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FIDES VIVA

29 de setembro

São Miguel, São Gabriel e São Rafael

Os únicos anjos chamados pelo nome na Bíblia

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Capítulos
  1. 0:00Nomes em terra de exílio
  2. 3:14Miguel: uma pergunta diante do Dragão
  3. 6:30Onde os povos o buscaram
  4. 12:35A oração de um Papa
  5. 16:26Gabriel: a dúvida e o sim
  6. 20:46O companheiro de caminho
  7. 26:31Medicina de Deus em Córdoba
  8. 29:13Um só dia para os três

Todo 29 de setembro, a Igreja celebra numa única festa os arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael, os únicos anjos que a Escritura chama pelo nome. Os três nomes terminam em «El», uma palavra hebraica que significa Deus: falam de Deus antes de falarem de si mesmos.

Um enfrenta o diabo e não o amaldiçoa. Diz apenas: «O Senhor te repreenda».

Outro é enviado a Nazaré, a uma jovem, Maria, que será mãe do Filho do Altíssimo.

O terceiro caminha ao lado de um rapaz, Tobias, que não sabe com quem está indo.

Muita gente reza todos os dias uma oração a São Miguel, e se conta que ela nasceu de uma visão que deixou um Papa imóvel. Foi assim mesmo? E qual é a oração que a Igreja propõe a todos?

E aquele companheiro, enviado para curar um pai cego e uma jovem que tinha perdido sete maridos, quando disse, enfim, quem era?

Nomes em terra de exílio

A história desses nomes começa numa cidade sitiada: Jerusalém, uns seiscentos anos antes de Cristo. Quem a cerca é o exército de Nabucodonosor, rei da Babilônia. O rei manda escolher jovens de sangue real e de famílias nobres para servirem no seu palácio. Entre eles vai um rapaz chamado Daniel. Todos deixam para trás sua terra, sua casa e o Templo do seu Deus. No exílio, Daniel vai ouvir dois dos três nomes: Gabriel e Miguel.

O terceiro nome vem de outro exílio, ainda mais antigo: o dos israelitas que o rei da Assíria levou para Nínive. Ali vive um ancião, Tobit, o pai de Tobias, aquele rapaz do caminho. Um dia, a porta dele vai se abrir para o companheiro do filho.

Nessas duas histórias de exílio aparecem, com nome próprio, os três arcanjos. Mas o que é um anjo? A Igreja ensina, como verdade de fé, que os anjos existem. São espíritos com inteligência e vontade: não têm corpo e não morrem. Servem a Deus e levam as suas mensagens. E no centro do mundo deles está Cristo: eles o acompanham desde que se faz homem até subir ao céu.

Por isso a Igreja os honra como o que são: servidores de Deus, sempre voltados para Ele. E, na devoção, pede uma coisa concreta: não dar aos anjos nomes que a Escritura não lhes dá. Circulam listas com outros nomes, mas na Escritura só aparecem três: Miguel, Gabriel e Rafael.

Voltemos àquele caminho. Um dos jovens se vira para olhar a sua cidade. É Daniel. E na história dele entra o primeiro dos três: Miguel.

Miguel: uma pergunta diante do Dragão

Os anos passam, e Daniel continua na Babilônia. Um dia, começa um luto de três semanas: não prova carne nem vinho, e se humilha diante do seu Deus para entender o que será do seu povo. Sem saber, ele não está sozinho.

Então um mensageiro de Deus lhe traz a resposta: «Não tenhas medo, Daniel». E conta que um inimigo, «o príncipe da Pérsia», lhe barrou o caminho durante vinte e um dias, até que Miguel veio ajudá-lo. E lhe deixa uma promessa para os dias mais escuros: «Naquele tempo, se levantará Miguel, o grande príncipe, defensor dos filhos de teu povo».

É assim que Miguel entra na Bíblia: como o protetor de um povo pequeno diante dos impérios. Até o nome dele é uma pergunta: Miguel significa «Quem é como Deus?». E essa pergunta já traz a resposta: ninguém é como Deus.

Uma carta breve do Novo Testamento, a de São Judas, guarda outra cena. Miguel disputa com o diabo o corpo de Moisés, aquele que tirou Israel do Egito.

Miguel tem diante de si o inimigo de Deus. E, mesmo assim, não se atreve a julgá-lo por conta própria. Deixa o juízo nas mãos do Senhor e diz apenas: «O Senhor te repreenda».

O arcanjo não responde com um insulto. Responde dizendo o nome de Deus. Mas a Bíblia volta a colocá-los frente a frente.

Será no seu último livro, o Apocalipse, que abre o céu como um grande palco. Aparece um sinal: uma Mulher vestida de sol, na qual a Igreja vê a Virgem Maria. Logo aparece outro, um Dragão «cor de fogo. Tinha sete cabeças e dez chifres». O Dragão se põe diante dela para devorar o filho assim que ele nascer. Mas o menino é levado para junto de Deus, até o seu trono.

Então irrompe uma batalha no céu.

Miguel e os seus anjos combatem o Dragão. O Dragão luta, e os seus anjos com ele. E o Dragão cai. É a antiga Serpente, o diabo, precipitado sobre a terra junto com os seus anjos.

Depois se ouve uma voz forte no céu. Ela proclama a salvação, porque caiu «o acusador dos nossos irmãos». E a voz diz também como os irmãos o venceram. Eles o venceram pelo sangue do Cordeiro.

O Cordeiro é Cristo, que deu a vida na cruz.

Não é a espada que vence: a vitória vem por esse sangue.

A Escritura mostra Miguel no céu e junto do seu povo. Na terra, foram os povos que buscaram lugares ligados a ele. Muitos séculos depois, numa montanha do sul da Itália, um touro perdido aparece ajoelhado na entrada de uma caverna.

Onde os povos o buscaram

O dono do touro, um senhor rico que andava à procura dele, retesa o arco e dispara uma flecha contra o animal. A flecha não acerta o touro. Dá a volta no ar e fere o próprio atirador no pé.

É assim que se conta há séculos em Monte Sant'Angelo, a cidade erguida sobre essa montanha do Gargano, e os seus peregrinos situam a história no ano 490. O caso chega a Lourenço Maiorano, bispo de Siponto, a cidade vizinha no litoral. O bispo ordena três dias de oração e penitência.

No terceiro dia, o arcanjo lhe aparece e diz quem é: «Sou o arcanjo Miguel e estou sempre na presença de Deus». A caverna, acrescenta, é consagrada a ele. Ali os pecados serão perdoados. Ali será concedido o que se pedir em oração.

Em outra aparição, o arcanjo anuncia ao bispo uma vitória de Siponto. A tradição a situa num 8 de maio, e nesse dia o Gargano continua a recordar a aparição.

Depois, os bispos da Apúlia sobem em procissão para dedicar a caverna a Deus. Ao entrar, encontram um altar primitivo já erguido.

A lenda acrescenta algo mais: na rocha teria ficado a pegada do arcanjo. Essa rocha está hoje cercada no Altare delle Impronte, o altar das pegadas. Não é uma relíquia. Os anjos não têm corpo, e nada deles pode ser guardado num relicário. O que a gruta oferece é a memória de um lugar onde se reza há séculos.

Na época bizantina, o Gargano venerava Miguel sobretudo de duas maneiras. Ele era quem apresentava as almas dos falecidos diante do trono de Deus. E era quem curava. Da rocha gotejava uma água, a «stilla», e os relatos lhe atribuíam curas. A ideia de que São Miguel leva as almas até Deus vive nessa devoção antiga; não é uma página da Bíblia.

Em 1507 chegou à gruta uma estátua de mármore branco, atribuída ao escultor Andrea Sansovino. Miguel aparece como um adolescente sorridente, de cabelos cacheados e couraça de soldado romano. Sob os seus pés se contorce um monstro com cara de macaco, coxa de bode, garras de leão e cauda de serpente. Foi o escultor que o imaginou assim, não a Escritura. A espada continua erguida.

Em Roma, a espada conta outra coisa. No alto do Castelo de Sant'Angelo, junto ao Tibre, um anjo a recoloca na bainha, e ali se diz há séculos que o arcanjo livrou a cidade da peste.

A Normandia, no norte da França, tem a sua própria lenda. No ano 708, o arcanjo teria aparecido três vezes em sonho ao bispo Auberto para lhe pedir um santuário sobre uma ilhota chamada Mont-Tombe. Essa ilhota é hoje o Mont-Saint-Michel.

A abadia continua sendo um santuário: desde 2001, uma comunidade monástica mantém ali viva a sua tradição.

Os filhos de São Francisco de Assis recordam outro monte, La Verna, na Toscana. Perto do fim da vida, Francisco começou ali, no dia da Assunção de Nossa Senhora, uma Quaresma: cerca de quarenta dias de oração em honra de Deus, de Nossa Senhora e de São Miguel. Durante esses dias viu Cristo crucificado em figura de serafim e recebeu no corpo as chagas, as feridas de Jesus nas mãos, nos pés e no lado. Desceu do monte no dia da festa do arcanjo.

Aquela Quaresma não terminou com ele. Hoje muitos fiéis a rezam, no Brasil e na França, de 15 de agosto a 29 de setembro.

Do outro lado do oceano, em Tlaxcala, no México, ergue-se o santuário de San Miguel del Milagro. A memória do povo de lá conta que tudo começou em 25 de abril de 1631, durante a procissão de São Marcos. Um jovem indígena, Diego Lázaro de San Francisco, teve então uma visão interior de São Miguel. O arcanjo lhe anunciou uma fonte de água que curaria, escondida sob um penhasco.

Diego se calou, porque tinha medo. E adoeceu.

Quando já agonizava, viu um raio de luz e o arcanjo, que o levou até o barranco. Ali o arcanjo tocou o chão com o cajado, e Diego ficou curado. A sua família não conseguia mover as rochas que cobriam o lugar. Quem as afastou foi um jovem de aparência extraordinária.

Mas, com medo das pessoas, Diego continuou em silêncio. Seis meses depois, durante a missa, uma dor o atravessou, e o arcanjo lhe apareceu pela terceira vez, com uma repreensão. Desta vez Diego não se calou. Levou água da fonte ao bispo. O bispo prometeu investigar e mandou distribuir a água entre os doentes. Os que a beberam ficaram curados.

Diante da igreja do santuário continua o poço daquela água.

No fim do século dezenove, um Papa pediu à Igreja inteira que cada missa terminasse com uma invocação a São Miguel. Em torno dessa oração nasceu uma história que muitos repetem.

A oração de um Papa

É assim que se conta, como lembrança de testemunhas. Em 13 de outubro de 1884, ao terminar a missa, o idoso Leão XIII fica imóvel por uns dez minutos. O seu rosto mostra terror e espanto. Depois ele se retira e escreve uma oração a São Miguel. E a envia aos bispos. Mais tarde dirá que viu legiões de demônios e a intervenção do arcanjo.

A pergunta é se essa oração nasceu mesmo daquela visão.

A oração tem a sua própria data. Em 1886, Leão XIII incluiu uma invocação a São Miguel entre as orações que se rezavam no fim da missa em toda a Igreja. As suas primeiras palavras vinham de um versículo que já se cantava com o aleluia nas missas do arcanjo.

Em 1934, um estudioso da liturgia escreveu contra aquela história, que começava a correr de boca em boca. E as datas não batem: o relato faz a oração nascer naquele mesmo dia de 1884, mas a invocação só chegou às missas dois anos depois.

Há ainda outra lembrança, contada de segunda mão décadas mais tarde. Um velho cardeal, cujo nome não foi lembrado, teria dito que o Papa acrescentou a invocação contra a ameaça da maçonaria, movido por uma revelação. É só um ouvi-dizer. A oração é de 1886; da visão de 1884 resta apenas um relato que se discute.

Aquela invocação breve é a oração que a Igreja propõe a todos. Uma instrução de 1964, dentro da reforma da liturgia, a retirou do fim da missa. Trinta anos depois, em 1994, durante o Regina Caeli, a oração a Nossa Senhora no tempo da Páscoa, João Paulo II convidou a não esquecê-la e a rezá-la. Ela diz assim: «São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate. Sede o nosso refúgio contra a maldade e as ciladas do demônio. Ordene-lhe Deus, instantemente o pedimos. E vós, príncipe da milícia celeste, pela virtude divina, precipitai no inferno a Satanás e os outros espíritos malignos que andam pelo mundo para perder as almas. Amém».

Circula também uma fórmula longa, apresentada como «poderosa». Ela inclui o exorcismo publicado por ordem de Leão XIII, um rito reservado a sacerdotes com permissão do seu bispo, e essa parte os fiéis não devem usar. A Igreja exclui da piedade a magia e a superstição: nenhuma fórmula age por si mesma. O que todos podem rezar é a invocação breve a São Miguel e o pedido que Jesus ensinou no Pai-Nosso: «livrai-nos do mal».

Em 5 de julho de 2013, nos Jardins do Vaticano, o papa Francisco inaugurou um monumento a São Miguel. Ali mesmo consagrou o Estado da Cidade do Vaticano a São Miguel e a São José. Bento XVI estava presente.

Aquele nome que era uma pergunta, «Quem é como Deus?», recebeu então uma resposta dos lábios de Francisco.

«São Miguel vence porque é Deus quem age nele».

O livro de Daniel não nomeia apenas Miguel. Nele aparece também outro mensageiro, que não combate: Gabriel.

Gabriel: a dúvida e o sim

O seu nome significa «força de Deus». No livro de Daniel, essa força se exerce pela palavra. Diante de uma visão que o profeta não consegue decifrar, Gabriel lhe dá o sentido. Em outro momento, anuncia-lhe acontecimentos que ainda estão por vir.

Muitos séculos depois, em 1951, o papa Pio XII declarou Gabriel padroeiro das telecomunicações. É também padroeiro da Rádio Vaticano. O mensageiro de Deus ficou ligado às profissões que levam a voz humana à distância.

Mas os dois anúncios que a Igreja mais recorda dele acontecem nas primeiras páginas do Evangelho de Lucas.

No Templo de Jerusalém, um sacerdote chamado Zacarias oferece o incenso sobre o altar. A fumaça sobe devagar na penumbra. E, à direita do altar, há alguém de pé.

É um anjo. Anuncia-lhe que Isabel, sua esposa, lhe dará um filho, e que esse filho se chamará João: aquele que um dia será conhecido como o Batista.

Zacarias não acha isso possível. Ele é velho, e a sua mulher também já tem muitos anos. Pede que lhe expliquem como algo assim pode acontecer. A resposta não discute as suas razões. Dá-lhe um nome.

«Eu sou Gabriel. Estou sempre na presença de Deus, e fui enviado para dar-te esta boa notícia».

No Gargano, a memória dos peregrinos punha palavras parecidas na boca de Miguel. Aqui, quem as diz é o Evangelho. O mensageiro vem da presença de Deus, e de lá traz a sua notícia. Mas Zacarias não acreditou, e o anjo lhe anuncia: «Eis que ficarás mudo e não poderás falar, até o dia em que essas coisas acontecerem».

O mesmo mensageiro é enviado depois a Nazaré, um pequeno povoado da Galileia. Vai ao encontro de uma jovem, uma «virgem, prometida em casamento a um homem chamado José. Ele era descendente de Davi». A virgem se chama Maria.

Gabriel a saúda: «Alegra-te, cheia de graça».

Depois lhe anuncia: «Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo». Explica-lhe que o Espírito Santo descerá sobre ela.

O velho sacerdote duvidou no lugar mais santo do culto. Ela, numa casa de vilarejo, escuta.

Bento XVI disse isso com simplicidade: «Gabriel é o mensageiro da encarnação de Deus». Por meio dele, Deus pede a uma jovem o seu «sim». Não o impõe: espera a resposta de uma mulher livre.

E Maria dá o seu sim: «Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra».

O Filho de Deus se faz homem.

As palavras do anjo não ficaram naquela casa. A saudação de Gabriel, «cheia de graça», abre a Ave-Maria. Cada vez que alguém a reza, repete a saudação que um mensageiro de Deus dirigiu a Maria. E o Angelus, a oração que recorda a Encarnação, começa pelo seu anúncio: «O Anjo do Senhor anunciou a Maria».

Gabriel anunciou dois nascimentos: o de João e o de Jesus. Por isso muitos se aproximam dele com o que esperam no mais íntimo. A quem procura como rezar com São Gabriel, a Igreja não oferece uma fórmula nova. Devolve-lhe as palavras do próprio anjo, ditas em Nazaré e rezadas todos os dias desde então.

Os dois anúncios de Gabriel acontecem no Templo e numa casa. O terceiro nome aparece num caminho que começa em Nínive, onde um idoso deportado vive cego há anos.

O companheiro de caminho

Aquele idoso é Tobit. O livro de Tobias, que a Igreja reconhece como Palavra de Deus, o apresenta pelo que ele faz. Entre os cativos de Nínive, dá esmola aos pobres. Paga os dízimos, a parte dos seus bens que a Lei de Moisés reservava para Deus. E sepulta os mortos que outros deixam abandonados atrás da muralha de Nínive.

Essa fidelidade lhe custa caro. Perde o que tinha. E um dia, depois de um gesto de caridade, perde também a visão.

O homem que cuidava dos outros agora depende dos outros para dar um passo.

Longe dali, na região da Média, vive uma jovem chamada Sara. Já se casou sete vezes. E sete vezes o marido morreu na noite de núpcias, por obra de um demônio que o livro chama de Asmodeu.

Sara pensou em se enforcar. Não o fez, e a razão que o livro dá é o seu pai. Não quis que aquele pai idoso descesse à sepultura consumido pela dor.

Duas casas separadas pela distância. Um idoso que já não enxerga e uma mulher que já não espera nada. Os dois rezam. E as suas orações chegam à presença do Senhor.

Deus envia alguém para curar os dois. Nem Tobit nem Sara sabem ainda quem é.

Tobit pensa no filho. Há um dinheiro que ele deixou confiado a um amigo, numa terra distante. Pede a Tobias que vá buscá-lo.

O rapaz nunca fez esse caminho. Seguindo o conselho do pai, procura alguém que o guie. E o primeiro que encontra é um viajante que conhece bem aquelas terras e aceita ir com ele.

Para Tobias, é um desconhecido que sabe o caminho. Isso basta para partir.

Certa tarde, param às margens do rio Tigre. Tobias desce até a água. E, de repente, um grande peixe salta em sua direção.

O jovem se assusta. O companheiro o encoraja. Então Tobias agarra o peixe e o puxa para a margem.

Seguindo as instruções do companheiro, tira-lhe o coração, o fígado e o fel, e os guarda. Nada disso parece importante ainda.

Já perto do destino, o companheiro o aconselha a ficar na casa de uns parentes. Nessa casa vive Sara, prima de Tobias. A Lei de Moisés a reservava como esposa para ele.

Tobias a conhece. E os dois se casam.

Chega a noite, a mesma que sete vezes terminou em luto. A conselho do companheiro, Tobias coloca o coração e o fígado do peixe no braseiro dos perfumes, o recipiente onde se queimavam aromas.

O demônio foge para o Egito, e o companheiro vai atrás dele e o deixa lá amarrado de pés e mãos. Então os esposos se levantam e rezam juntos. «Tu és bendito, ó Deus de nossos pais», começa Tobias, e termina pedindo: «Sê misericordioso comigo e com ela e concede-nos que cheguemos, juntos, a uma idade avançada». Os dois respondem: «Amém, amém».

Desta vez, a noite de núpcias não leva ninguém.

Voltam para Nínive. Tobias se aproxima do pai com o que restou do peixe do Tigre. Passa-lhe o fel nos olhos.

E Tobit vê.

A família quer pagar o companheiro de Tobias. Devem-lhe a viagem, o casamento, os olhos que voltaram a ver. Mas ele os leva à parte.

Diz-lhes que, quando eles rezavam, era ele quem apresentava as suas orações diante do Senhor. E que foi enviado por Deus.

Então diz o seu nome.

«Eu sou Rafael, um dos sete anjos que permanecem diante da glória do Senhor e têm acesso à sua presença».

Um rapaz tinha saído de casa com um desconhecido que sabia o caminho. Voltava sabendo que tinha caminhado ao lado de um enviado de Deus.

As orações de um cego e de uma mulher sem esperança não tinham se perdido no ar. Alguém que está diante da glória do Senhor as tinha levado até Deus. E tinha voltado com a resposta, a pé, pelos mesmos caminhos que eles.

Rafael significa «medicina de Deus». Tinha sido enviado para curar os dois: Tobit, para que voltasse a contemplar a luz de Deus, e Sara, para livrá-la do demônio e dá-la como esposa a Tobias. O seu nome dizia desde o começo de onde vinha a cura. A quem procura como rezar com São Rafael por um doente, por um casamento ou por um filho que sai de viagem, o livro deixa um modelo: a oração de Tobit e de Sara, que o próprio Rafael apresentou diante do Senhor.

O livro termina com a família em casa. Mas o companheiro de Tobias não ficou em suas páginas. Séculos depois, nos caminhos da Idade Média, continuava acompanhando outros jovens que deixavam a sua casa.

Medicina de Deus em Córdoba

O companheiro de Tobias ia com esses jovens numa pequena tabuinha, pintada com duas figuras: Tobias e o arcanjo.

Desde o século onze, os cristãos do Ocidente já prestavam culto a São Rafael. Com o tempo, a devoção popular fez dele o padroeiro dos viajantes e dos médicos. As duas coisas nascem das mesmas páginas: um caminho percorrido juntos e uns olhos que voltam a enxergar.

Uma cidade tomou para si essa medicina. Em Córdoba, no fim do século treze, chega a peste.

O que aconteceu depois, os cordoveses contam de geração em geração, como uma história de família. O arcanjo pede, por meio de um frade, frei Simão de Sousa, que a sua imagem seja colocada no alto de uma torre da cidade. O bispo assim faz. E o contágio cessa.

Séculos depois, na paróquia de San Pedro, foram encontrados alguns ossos. Em 1578, um sacerdote da cidade, Andrés de las Roelas, recebe várias vezes a visita do arcanjo. E o arcanjo lhe revela que aqueles restos são dos mártires de Córdoba, os cristãos que ali morreram por sua fé.

No dia 7 de maio, o arcanjo lhe faz um juramento:

«Eu te juro por Jesus Cristo Crucificado que sou Rafael, Anjo, que Deus pôs como Guardião desta Cidade».

Roelas confiou isso a outro sacerdote, Juan del Pino. E Juan del Pino o guardou consigo durante vinte e cinco anos. Em 1603, as autoridades da diocese aprovaram o relato.

A casa de Roelas é hoje a Igreja do Juramento, e todo dia 24 de outubro Córdoba celebra o seu Custódio com festa própria.

Em 1651, a peste voltou. Quando terminou, a cidade ergueu uma estátua de São Rafael sobre a Ponte Romana, em ação de graças.

Hoje Córdoba tem também os seus triunfos, altas colunas coroadas pelo arcanjo. Os seus pintores o retrataram com um peixe na mão. O peixe do Tigre, aquele que saltou na direção de um rapaz assustado, foi parar nos quadros de uma cidade inteira.

Cada cidade guarda o seu arcanjo. Mas, em 29 de setembro, a Igreja inteira reúne os três num só dia.

Um só dia para os três

A data da festa nasce a seis milhas de Roma, na Via Salária, onde uma basílica foi dedicada a São Miguel. O Martirológio, o livro com que a Igreja de Roma faz a memória oficial dos seus santos, celebra os três arcanjos no dia dessa dedicação, 29 de setembro. O edifício já não existe; o seu dia continua vivo, e na Igreja latina o culto a Miguel chegou a ser quase universal.

Durante séculos, os três arcanjos foram celebrados em datas diversas. Em 1969, a reforma da liturgia os reuniu nesse mesmo dia. O dia 2 de outubro ficou para os anjos da guarda, aqueles que a Igreja reconhece junto de cada pessoa, desde o começo da vida até a morte.

Amanhece o dia 29 de setembro. Quem começou a Quaresma de São Miguel no dia da Assunção chega nesta manhã ao fim do seu caminho de oração.

Nas igrejas, quando começa a Oração Eucarística, a grande oração sobre o pão e o vinho, o povo canta o Sanctus, o tríplice «Santo» com que a missa se une ao canto dos anjos. Durante esse canto, a voz da terra e a do céu dizem a mesma coisa.

Depois, quando chega a consagração, o centro da festa já não são os arcanjos. É Cristo, a quem eles servem.

A Igreja não se limita a cantar com os anjos. Na grande oração da missa, o Cânon Romano, ela invoca a sua ajuda. E, quando se despede de um dos seus mortos, reza com estas palavras: «Os anjos te conduzam ao Paraíso».

Em Monte Sant'Angelo, nesse mesmo dia, a espada deixa a mão do arcanjo. É a da estátua de mármore, aquela que o arcanjo mantém erguida sobre o monstro há mais de cinco séculos. Ela é levada em procissão solene pelas ruas da cidade.

Não é uma relíquia. É a espada de uma obra de arte que a devoção traz à luz do dia.

Em Roma, o anjo do castelo guarda a sua na bainha. Aqui, ela percorre as ruas no meio do povo.

O combate contra o mal tem um fim, mas ainda nos alcança: na luta que não vencemos sozinhos, na notícia que não sabemos como receber, no corredor de um hospital, no filho que sai de casa.

Para essas horas, a Igreja nos dá três nomes: Miguel, «Quem é como Deus?»; Gabriel, «força de Deus»; Rafael, «medicina de Deus». Os três falam de Deus antes de falarem de si mesmos. E a vitória que essa espada recorda nunca foi do anjo: desde o princípio, ela pertence a Deus.

Senhor Deus, que enviastes os vossos arcanjos como mensageiros do vosso amor: Miguel, que diante do mal deixou o juízo em vossas mãos e cujo nome pergunta «Quem é como Deus?»; Gabriel, que levou a Maria o anúncio do vosso Filho; e Rafael, que caminhou ao lado de Tobias e apresentou diante de vós as orações dos que sofriam. Por sua intercessão, livrai-nos do mal, abri o nosso coração à vossa Palavra e acompanhai os que estão a caminho, os enfermos e os que já não veem saída. Por Jesus Cristo, nosso Senhor.

São Miguel, Príncipe da milícia celeste; São Gabriel, mensageiro da Encarnação; São Rafael, padroeiro dos viajantes; santos arcanjos, rogai por nós.

Amém.

Fontes

Fontes primárias (Sagrada Escritura e Magistério)

  • El Libro del Pueblo de Dios, Apocalipsis 12 (1990) — Libreria Editrice Vaticana vatican.va
  • Conferencia Episcopal Española, Sagrada Biblia: Tobías, Daniel, Judas conferenciaepiscopal.es
  • Catecismo de la Iglesia Católica, nn. 120, 328-336, 2676 (1992) — Santa Sede, vatican.va
  • Congregación para el Culto Divino, Directorio sobre la piedad popular y la liturgia (2002) — Santa Sede, vatican.va
  • Benedicto XVI, Homilía en la ordenación episcopal, 29 de septiembre (2007) — vatican.va
  • Francisco, Palabras en la bendición de la estatua de San Miguel Arcángel (2013) — vatican.va
  • Congregación para la Doctrina de la Fe, Carta a los Ordinarios sobre el exorcismo (1985) — vatican.va

Fontes hagiográficas e tradição

  • Basilica Santuario San Michele, The Apparitions (2017) santuariosanmichele.it
  • Ilustre Hermandad del Arcángel San Rafael, Córdoba y su Custodio hermandadsanrafael.com
  • Jordi Rivero, San Miguel del Milagro (c. 2002) — Catholic.net
  • Canção Nova, Quaresma de São Miguel Arcanjo (2026) — santuario.cancaonova.com
  • Centre des monuments nationaux, History of the monument — abbaye-mont-saint-michel.fr

Documentos eclesiásticos e estudos

  • J. A. Jungmann, El Sacrificio de la Misa, BAC, p. 1026, en ACI Prensa, Las oraciones de León XIII a San Miguel Arcángel — aciprensa.com
  • Vatican News, Santo del día 29/09 y fichas de Miguel, Gabriel y Rafael — vaticannews.va
  • Tere Fernández, Arcángeles Miguel, Gabriel y Rafael, Santos — Catholic.net

Iconografia

  • Basilica Santuario San Michele, Grotta di San Michele (2017) — santuariosanmichele.it

Contexto contemporâneo

  • Santa Sede, Viaje apostólico de León XIV a Francia (2026) — vatican.va
  • Sanctuaire du Mont-Saint-Michel, Actualités y L'Abbaye (2026) — sanctuaire-montsaintmichel.fr

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quinta-feira, 29 de outubro · Evangelho

Jesus segue para Jerusalém e chora sobre a cidade que mata os profetas

Naquele tempo, no mesmo dia, aproximaram-se alguns fariseus e disseram a Jesus: “Sai e vai embora daqui, porque Herodes quer matar-te”. Ele lhes disse: “Ide dizer a essa raposa: Eis que expulso demônios e realizo curas…