Lucas, o evangelista, viajou durante anos ao lado de Paulo e deixou essas viagens contadas num livro. Mas nesse livro ele nunca escreve o próprio nome. Ele se deixa ver por uma única palavra.
Acontece de noite, em Trôade, um porto na costa da Ásia. Paulo, o apóstolo que levava o Evangelho de cidade em cidade, tem a visão de um homem da Macedônia que lhe suplica que atravesse o mar e venha ajudar a sua gente. Até então, quem conta as viagens não aparece nelas. Na frase seguinte, ele entra no relato e diz nós.
Essa palavra vai levar Lucas à margem de um rio da Macedônia, a catorze noites de tempestade sem ver o céu, à última prisão de Paulo, em Roma. E lá, quando os outros já tiverem ido embora, será o próprio Paulo, e não Lucas, quem vai dizer quem ficou ao seu lado.
Tentamos
Essa palavra nasce numa viagem que ficou sem caminho. Por volta do ano 51, Paulo percorre o interior da Ásia Menor com Silas e com Timóteo, um rapaz que ele acabou de juntar ao grupo. Eles querem anunciar Cristo na província romana que chamavam de Ásia, e o Espírito Santo os impede. Desviam para o norte, e o Espírito também não os deixa passar.
Com dois caminhos fechados, descem até o litoral e chegam a Trôade, um porto aberto para o mar. Diante deles já não há mais terra. Quem conta o que acontece depois da visão do homem da Macedônia é alguém que está no porto com eles. «Imediatamente tentamos partir para a Macedônia, convencidos de que Deus nos havia chamado para lhes anunciar o Evangelho».
Ele escreve tentamos, no plural. A visão foi de Paulo, mas a decisão de atravessar o mar é de todos.
Essa voz é a de Lucas. Na memória mais antiga da Igreja, ele é natural de Antioquia, a grande cidade da Síria, e médico de profissão. A liturgia da sua festa acrescenta que ele nasceu numa família pagã, das que prestavam culto aos deuses antigos, e que abraçou a fé. Como ele chegou a crer, e quem lhe falou de Cristo pela primeira vez, ninguém contou. O que se vê é que, na primeira vez que o ouvimos, ele já fala como alguém que Deus chamou.
Desde os primeiros séculos, a Igreja reconhece neste companheiro de Paulo o autor do livro que conta essas viagens e de um dos quatro Evangelhos. Ele não foi um dos doze apóstolos, nem conheceu Jesus pessoalmente.
Decidida a viagem, eles zarpam de Trôade e navegam direto até a ilha de Samotrácia. No dia seguinte chegam a Neápolis, e de lá sobem até Filipos, uma colônia romana, a primeira cidade daquela parte da Macedônia. Ficam ali alguns dias.
Num sábado, o dia de descanso dos judeus, eles saem pela porta da cidade até a beira do rio, onde pensavam encontrar um lugar de oração. Sentam-se e conversam com as mulheres reunidas ali. Uma delas, Lídia, vende púrpura, a tinta cara dos mantos de luxo, e vem da cidade de Tiatira. Ela já adorava o Deus de Israel. Lídia escuta Paulo, e o Senhor lhe abre o coração.
Lídia é batizada com todos os de sua casa. Depois pede a eles que, se de fato a consideram fiel ao Senhor, fiquem hospedados com ela, e insiste tanto que não os deixa dizer não. Entre os hóspedes daquela casa está Lucas.
Paulo e nós
Um dia, quando estão indo para o lugar de oração, uma moça começa a segui-los aos gritos. É uma escrava com um espírito de adivinhação, e os seus donos ganham muito dinheiro com o que ela adivinha. Durante dias ela vai atrás de Paulo e dos seus, aqueles que Lucas ainda chama de nós, gritando pela rua que esses homens são servos do Deus Altíssimo e que anunciam o caminho da salvação.
Paulo aguenta aquilo, até que, aborrecido, se volta. Fala ao espírito e lhe ordena, em nome de Jesus Cristo, que saia da moça. O espírito sai naquele mesmo instante.
Com o espírito vai embora também o lucro, e os donos percebem isso na hora. Agarram Paulo e Silas, só os dois, e os arrastam até os magistrados da colônia, que andam escoltados por guardas com feixes de varas. Acusam os dois de serem judeus que agitam a cidade com costumes que os romanos não podem aceitar. Os magistrados mandam arrancar a roupa deles e açoitá-los, e os jogam na cela mais funda da prisão, com os pés presos no tronco, um madeiro com buracos que não deixa ninguém se mexer.
À meia-noite, no escuro, Paulo e Silas rezam e cantam hinos a Deus. Um terremoto sacode a prisão e abre as portas. O carcereiro pensa que os presos fugiram e está prestes a tirar a própria vida, e Paulo grita para ele não fazer nenhum mal a si mesmo, porque estão todos ali.
O carcereiro pergunta o que precisa fazer para ser salvo. Lava as feridas deles, é batizado com toda a sua família e os faz sentar à sua mesa. No dia seguinte, Paulo faz saber que ele e Silas são cidadãos romanos, que ninguém podia açoitar sem julgamento, e exige que os magistrados venham em pessoa tirá-los dali. Ao sair, passam pela casa de Lídia, encorajam os novos cristãos e deixam a cidade.
Desde que levaram Paulo e Silas, quem conta tudo isso deixou de dizer nós. Talvez Lucas tenha ficado em Filipos para continuar anunciando o Evangelho. É o que supõem os estudiosos, porque ele não conta.
A voz que se calou em Filipos volta a ser ouvida em Filipos. Passaram-se alguns anos. Terminada a festa dos Pães sem Fermento, a semana da Páscoa judaica, Lucas volta a escrever nós e zarpa dali com Paulo.
Em cinco dias chegam a Trôade, o mesmo porto daquele primeiro chamado. No primeiro dia da semana, o domingo, eles se reúnem numa sala no andar de cima para partir o pão, a missa daqueles primeiros cristãos. A sala está cheia de lamparinas acesas. Paulo, que vai partir no dia seguinte, fala à assembleia e prolonga o discurso até a meia-noite.
O que acontece então, Lucas viu. Um rapaz chamado Êutico está sentado no parapeito da janela e, enquanto Paulo fala, vai pegando no sono. Vencido pelo sono, cai do terceiro andar. Quando o levantam, está morto.
Paulo desce, se debruça sobre ele e o abraça. Depois diz a todos «Não se assustem, porque ele está vivo». Sobe de novo, parte o pão, come e continua conversando com eles até o amanhecer. Levam o rapaz para casa com vida, e todos ficam muito consolados.
Com a primeira luz, Paulo se põe a caminho.
Seja feita a vontade do Senhor
Nessa viagem, Paulo tem pressa. Quer estar em Jerusalém para Pentecostes, a grande festa judaica, e por isso não para em Éfeso. Do porto de Mileto, manda chamar os presbíteros daquela Igreja, os responsáveis pela comunidade, e eles descem até a costa.
Paulo lembra a eles que serviu ao Senhor com humildade e com muitas lágrimas, e que ganhou o pão com as próprias mãos. Agora vai para Jerusalém como que acorrentado pelo Espírito, sem saber o que o espera lá. De cidade em cidade, o Espírito Santo o adverte de correntes e de provações. Diz que não vão mais vê-lo e os entrega nas mãos do Senhor.
Antes de terminar, recorda o que disse o Senhor Jesus, «Há mais felicidade em dar do que em receber». Lucas ouve essa frase naquele porto e a deixa por escrito, como deixará por escrito outras palavras de Jesus que as testemunhas vão lhe contar.
Então Paulo se ajoelha e reza com todos eles. Todos choram. Eles o abraçam e o beijam, tristes sobretudo porque não vão mais ver o seu rosto. Depois o acompanham até o navio.
O vento os leva depressa de porto em porto e depois, em outro navio, até Tiro, na costa da Fenícia. Passam ali uma semana com os cristãos da cidade. Movidos pelo Espírito, eles dizem a Paulo que não suba a Jerusalém.
Na despedida, a comunidade inteira, com as mulheres e as crianças, se ajoelha com eles na praia para rezar.
Em Cesareia, o aviso deixa de ser só palavra. O grupo se hospeda na casa de um cristão do lugar, e ali passam muitos dias. Desce da Judeia um profeta, Ágabo. Ele entra, pega o cinto de Paulo e amarra com ele os próprios pés e mãos. Diz que o Espírito Santo anuncia que em Jerusalém vão amarrar assim o dono desse cinto e entregá-lo aos pagãos.
Então todos, os cristãos de Cesareia e também os que viajam com ele, Lucas entre eles, suplicam chorando a Paulo que não suba.
Paulo olha para eles e diz, «Por que vocês choram assim e me partem o coração?» Está pronto para ser acorrentado, e também para morrer em Jerusalém pelo nome do Senhor Jesus.
Como já não conseguem convencê-lo, param de insistir e dizem a única coisa que resta dizer, «Seja feita a vontade do Senhor».
Alguns dias depois, terminados os preparativos, sobem com ele a Jerusalém.
Em Jerusalém, os cristãos os recebem com alegria. No dia seguinte, Paulo vai com Lucas e os outros ver os responsáveis por aquela Igreja, todos reunidos numa casa. Conta a eles o que Deus fez entre os pagãos, e eles, ao ouvir, louvam a Deus. Ali Lucas deixa, outra vez, de dizer nós.
Poucos dias depois, no Templo, alguns judeus vindos da Ásia reconhecem Paulo. Eles amotinam o povo e o acusam de ter levado pagãos para dentro do recinto sagrado. Arrastam Paulo para fora e o espancam, até que chega o tribuno, o comandante da guarnição romana, com seus soldados. O tribuno manda prendê-lo com duas correntes, como Ágabo tinha anunciado com o cinto, e ordena que o levem para a fortaleza, enquanto o povo grita que o matem.
No alto da escadaria, Paulo pede permissão para falar. Faz-se um grande silêncio, e ele fala ao povo em hebraico, acorrentado.
Nem o sol nem as estrelas
Paulo continua acorrentado. Passa dois anos preso em Cesareia, a cidade onde Ágabo tinha feito o aviso do cinto, e no fim pede para ser julgado por César, o imperador de Roma. Por volta do ano 60, no porto dessa mesma cidade, a voz de Lucas, calada desde Jerusalém, volta a dizer nós, e fica decidido que eles embarquem para a Itália. Lucas sobe a bordo ao lado de Paulo.
Paulo e outros presos ficam sob a guarda de um centurião chamado Júlio, um oficial romano que comandava cem soldados. Junto com Lucas viaja também Aristarco, um macedônio de Tessalônica. Em Sidônia, a primeira escala, Júlio trata Paulo com humanidade e o deixa ir ver os amigos.
Dali em diante, os ventos sopram contra. Mais adiante eles passam para um navio de Alexandria que vai para a Itália e avançam a duras penas até um lugar de Creta chamado Bons Portos. Já passou o jejum dos judeus, o dia da Expiação, quando começam as tempestades, e navegar ficou perigoso. Paulo avisa que a viagem vai trazer prejuízo para a carga, para o navio e também para as vidas. Mas aquele porto não serve para passar o inverno, e o centurião dá mais ouvidos ao piloto e ao dono do navio. Decidem partir.
Assim que zarpam, o Euroaquilão, um vento forte do nordeste, cai sobre eles. O navio não consegue enfrentá-lo, e eles o deixam ir à deriva. Os marinheiros passam cordas por baixo do casco para que ele não se abra. Depois jogam parte da carga no mar e, em seguida, com as próprias mãos, o equipamento do navio.
Os dias passam sem que se veja o sol. As noites passam sem estrelas. A tempestade não dá trégua. A bordo, também Lucas e seus companheiros perdem toda a esperança de se salvar.
Faz muito tempo que ninguém come. Então Paulo fica de pé no meio de todos. Conta que lhe apareceu um anjo do Deus a quem ele pertence e a quem serve. O anjo lhe disse que não tivesse medo, que ele precisava comparecer diante de César e que Deus lhe concedia a vida de todos os que navegavam com ele.
Assim chega a décima quarta noite. Os marinheiros lançam a sonda, uma corda com um peso para medir o fundo, e encontram vinte braças, a medida de dois braços abertos. Um pouco mais adiante, quinze. A terra está perto. Lançam quatro âncoras pela popa e esperam o dia chegar.
Alguns marinheiros tentam então fugir no bote. Paulo percebe e avisa o centurião e os soldados de que, se esses homens não ficarem no navio, ninguém vai poder se salvar. Os soldados cortam as cordas e deixam o bote cair no mar.
Ao amanhecer, Paulo pede a todos, com insistência, que comam. Há catorze dias eles esperam sem provar quase nada. Paulo garante que nenhum deles vai perder um só fio de cabelo da cabeça.
Toma o pão. Dá graças a Deus diante de todos. Parte o pão e começa a comer.
É o gesto daquela sala cheia de lamparinas em Trôade, agora no convés de um navio perdido. Todos se animam e comem também. São duzentas e setenta e seis pessoas.
Depois de comer, jogam no mar o trigo que o navio levava, para deixá-lo mais leve. Com a luz do dia, avistam uma baía com praia e tentam levar o navio até lá. Mas encalham. A proa fica cravada no fundo, e a popa vai se desfazendo com a força das ondas.
Os soldados querem matar os presos para que nenhum fuja. O centurião Júlio os impede, porque quer salvar Paulo. Uns a nado, outros agarrados a tábuas do navio, todos chegam à terra.
Nem um só dos duzentos e setenta e seis se perdeu. A ilha se chama Malta.
O médico amado
Dos que saíram do mar com vida, dois seguem com Paulo até Roma, Aristarco, o macedônio, e Lucas. Na capital do império, Paulo espera o seu julgamento sob custódia por mais dois anos, e Lucas está muitas vezes ao seu lado.
Ali, sob custódia, Paulo escreve a comunidades distantes e, ao terminar cada carta, deixa que os que estão à sua volta mandem saudações. É ali que finalmente aparece o nome do homem que, no seu próprio livro, nunca disse quem era.
Aos cristãos de Colossos, uma cidade da Ásia Menor, Paulo manda saudações de Lucas, o médico amado, e também de Demas, outro de seus companheiros.
São duas palavras, médico e amado, ditas de passagem, no final de uma carta. Uma conta o que aquele companheiro fazia na vida. A outra, o que ele era para o preso que escreve a carta.
Por causa da primeira dessas palavras, hoje a Igreja invoca Lucas como padroeiro dos médicos e de todos os que cuidam dos doentes. Aqui no Brasil, no dia da sua festa, celebram-se missas por eles.
De volta àquela custódia em Roma, outra carta termina do mesmo jeito. Ela é endereçada a um homem só, um amigo de Paulo. Mandam-lhe saudações Marcos, Aristarco, Demas e Lucas, que Paulo chama de seus colaboradores, os que trabalham com ele pelo Evangelho.
Lucas aparece nomeado perto de Marcos, o homem que dá nome a outro dos quatro Evangelhos.
São quatro companheiros em volta de um preso, e Paulo os nomeia um por um.
Só Lucas está comigo
Nas cartas daquela primeira custódia, Demas mandava saudações ao lado de Lucas. Mais tarde, no tempo do imperador Nero, Paulo volta a ser preso em Roma, e essa prisão já é a última. De lá ele escreve a Timóteo, o jovem que caminhava com ele quando o nós apareceu em Trôade.
Paulo faz um balanço da sua vida. Diz a Timóteo que combateu o bom combate e que terminou a corrida. Depois pede que ele venha logo vê-lo, e conta quem foi embora e quem continua com ele.
A lista é curta.
Demas abandonou Paulo, por amor a este mundo presente. Crescente partiu para a Galácia. Tito foi para a Dalmácia.
E então Paulo escreve uma frase que fica sozinha.
«Só Lucas está comigo».
A palavra que nasceu naquela noite em Trôade chega até esta prisão de Roma. Durante anos, o companheiro contou a história sem dizer quem era, dentro de um nós que passava pelo rio, pela sala das lamparinas, pela casa de Cesareia onde todos choraram e pelo barco à deriva. No fim, quem diz o nome daquele que ficou é Paulo.
Assim termina o caminho de Paulo. Ele morre mártir em Roma, a mesma cidade onde o apóstolo Pedro é crucificado.
Daquela última carta fica a frase sobre o companheiro. Ainda hoje, na missa da festa de Lucas, a Igreja volta a lê-la em voz alta, com Demas, com Crescente, com Tito e com o único que ficou.
O que Paulo pregava de cidade em cidade não se perde com ele, e também não se perde o que contaram os que viram Jesus com os próprios olhos, porque o homem que ficou ao lado de Paulo pôs tudo por escrito.
Em ordem
No fim do século segundo, em Lyon, na Gália, o bispo da cidade, Irineu, põe em fila os Evangelhos que as Igrejas leem e dá a cada um a sua origem. Do terceiro, ele diz que Lucas, o companheiro de Paulo, pôs num livro o Evangelho que Paulo pregava.
Esse livro começa como uma carta. Ele se dirige a um homem chamado Teófilo e, antes de contar qualquer coisa, explica de onde vem tudo o que Teófilo vai ler.
Conta que muitos já tinham tentado pôr por escrito o que aconteceu, assim como o transmitiram os que viram tudo desde o princípio. E depois fala de si mesmo. «Também eu resolvi escrevê-los para ti em ordem, ilustre Teófilo, depois de investigar tudo cuidadosamente desde o princípio, para que conheças a solidez dos ensinamentos que recebeste.»
Nessas páginas há cenas que nenhum outro Evangelho traz. O bom samaritano. O filho pródigo. O mendigo Lázaro da parábola, deitado à porta do rico. A mulher que todos apontam como pecadora e que, perdoada, lava os pés de Jesus. São histórias de pobres, de feridos e de gente que volta. Depois virá um segundo livro, os Atos dos Apóstolos, que volta a nomear Teófilo e no qual, um dia, vai aparecer a palavra nós.
Aquele companheiro que nunca viu Jesus é também quem conta o que ninguém mais conta da sua Mãe. O anúncio do anjo a Maria. A viagem dela para visitar Isabel. O seu canto, em que Deus eleva os humildes e enche de bens os famintos. A apresentação do Menino no Templo. E a aflição de Maria e de José quando perdem o Menino e o procuram.
O coração que o Senhor abriu a Lídia junto ao rio volta nestas páginas como o coração de uma mãe. Lucas se detém duas vezes no mesmo gesto, e o escreve assim.
«Maria, porém, guardava todas estas coisas, meditando-as em seu coração».
De Lucas nasceu também uma memória muito querida. No Oriente se contava desde tempos muito antigos que o homem que escreveu essas páginas tinha pintado também o rosto da Mãe de Deus, com o Menino no colo, numa tábua de madeira.
Na cidade italiana de Bolonha contam a sua própria história dessa Virgem. Um eremita vindo de Constantinopla subiu a colina da Guardia com uma imagem pintada em madeira de cedro, que segundo eles era obra de Lucas. A imagem ficou aos cuidados de uma mulher da cidade, que fez questão de construir para ela um santuário lá no alto.
Séculos depois veio um tempo de chuvas e de fome. Os bolonheses levaram a imagem até a cidade com grande devoção. O mau tempo cessou, o sol voltou a brilhar, e eles viram nisso um sinal de que a Virgem tinha rogado por eles.
Desde então, todo ano, a Madonna di San Luca, a Virgem de São Lucas, desce da sua colina em procissão e fica uma semana no meio do seu povo. Por essa memória de Lucas pintor da Virgem, os artistas o têm como padroeiro.
Em Minas Gerais, a arquidiocese de Juiz de Fora o apresenta como padroeiro dos médicos, dos profissionais da saúde e também dos artistas.
Um caixão de chumbo
O livro de Lucas passa de uma Igreja para outra, e em todas ele é lido. Da sua própria vida chega muito menos. Os cristãos dos primeiros séculos guardaram a lembrança da sua velhice, mas não a guardaram do mesmo jeito.
Alguns contam que ele não se casou, que escreveu o seu Evangelho na Acaia, na Grécia, e que morreu aos setenta e quatro anos, cheio do Espírito Santo. Outros dizem que ele viveu até os oitenta e quatro, em Tebas, uma cidade da Grécia, e há quem acrescente que morreu mártir, embora ninguém saiba disso com certeza. Dessa memória vem o túmulo de pedra, um sarcófago antigo que os cristãos da Grécia veneram como o primeiro sepulcro de Lucas.
Mas os seus ossos não ficaram em Tebas. No século quarto, eles foram levados para Constantinopla, a nova capital do Império, junto com os do apóstolo André, e colocados na basílica dos Santos Apóstolos. No fim desse mesmo século, quem deixa isso anotado é São Jerônimo, um dos grandes mestres da Igreja antiga.
Em algum momento esses ossos viajaram para o Ocidente, e o rastro seguinte aparece debaixo da terra. No século doze, no cemitério ao lado da igreja de Santa Giustina, em Pádua, no norte da Itália, vem à luz um caixão de chumbo. Segundo o relato da descoberta, ele traz gravados por fora alguns bezerros e uma cruz dupla, e por dentro, o nome do evangelista. Por esses sinais o reconhecem como o caixão de Lucas.
Mais de um século depois, o abade do mosteiro de Santa Giustina manda fazer para esses restos uma morada digna, uma arca de mármore. Quatro anjos a sustentam, e nos seus relevos aparecem a figura de Lucas, anjos com tochas e alguns bois esculpidos. Essa arca continua lá até hoje, na basílica, onde os fiéis o veneram.
Esses bezerros e bois vêm de muito longe. Irineu, aquele bispo de Lyon, tinha dado a Lucas um animal, o bezerro que se oferecia em sacrifício no Templo de Jerusalém, porque o seu Evangelho começa com um sacerdote, Zacarias. Daí vem o boi que o acompanha nas imagens, o touro, como muita gente o chama.
Em 1354, chega a Pádua um pedido do imperador Carlos IV, rei da Boêmia. Para a nova catedral de São Vito, em Praga, a sua cidade de origem, ele quer o prestígio de uma relíquia do tempo dos apóstolos. O crânio de Lucas sai de Pádua e viaja rumo ao norte.
O corpo fica na arca, sem a cabeça. Durante mais de seis séculos, cabeça e corpo repousam em dois países diferentes, e em Tebas o túmulo de pedra continua vazio.
A tarde em que a arca foi aberta
Séculos depois, o bispo ortodoxo de Tebas quer colocar naquele túmulo vazio uma pequena relíquia de Lucas, como um gesto de amizade entre a sua Igreja e a de Roma, e escreve a Pádua para pedi-lo.
Em Pádua, o bispo católico da cidade ordena o reconhecimento canônico das relíquias, o exame oficial que a Igreja faz de restos venerados, e convoca catorze especialistas. Quem os preside é um médico que estuda o corpo humano depois da morte.
Na tarde de 17 de setembro de 1998, levantam a tampa da arca, que estava havia quase cinco séculos sem ser aberta. Dentro está o velho caixão de chumbo, de quase dois metros, ainda lacrado, e nele há um esqueleto sem cabeça, bem conservado, de um homem que morreu idoso. Entre os ossos há algumas moedas antigas, uma delas do ano 299, e um dos especialistas vê nelas o sinal de que, em outros tempos, alguém tinha aberto o caixão e voltado a fechá-lo.
Restava a pergunta que a viagem da cabeça tinha deixado, se o crânio de Praga e o corpo de Pádua eram do mesmo homem. Trazem o crânio de Praga, aproximam-no do esqueleto, e ele se encaixa na primeira vértebra do pescoço. Cabeça e corpo, separados no tempo do imperador Carlos IV, voltam a estar juntos.
Os especialistas trabalham quase três anos. Os ossos são de um homem de um metro e sessenta e três, com a artrose que os anos deixam. O exame de carbono 14, que mede a idade dos ossos, os situa entre a segunda metade do século primeiro e o começo do quinto. O DNA herdado da mãe aponta para uma origem síria, e não grega, e Antioquia, a cidade que a memória antiga lhe dava como pátria, ficava na Síria.
Dentro do caixão há ainda uma pequena placa de chumbo, escrita em latim e em grego, cópia de uma inscrição mais antiga.
Nela está escrito «Ossa Lucae Evangelistae», os ossos de Lucas evangelista.
No fim, a comissão conclui que não existe um único elemento contrário a que esse seja o esqueleto de São Lucas Evangelista.
As mesmas análises chegam também a Roma. No século sexto, um embaixador do papa em Constantinopla tinha levado para Roma uma cabeça venerada como a de Lucas. O exame de carbono 14 mostra que ela é séculos mais recente que Lucas. Não pode ser a dele.
E a carta de Tebas recebe a sua resposta. No ano 2000, uma costela do esqueleto de Pádua viaja para a Grécia, até o sarcófago que talvez tenha sido o primeiro túmulo de Lucas. Sai de uma basílica católica e entra no túmulo venerado por uma Igreja ortodoxa. Duas Igrejas que ainda não estão unidas se encontram, por um momento, diante do mesmo santo.
Um só coração e uma só alma
A primeira coisa que Lucas contou da Igreja no seu segundo livro acontece em Jerusalém. Quando Jesus já foi elevado ao céu, os onze apóstolos voltam do monte das Oliveiras e sobem à sala do andar de cima de uma casa. Ali perseveram juntos na oração, com algumas mulheres e com Maria, a mãe de Jesus.
Chega Pentecostes, o dia em que o Espírito Santo desce sobre eles. Depois, os que foram batizados perseveram no ensinamento dos apóstolos, na vida em comum, nas orações e na fração do pão, o mesmo gesto que Paulo fará anos mais tarde, de noite, em Trôade. Partem o pão nas suas casas com alegria e simplicidade de coração, e ninguém considera seu nada do que possui. Tudo cabe na frase com que Lucas os descreve, «A multidão dos que haviam abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma».
Aquela frase volta a ser ouvida a cada 18 de outubro, o dia da festa de Lucas. Na missa desse dia, diante da arca de Pádua ou em qualquer paróquia do mundo, o sacerdote estende as mãos e se dirige a Deus com uma oração antiga, escrita em latim. Ele lembra a Deus que foi Ele quem escolheu Lucas para revelar, com a sua pregação e os seus escritos, o mistério do amor de Deus pelos pobres. Depois pede que os que já creem nele perseverem com um só coração e uma só alma, e que todos os povos vejam a sua salvação.
O que Lucas contou daquelas casas de Jerusalém, a Igreja agora pede para si, com as mesmas palavras dele. E o companheiro que, no relato das viagens, só se deixou ouvir pela palavra nós fica nomeado, com todas as letras, na oração da Igreja inteira.
Lucas nunca escreveu o próprio nome no seu livro, mas esteve no barco e, na última prisão, ao lado de quem sofria.
São Lucas, médico amado, vós buscastes as testemunhas e pusestes em ordem o que Jesus fez e ensinou. Ficastes ao lado de Paulo no barco à deriva e na sua última prisão, quando os outros foram embora. Acompanhai hoje os doentes, os que cuidam deles e os que ficaram sozinhos. Alcançai-nos um coração que guarde a Palavra como Maria a guardava. E pedi a Deus que todos os que creem em seu Filho cheguem a ser um só coração e uma só alma. Rogai por nós. Amém.





