.

Com aquele capote nas costas, voltou a Vic, e lá propôs ao seu bispo reunir outros padres para missionarem juntos. Em 16 de julho de 1849, dia de Nossa Senhora do Carmo, numa cela do seminário, começou com cinco padres uma congregação, uma família de missionários que viveria sob uma mesma regra. Deu a ela o nome de Congregação dos Missionários Filhos do Imaculado Coração de Maria. Ele se considerava o último de todos.

Claret definiu cada um dos seus missionários com estas palavras, «Um Filho do Imaculado Coração de Maria é um homem que arde em caridade e que abrasa por onde passa». Um homem assim, continuava, se alegra com as privações e se compraz com as calúnias.

Mas aquela família não tinha nem um mês quando, em 11 de agosto, logo que Claret desceu do púlpito, o bispo de Vic, Luciano Casadevall, pôs na mão dele uma nomeação da Coroa. Ela o fazia arcebispo de Santiago de Cuba. Claret ficou paralisado, como morto.

Disse que não. Sentia-se indigno e não queria deixar a editora nem a congregação, que tinham acabado de nascer. Recusou a insistência do núncio, o representante do Papa em Madri, e a do ministro. Eles recorreram então ao bispo, a quem ele obedecia em tudo, e o bispo lhe ordenou que aceitasse.

Aquela ordem o fez estremecer. Não tinha coragem de dizer sim, mas queria obedecer. Pediu alguns dias de oração e encarregou quatro padres de sua confiança de o recomendarem a Deus e lhe dizerem o que fazer. Entre eles estava o padre Pedro Bach, seu diretor desde a noite em que chegou encharcado a Vic. No último dia, deliberaram e lhe deram a resposta. Era a vontade de Deus.

Em 4 de outubro, aceitou.

E o mesmo bispo que lhe tinha ordenado aceitar o consagrou um ano depois, na catedral de Vic. Era 6 de outubro, dia de Nossa Senhora do Rosário e de São Bruno, o mesmo santo do santinho que ficava na sua mesa de seminarista.

Já bispo e ainda missionário, no fim de dezembro embarcou em Barcelona rumo a Cuba e, durante quase dois meses de travessia, pregou uma missão para os que viajavam com ele.

A terra que treme

Em 16 de fevereiro de 1851, o novo arcebispo pisou em Santiago de Cuba. Tinha diante de si uma diocese enorme que nunca tinha pedido.

Poucos dias depois, foi rezar diante de Nossa Senhora da Caridade do Cobre. A capela dela, a quatro léguas da cidade, estava cheia das oferendas que os fiéis deixavam em agradecimento.

Em El Cobre, o povoado daquele santuário, pregou uma missão, e nela casou cerca de quatrocentos casais que viviam juntos sem serem casados. A lei civil da época exigia uma licença para casar brancos com pessoas negras ou pardas, por isso, para não errar, todos os dias ele perguntava ao comandante do povoado se entre eles havia algum impedimento de raça. Um dia apareceu um homem de Cádis que vivia com uma mulher mestiça. Tinham nove filhos, e ele queria se casar para poder criá-los bem. O secretário do arcebispo lhe disse que voltasse.

Naquela mesma noite, o comandante escreveu ao pároco do povoado acusando o arcebispo de casar «gente de classe diferente». Claret repreendeu o comandante por aquela acusação, que considerava caluniosa, e o militar negou ter avisado os seus superiores. Mas o comandante-geral, a maior autoridade militar da região, mal aconselhado, abriu contra o arcebispo uma investigação das mais furiosas. Foi o seu primeiro desgosto em Cuba. No fim, as autoridades concordaram em admitir exceções, desde que os missionários as comunicassem antes ao governador.

Aquele desgosto não deteve as missões. No ano seguinte ele pregava em Manzanillo quando, sem saber como, deixou escapar que viriam grandes terremotos.

Em 20 de agosto de 1852, às dez da manhã, estava em Bayamo quando sentiu o primeiro.

E em Santiago, a sua sede, a terra continuou tremendo. A catedral ficou rachada e o palácio, em ruínas. Os cavalos ficavam parados na rua, os doentes saíam dos hospitais e o povo gritava «Misericórdia!». A missa era celebrada em capelas de tábuas erguidas nas praças, e a uma delas, na alameda, chegavam as procissões com que o povo pedia a Deus que tivesse piedade.

À tarde, o arcebispo pregava uma missão de penitência e comparava Deus a uma mãe que sacode a cama do filho dorminhoco para acordá-lo e que, se isso não basta, castiga o corpo dele. Era assim que ele entendia aqueles tremores, e avisou que, se não se convertessem, viria a peste. Alguns levaram a mal e murmuraram contra ele.

Um mês depois, chegou o cólera. Numa rua, morreram todos os moradores em menos de dois dias. O arcebispo e seus padres estavam sempre no meio dos doentes, cuidando da alma e do corpo deles. Daqueles padres, só um morreu.

Era o pároco de El Cobre, o povoado da Virgem. Já estava doente de cama quando vieram chamá-lo para atender um moribundo, e ele respondeu «Sei que, se eu for, vou morrer... mas, como aqui não há outro Sacerdote, lá vou eu».

Foi, voltou, deitou-se e morreu.

A visita pastoral, o percurso do bispo por cada povoado da sua diocese, seguiu adiante, a cavalo e a pé. Três vezes ele percorreu assim a maior parte daquele território enorme. A quarta, no começo de fevereiro de 1856, levou-o a Holguín.

Como cristão, como sacerdote

Holguín era só mais um dos povoados daquela diocese que Claret tinha aceitado por obediência. Em primeiro de fevereiro de 1856, o arcebispo pregou ali durante uma hora e meia sobre a Apresentação de Jesus no Templo, o dia em que Maria e José levaram o Menino para oferecê-lo a Deus.

Às oito e meia da noite, saiu pela calle Mayor com quatro padres, o seu pajem e um sacristão que iluminava o caminho com uma lanterna. Ia de cabeça inclinada, com o lenço na boca. Um homem se adiantou, fez menção de beijar o seu anel e tirou uma navalha de barbear. Mirava o pescoço. Por causa da cabeça baixa e do lenço, a lâmina não chegou ao pescoço, mas abriu a face esquerda dele até o osso, da orelha ao queixo, e atingiu também o braço direito.

Na botica ao lado, diante dos médicos assustados, o ferido continuava sereno, e era ele quem ia dizendo o que tinham de fazer. Desmaiou por um instante e voltou a si com vinagre. Os médicos calcularam que ele tinha perdido mais de dois quilos de sangue.

Levaram-no para a pousada numa padiola, uma maca feita de varas. Na cama, sentiu algo que não sabia explicar, o prazer, o gozo e a alegria de ter finalmente derramado o seu sangue por Jesus e por Maria. Aquela alegria chegava até quem ia visitá-lo, e durou enquanto as feridas continuaram abertas.

Viu também que o demônio tinha ajudado aquele homem a desferir o golpe. Lembrou-se de que, ainda assim, ele mesmo era ministro de Cristo, e rezou pelo agressor com as palavras de Jesus na cruz.

E disse «Meu Pai, perdoai-lhe, porque não sabe o que faz».

Depois abriu-se no rosto dele uma fístula, um canal por onde lhe escapava a saliva. Ele se encomendou à Virgem, e a fístula se fechou de repente. Na cicatriz do braço, viu desenhar-se uma imagem de Nossa Senhora das Dores, a Virgem ao pé da cruz, que com os anos foi se apagando.

Restava o homem que lhe tinha aberto o rosto. Era um homem de Tenerife, nas Canárias, Antonio Pérez, conforme o identificou o próprio arcebispo. Um ano antes, a pedido dos parentes de Pérez, Claret o tinha feito sair da cadeia.

Diante do juiz, o ferido declarou que o perdoava «como cristão, como Sacerdote e como Arcebispo».

O juiz condenou o agressor à morte. O arcebispo pediu o indulto dele, isto é, que lhe perdoassem a pena. Fez esse pedido ao capitão-general, a maior autoridade da ilha, que tinha viajado até lá para ver o ferido. Ofereceu-se, além disso, para pagar a Pérez a viagem de volta à sua terra. O homem escapou do garrote, a forma de execução da época, e cumpriu dez anos de prisão com trabalhos forçados na África.

No caminho de volta, puseram fogo na fazenda onde achavam que ele ia dormir. Santiago o recebeu como alguém que todos já davam por morto. Voltava desfigurado, com a cicatriz atravessando o rosto, e durante meses a voz lhe saiu travada.

Um ano depois, uma ordem da Coroa o tirou de Cuba.

O pássaro engaiolado

Em Cuba, ele tinha sido ferido em plena rua. Em Madri, ninguém levantava a mão contra ele. Em junho de 1857, foi nomeado confessor da rainha Isabel II, o padre que a ouvia em confissão e guiava a sua vida de fé. Também coube a ele ensinar a fé à pequena infanta Isabel.

No palácio o respeitavam, e a rainha o estimava de verdade. Ele reconhecia isso, e mesmo assim viver na corte era para ele um martírio contínuo. Explicou isso com uma imagem simples.

«Sou como um pássaro engaiolado, que vai percorrendo as varetas para ver se consegue escapar.»

Chegou a dizer que quase teria ficado contente com uma revolução, contanto que o mandassem embora. À rainha pediu um único favor, o de deixá-lo se retirar, e foi justamente esse que nunca lhe concederam.

Um dia, os reis lhe impuseram de surpresa a cruz de Carlos III, uma alta condecoração do reino. Diante de todos, ficou calado. Depois, a sós, disse à rainha que aquilo lhe tinha causado um grande pesar, e desde então só a usava nos dias de grande gala. Também não aceitava presentes. Queria poder dizer, no dia em que fosse embora, que não tinha recebido da rainha nem um alfinete.

Ficou, porque entendia que essa era a vontade de Deus, e todos os dias voltava a oferecer a Ele aquela prisão.

O seu dia começava às três da madrugada, no inverno e no verão, e ele rezava enquanto se vestia. Antes da meditação, rezava o Trisságio, uma oração de louvor à Santíssima Trindade. Antes do almoço fazia a via-sacra, a oração que percorre os passos de Jesus a caminho da cruz, e à noite rezava o rosário inteiro. A mesa era outra briga. Não provava carne, nem peixe, nem vinho, embora gostasse deles, e chamava o próprio corpo de mau burrico, um burro teimoso que muitas vezes levava a melhor.

O que mais lhe custava era a hora das audiências, das onze ao meio-dia. A antessala se enchia de gente que vinha pedir um emprego no governo ou um favor do palácio, e ele não concedia nem um nem outro. Por mais razões que lhes desse, não se convenciam. Antes de sair, pedia a graça de não se irritar. Enquanto um saía e o seguinte entrava, erguia os olhos para uma imagem de Maria. Despedia muitos com alguma ajuda ou com um livro, e assim eles iam embora menos desesperados.

Naqueles anos, José Xifré, um dos cinco companheiros da cela de Vic e já superior da congregação, mandou que ele escrevesse a história da sua vida. Ele a escreveu só por obediência, sabendo que teria de contar coisas que preferiria calar. Assim nasceu a sua Autobiografia. Nela deixou a oração que se propôs repetir sem descanso, a que hoje é conhecida como a sua oração apostólica. Ela começa assim. «Ó meu Deus e meu Pai, fazei que eu Vos conheça e Vos faça conhecer, que Vos ame e Vos faça amar.»

Nessas mesmas páginas guardou o que tinha vivido pouco antes, num verão em La Granja, o palácio dos reis perto de Segóvia. Em 26 de agosto de 1861, às sete da tarde, ele rezava na igreja do Rosário. Ali recebeu uma graça que o acompanharia pelo resto da vida. Cristo presente na Eucaristia, na hóstia consagrada que ele recebia ao comungar, permanecia em seu peito de uma comunhão a outra, dia e noite. Com essa graça vinha uma missão, rezar e enfrentar os males que ameaçavam a Espanha.

Diante do Santíssimo, que é Jesus presente na Eucaristia, acontecia com ele algo que confessou com estas palavras «Diante do Santíssimo Sacramento sinto uma fé tão viva que não consigo explicar». Quando chegava a hora de ir embora, tinha de se arrancar dali.

Meses depois, pensou em apagar aquela graça do que tinha escrito. Ele mesmo contou que a Virgem lhe disse que não a apagasse, e que na missa Jesus a confirmou.

Fora do palácio, aquele respeito tinha outra face, e em 1864 começaram a ser impressos papéis contra ele.

Antônio, retira-te

Em Madri circulavam contra ele jornais, folhetos e fotografias adulteradas. Havia caricaturas dele que eram vendidas por toda parte. Circularam até livretos indecentes impressos com os títulos de dois livros dele, El Ramillete e La Llave de oro, para que as pessoas acreditassem que eram obra sua. Por trás estavam grupos políticos que não tinham conseguido usá-lo para chegar até a rainha. Agora o pintavam como um homem corrupto e ávido de poder.

Às vezes a sua natureza se ressentia. Então contemplava Cristo, via como estava longe de sofrer o que Cristo tinha sofrido por ele, e se acalmava. Os amigos lhe pediam que se defendesse. Ele respondia que a melhor defesa era não dar importância e rezar pelos que o atacavam. Naquele ano escreveu O consolo de uma alma caluniada.

Em 21 de março de 1865, ajoelhou-se no seu confessionário o homem que desenhava aquelas caricaturas. Ele tinha se convertido. Os seus desenhos eram muitos, muito maus e caluniosos. Agora o caricaturista estava do outro lado da grade, pedindo perdão.

Mas naquele verão a provação veio de alguém de quem Claret gostava, a rainha, que se confessava com ele. Na Itália tinha nascido um reino novo, o Reino da Itália, que foi tomando quase todas as terras governadas pelo Papa. A Espanha se preparava para reconhecê-lo. Pio IX já tinha escrito à rainha que sempre a aconselharia contra isso. Claret a tinha avisado e, por duas vezes, tinha ameaçado deixá-la. Ela lhe tinha prometido que, antes de dar esse passo, deixaria de ser rainha. Em 15 de julho o governo aprovou o reconhecimento, e a rainha chorou.

Dois dias depois, em La Granja, Claret rezava diante do Cristo do Perdão, uma imagem de Jesus venerada ali. Ouviu uma voz que ele atribuiu a Jesus e que lhe dizia «Antônio, retira-te». E partiu para a Catalunha.

A rainha lhe escreveu uma carta suplicando «faça o senhor mais este sacrifício pela sua filha de confissão». Ele pediu ao núncio, o representante do Papa, que consultasse Roma. De lá responderam que fizesse o que Deus lhe inspirasse.

Sem saber o que fazer, Claret colocou a decisão nas mãos dos missionários da sua congregação. Em 23 de agosto, em Vic, José Xifré, o superior-geral, reuniu-se com os quatro consultores, os padres que o ajudavam a governar a congregação. Os cinco confiaram a decisão a Deus e votaram. Três disseram que ele não voltasse à corte. Dois, que voltasse. Claret deixou dito com estas palavras «Aderindo à maioria dos votos, resolvi não ir». Ficou em Vic pregando exercícios espirituais, dias de retiro e oração.

Em novembro foi a Roma. Pio IX o recebeu duas vezes e lhe pediu que continuasse ao lado da rainha.

Em dezembro voltou a Madri, porque o núncio assim lhe ordenou. O pássaro voltava à gaiola por obediência.

Com Ele morrerá

A revolução que Claret quase tinha desejado chegou em setembro de 1868 e destronou Isabel II. A porta da gaiola enfim se abriu, mas dava para o exílio. O confessor atravessou a fronteira com a rainha e ficou com a corte na cidade de Pau, já na França.

Ali recebeu de La Selva del Camp a notícia de que um dos seus missionários tinha sido assassinado, o primeiro da congregação a morrer mártir. Em 7 de outubro escreveu a Xifré uma carta que começava com estas palavras, «Demos graças a Deus». Para ele, aquela morte era como o primeiro fruto da colheita, e foi assim que o disse na carta, «o Senhor e a sua Santíssima Mãe já se dignaram aceitar as primícias dos mártires». Também lembrava a Xifré que as tempestades não duram para sempre.

Mas a tempestade continuou. Em 18 de outubro o governo suprimiu a sua congregação. Xifré, ameaçado de morte, vivia escondido, e Claret aprovou que ele tivesse se ocultado.

Depois acompanhou a corte até Paris. Na primavera de 1869 separou-se dela e viajou para Roma, onde foi acolhido por uns frades mercedários. A um sacerdote amigo confessava por carta, «Parece-me que já cumpri a minha missão».

Ainda lhe restava algo a dizer. Em dezembro abriu-se o Concílio Vaticano I, a grande assembleia de bispos do mundo inteiro convocada pelo Papa, e ele estava entre eles.

No fim de maio de 1870, ouvindo na sala do Concílio coisas que o indignaram, sentiu o sangue subir à cabeça. Sofreu um princípio de apoplexia, um pequeno derrame cerebral. A saliva escorria pelo lado da cicatriz de Holguín e a língua se travava. Em 31 de maio pediu a palavra mesmo assim. Discutia-se a infalibilidade do Papa, isto é, que, quando o Papa define solenemente uma verdade de fé para toda a Igreja, não pode errar. Claret falou a favor. Como prova do que acreditava, ofereceu os seus sofrimentos, sobretudo a ferida que lhe abriu o rosto em Cuba, e declarou-se disposto a derramar todo o seu sangue por essa verdade.

Naquele verão o Concílio foi interrompido. Em 23 de julho chegou doente a Prades, uma cidadezinha do sul da França onde viviam os seus missionários exilados. Ali o avisaram de que queriam prendê-lo para levá-lo a julgamento na Espanha. Teve de fugir como um criminoso.

Numa tarde quente de agosto chegou à abadia de Fontfroide, perto de Narbona, um mosteiro de monges cistercienses erguido em pedra nos séculos doze e treze. O prior o recebeu e o acolheu na casa de hóspedes.

Todos os dias Claret descia muito cedo para celebrar a missa, depois de se preparar longamente, e em seguida visitava o Santíssimo. Às vezes acompanhava a missa dos monges de uma cadeira simples do coro, o lugar da igreja onde eles cantam.

No começo de outubro um ataque lhe paralisou o lado direito, e ele não voltou a se levantar. Recebeu os últimos sacramentos. Nas mãos de Xifré fez a sua profissão, a promessa com a qual se entregava para sempre como mais um dos Filhos do Coração de Maria, a família que ele mesmo tinha fundado.

Ao seu lado estava o padre Jaime Clotet, um dos cinco sacerdotes daquela cela de Vic. O doente beijava muitas vezes o crucifixo e lhe pedia que sugerisse jaculatórias, orações de uma linha só, para repeti-las com ele. Em 23 de outubro, ao vê-lo beijar a cruz, Clotet lhe falou com o tratamento que se dava a um arcebispo.

«Vossa Excelência quer morrer com Jesus Cristo, e com Ele morrerá.»

Já muito grave, Claret lhe respondeu com voz clara.

«Diga isso, diga, com Ele morrerá.»

A agonia foi longa, mas serena. Na manhã seguinte os monges rezavam de joelhos no quarto, e Clotet e outro missionário estavam junto à cama. Às oito e quarenta e cinco de 24 de outubro de 1870, Antônio Maria Claret morreu, aos sessenta e dois anos.

Clotet não sabia como contar a Xifré aquela calma, e na carta lhe dizia «Agora vejo bem que a morte dos justos não é morte, mas sono». Conhecia Claret havia mais de vinte anos e nunca o tinha visto tão belo como naquela manhã.

O missionário que tinha percorrido tantos caminhos a pé ficava agora nas mãos dos monges, em terra estrangeira, longe de Vic.

A caixa do carpinteiro

Três dias depois, após o funeral, os monges o enterraram no seu pequeno cemitério, num túmulo aberto na rocha. Na lápide foi gravada uma frase antiga atribuída a um papa, «Amei a justiça e odiei a iniquidade, por isso morro no exílio».

Ali ele descansou, longe da sua terra, por mais de um quarto de século. Em 1897 os seus restos voltaram a Vic.

Nesse mesmo ano, em Lérida, uma moça de quinze anos pegou varíola. Estava em perigo de morte e pediu a Claret que intercedesse por ela diante de Deus. Na manhã seguinte acordou curada. Anos mais tarde, Roma examinou aquela cura e a reconheceu como milagre, junto com a de uma religiosa filipense que ficou curada na hora de uma úlcera grave enquanto rezava com as suas irmãs.

Com esses dois milagres, em fevereiro de 1934, Pio XI o declarou beato, o passo com que a Igreja reconhece que alguém está junto de Deus e permite venerá-lo.

Mas nem depois de morto o deixaram em paz. Em 20 de julho de 1936, diante do perigo de um ataque à casa dos claretianos em Vic, o padre Bertrans cortou os lacres da urna e, com outros dois padres, retirou o corpo. Um carpinteiro da cidade tinha feito uma caixa por encomenda do padre. Com o corpo dentro, o carpinteiro a tirou do convento e a escondeu na sua casa.

Foi assim que se salvou o corpo de um homem que Roma declarou santo em 7 de maio de 1950. Antes, tinha reconhecido como milagre, entre outras, a cura do câncer de uma religiosa em Santiago de Cuba, a mesma cidade da qual ele tinha sido arcebispo. Todo dia 24 de outubro, dia da sua morte, a Igreja inteira pede a Deus, em memória dele, a caridade e a paciência com que o fortaleceu para anunciar o Evangelho.

Hoje o seu corpo repousa em Vic, na cripta do templo que a sua família religiosa ergueu, num sepulcro do escultor Domènec Fita. É a cidade aonde ele chegou encharcado numa noite de chuva, aos vinte e um anos, e onde fundou a sua congregação numa cela. O tecelão de Sallent que só queria pregar a pé foi levado a Roma, a Cuba, ao palácio e ao exílio. No fim, outras mãos o trouxeram de volta para casa.

Santo Antônio Maria Claret, tecelão de Sallent e missionário a pé, vós deixastes que Deus vos levasse aonde não teríeis querido ir. Em Holguín perdoastes quem vos feriu, como cristão, como sacerdote e como arcebispo. Alcançai-nos um coração que obedeça sem medo e que saiba perdoar. Acompanhai os doentes, os caluniados e os que vivem longe de casa, como vós vivestes o exílio. Que, como pedíeis todos os dias, conheçamos a Deus e o façamos conhecer, o amemos e o façamos amar. Rogai por nós. Amém.

Perguntas frequentes

Quem foi Santo Antônio Maria Claret?

Foi um sacerdote e missionário catalão nascido em Sallent em 1807, antes operário têxtil em Barcelona. Fundou os claretianos, foi arcebispo de Santiago de Cuba e depois confessor da rainha Isabel II.

Como e onde morreu Santo Antônio Maria Claret?

Morreu em 24 de outubro de 1870, aos sessenta e dois anos, na abadia cisterciense de Fontfroide, perto de Narbona, na França, para onde fugira exilado. Um ataque lhe paralisou o lado direito no início de outubro, e sua agonia foi serena.

O que aconteceu com Santo Antônio Maria Claret em Holguín?

Em 1º de fevereiro de 1856, um homem lhe abriu a face da orelha ao queixo com uma navalha de barba. Claret o perdoou diante do juiz «como cristão, como sacerdote e como arcebispo» e pediu que não o executassem.

Qual é a oração apostólica de Santo Antônio Maria Claret?

É a oração que deixou escrita na Autobiografia e que se propôs repetir sem descanso. Começa assim: «Ó meu Deus e meu Pai, fazei que eu vos conheça e vos faça conhecer; que eu vos ame e vos faça amar».

O que aconteceu com o corpo de Santo Antônio Maria Claret?

Foi sepultado em Fontfroide, e em 1897 seus restos voltaram a Vic. Em julho de 1936, diante do perigo de assalto, foi retirado da casa claretiana e um carpinteiro o escondeu. Hoje repousa na cripta do templo-sepulcro de Vic.

Fontes

Fuentes primarias (siglo XIX)

  • Antonio María Claret, Autobiografía (1861–1865) — reproducción de las Religiosas de María Inmaculada, Misioneras Claretianas misionerasclaretianasrmi.org
  • Pío IX, Carta a Isabel II sobre el reconocimiento de Italia (1865) — en la Autobiografía, nn. 841–844
  • Isabel II, Carta a Claret (1865) y Carta del nuncio con la respuesta del cardenal Antonelli (1865) — en la Autobiografía, nn. 840–851
  • Testimonios sobre su aspecto físico y pasaporte de 1839 — recogidos en Iter CMF itercmf.org

Fuentes hagiográficas y tradición

  • Catholic.net (fuente EWTN), Antonio María Claret, Santo es.catholic.net
  • Vicente Sanz Tobes cmf, Claret, un hombre (Iter CMF; material de Iris de Paz) itercmf.org
  • Hispania Martyr, San Antonio Mª Claret en Sallent y en Vic (2017) hispaniamartyr.org

Documentos y estudios eclesiásticos y académicos

  • Misioneros Claretianos – Curia General, Biografía de San Antonio María Claret (2018) claret.org
  • Centro de Espiritualidad Claretiana de Vic, Cronología (2021) cescvic.org
  • CESC Vic, Lugares claretianos – Fontfroide (2021) — https://www.cescvic.org/lugares-claretianos-fontfroide/ y cescvic.org
  • CESC Vic, Burial place of Fr. Claret in Santa Eugenia de Berga (2022) cescvic.org
  • Gobierno General CMF, Caritas Christi urget nos (2020) centroamericacmf.org
  • Claret Sanctus Paulus, Los últimos días de san Antonio María Claret (2025) claretpaulus.org
  • Curia General CMF, Commemorating Adversities that Opened Unexpected Horizons (2018) claret.org
  • Misioneros Claretianos, 14 de agosto y 24 de octubre (Claret contigo) (2018) — https://www.claret.org/14-august/ y claret.org
  • Misioneros Claretianos, Por el París del P. Claret (2026) claretianos.es
  • Misioneros Claretianos, February 25 – Beatification of our Father Founder (2018) claret.org
  • Misioneros Claretianos, May 22 – St. Joaquina Vedruna (2023) claret.org
  • Iter CMF, Canonización del P. Fundador itercmf.org
  • Pablo VI, Sancta amicitia (1964) — AAS 56 (1964) 800–801 vatican.va
  • Juan XXIII, Discurso a los peregrinos de la canonización de Joaquina de Vedruna (1959) vatican.va
  • Missale Romanum y Liturgia Horarum, memoria del 24 de octubre — reproducción en liturgies.net
  • Jeanne Moisand, El padre Claret y el escándalo de los matrimonios interraciales, en Gobernar colonias, administrar almas (2018) — Casa de Velázquez books.openedition.org
  • Juan Ramón Royo García, San Antonio María Claret y los claretianos en Aragón (2024) iglesiaenaragon.com
  • Dominicos, Francisco Coll y Guitart, OP ser.dominicos.org
  • Capuchinos de Pamplona, Relieves en bronce. Vida de Esteban de Adoáin iglesiasanantonio.capuchinospamplona.org

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quinta-feira, 29 de outubro · Evangelho

Jesus segue para Jerusalém e chora sobre a cidade que mata os profetas

Naquele tempo, no mesmo dia, aproximaram-se alguns fariseus e disseram a Jesus: “Sai e vai embora daqui, porque Herodes quer matar-te”. Ele lhes disse: “Ide dizer a essa raposa: Eis que expulso demônios e realizo curas…