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FIDES VIVA

30 de setembro

São Jerônimo

Doutor da Igreja e autor da Vulgata, a Bíblia latina de todo o Ocidente

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Capítulos
  1. 0:00Um rapaz da província apaixonado por Cícero
  2. 4:24O deserto de Cálcis: lágrimas aos pés de Jesus
  3. 9:12Roma de novo: a missão confiada pelo papa Dâmaso
  4. 11:52Calúnias em Roma e uma carta do navio
  5. 15:46Belém: o presépio e uma casa para os peregrinos
  6. 18:47A Bíblia a partir do hebraico
  7. 22:49A pena que feria, o coração que chorava
  8. 25:40Belém no coração

Está com febre. No meio dela, ele se vê arrastado diante de um tribunal. Alguém lhe pergunta quem ele é.

"Cristão", responde.

E do assento do Juiz vem a voz: "Tu mentes. Tu és ciceroniano, tu não és cristão".

Cícero, o grande orador da Roma antiga, era o escritor que aquele homem mais amava. Seu nome era Jerônimo, e ele mesmo contou esse sonho anos depois.

Hoje, quase todos o conhecem por outras coisas. É o santo que traduziu a Bíblia, o ancião a cujos pés os pintores colocam um leão. Mas, naquela febre, ele só tinha um veredito cravado no coração e uma vida inteira pela frente para responder a ele.

Como aquele que preferia Cícero chegou a dar à Igreja a Bíblia na sua própria língua, junto ao presépio de Belém? E de onde saiu esse leão?

Um rapaz da província apaixonado por Cícero

Roma, em meados do século quarto. A capital de um império que já se diz cristão vê chegar um rapaz da província. Vem de Estridão, na fronteira entre a Dalmácia e a Panônia, onde nasceu por volta do ano trezentos e quarenta e cinco. Sua família é cristã e tem recursos, e o manda a Roma para estudar retórica, a arte de falar e de escrever bem.

Nas salas de aula, descobre os clássicos latinos, e sobretudo Cícero. O rolo do orador não sai das suas mãos. Com muito cuidado e muito esforço, vai montando uma biblioteca própria.

Também tem à mão a Bíblia, mas não inteira: os cristãos de língua latina a leem aos pedaços, em traduções parciais feitas do grego. Ao lado de Cícero, essas páginas lhe soam toscas e pobres de estilo. E a grande cidade ainda lhe oferece a vida do mundo, com seus prazeres e seu barulho.

Mas, aos domingos, Roma lhe mostra outra coisa. Com outros rapazes da sua idade, percorre os túmulos dos apóstolos e dos mártires e desce às catacumbas: galerias escavadas debaixo da terra, com os mortos sepultados nas paredes, de um lado e de outro. Lá embaixo quase não há luz. E até nessa escuridão, ele mesmo vai lembrar, lhe vem à cabeça um verso de Virgílio, o poeta de Roma: "Por toda parte o horror, e o próprio silêncio apavora".

Nessa mesma Roma, já jovem adulto, recebe o batismo. Anos depois, escrevendo ao papa, dirá que ali recebeu "a veste de Cristo". Mas o seu tesouro continua nas estantes da sua biblioteca. Um dia, um juiz vai lhe cobrar isso.

Terminados os estudos, viaja para o norte, até Tréveris, uma cidade imperial às margens do Mosela. Ali encontra pela primeira vez algo que chega do Oriente: homens que deixam tudo para viver sozinhos no deserto, dedicados à oração.

De volta à Itália, em Aquileia, se junta a um grupo de cristãos fervorosos que vivem em comunidade. Ele os chamará de "coro de bem-aventurados", ou seja, uma companhia de homens felizes. Entre eles está Rufino, seu amigo de juventude. Compartilham a fé e o desejo de se entregar inteiramente a Deus.

Quando aquele coro se dispersa, Jerônimo faz o que tinha visto em Tréveris. Pelo Reino dos céus, ele mesmo vai contar, deixa a casa, os pais, a irmã, os parentes e, o que mais lhe custa, a comida delicada a que estava acostumado.

Só há uma coisa que ele não é capaz de deixar: a biblioteca que tinha reunido em Roma. Com ela, toma o caminho do Oriente. Por volta do ano trezentos e setenta e quatro, passa por Antioquia e segue adiante, até um deserto da Síria.

O deserto de Cálcis: lágrimas aos pés de Jesus

O deserto se chama Cálcis. Há vales profundos, montes escarpados e penhascos que o sol queima desde cedo. Jerônimo vive ali como eremita, isto é, como um monge que mora sozinho, longe de tudo.

Anos depois, ele vai contar isso a uma jovem de Roma, sem poupar nada. O jejum o deixou só osso. O saco áspero que ele veste lhe deforma os membros. A pele escureceu com o sol e o abandono, e o rosto está pálido e frio. E, no entanto, naquela solidão abrasada, a imaginação o leva de volta aos prazeres de Roma, no meio de rodas de moças. O corpo está quase morto, mas o desejo continua vivo.

Chora e geme todos os dias. Ele se lança aos pés de Jesus, banha-os de lágrimas e os enxuga com os cabelos. Bate no peito noites inteiras, até que, diante da repreensão do Senhor, volta a calma.

Procura os vales mais profundos e as penhas mais ásperas para rezar. Aquelas rochas são o seu oratório, o seu lugar de oração. Às vezes, depois de muitas lágrimas, parece-lhe estar entre os coros dos anjos, e ele canta de alegria. Não se envergonha de confessar a sua miséria.

Os jejuns não bastam para acalmar os pensamentos. Então ele busca outro remédio, e também isso ele mesmo vai contar: pede a um irmão que tinha sido judeu antes de se tornar cristão que lhe ensine hebraico, a língua em que foi escrita a maior parte do Antigo Testamento.

O jovem que tinha se embebido da eloquência de Cícero volta a aprender as letras desde o começo. Precisa pronunciar palavras ásperas e guturais. Quantas vezes se desespera, quantas vezes desiste e, com vontade de aprender, recomeça. Muito tempo depois, vai agradecer a Deus: dessa semente plantada com amargura, diz ele, colhe frutos doces.

Mas, nesses anos na Síria, há algo que não mudou: os livros de Roma continuam com ele. Ele mesmo vai confessar o que fazia. Jejuava para poder ler Cícero depois. Depois de noites de vigília e de lágrimas pelos seus pecados, voltava a pegar nas mãos Plauto, um autor de comédias. E, quando abria os profetas da Bíblia, o estilo deles lhe parecia tosco e lhe causava repulsa.

"Como meus olhos cegos não viam a luz", ele vai escrever, "eu pensava que a culpa não era dos meus olhos, mas do sol".

No meio de uma Quaresma, talvez a do ano trezentos e setenta e cinco, cai sobre esse corpo enfraquecido uma febre que o deixa pele e osso. Ele é dado como morto. Já estão preparando o funeral. O corpo vai esfriando, e o calor da vida só pulsa no peito.

De repente, ele se sente arrebatado em espírito e arrastado diante do tribunal do Juiz: o tribunal do começo desta história. A luz é tão forte que ele se lança ao chão e não ousa levantar os olhos. Perguntam quem ele é; responde que é cristão e ouve que está mentindo. Mas o Juiz não para por aí. Acrescenta uma frase do Evangelho: "Onde está o teu tesouro, aí está o teu coração".

Depois manda açoitá-lo. E, mais do que os golpes, o que o queima é a consciência. Ele grita: "Tende piedade de mim, Senhor, tende piedade de mim". Os que rodeiam o tribunal caem de joelhos e pedem ao Juiz que perdoe a sua juventude e lhe dê tempo para se arrepender.

Então Jerônimo jura, invocando o nome de Deus: "Senhor, se algum dia eu tiver livros profanos ou os ler, terei te negado.".

E ele volta a si. Os que o velam o veem abrir os olhos tão cheios de lágrimas que até os incrédulos acreditam nele. Ele insiste que não foi um sonho vão: estava com os ombros roxos e sentiu os golpes muito tempo depois de acordar.

Desde então, escreve ele, passou a ler os livros de Deus com mais paixão do que tinha dedicado aos livros dos homens.

Roma de novo: a missão confiada pelo papa Dâmaso

Ele sai do deserto com duas coisas que lhe custaram caro: um juramento e uma língua nova. Em Antioquia, é ordenado sacerdote.

Do deserto, ele já tinha escrito ao papa Dâmaso, o bispo de Roma. Numa Igreja do Oriente dividida em facções, dizia-lhe de que lado estava: "Quem se une à cátedra de Pedro é dos meus". A cátedra é a sede de onde Pedro e seus sucessores guiam a Igreja.

No ano trezentos e oitenta e dois, Jerônimo volta a Roma, e aquele papa, já idoso, o tem diante de si. Toma-o como secretário e conselheiro. E logo lhe confia algo muito maior do que as cartas do papa: uma nova tradução latina da Bíblia. A mesma Bíblia que, nos tempos de estudante, lhe soava tosca.

Na colina do Aventino, na casa de Marcela, uma viúva nobre, um grupo de mulheres das grandes famílias romanas o escolhe como mestre da Escritura. Entre elas está Paula, também viúva, e sua filha Eustóquio.

Elas não se contentam em ouvi-lo. Aprendem grego e hebraico. Paula e Eustóquio chegam a ler e a cantar os Salmos na língua em que foram escritos. As letras que Jerônimo soletrava com desespero entre as rochas da Síria agora ressoam, cantadas, numa casa de Roma.

Eustóquio decide consagrar a Deus a sua virgindade. E Jerônimo lhe escreve uma longa carta sobre a vida que ela escolheu. É a jovem a quem ele conta o deserto e o tribunal da febre. Na mesma carta, ensina-a a rezar: "Se oras, falas com o Esposo; se lês, é ele quem te fala". O Esposo é Cristo.

Enquanto ensina, ele cumpre a missão que o papa lhe confiou. No ano trezentos e oitenta e quatro, corrige o texto latino dos quatro Evangelhos e faz uma primeira revisão do Saltério, o livro dos Salmos. O jovem que achava a Bíblia tosca agora passa os dias pesando cada uma das suas palavras. Ali começa o trabalho que, com os anos, vai se tornar a Vulgata.

No círculo do Aventino está também Blesila, outra filha de Paula. Ela ficou viúva aos vinte anos e decide consagrar-se a Deus. Poucos meses depois, Jerônimo vai ter de escrever a Paula uma carta que ninguém gostaria de escrever.

Calúnias em Roma e uma carta do navio

Blesila morre pouco tempo depois de ter se consagrado a Deus. Jerônimo escreve a Paula para consolá-la, e confessa que o faz entre lágrimas: chama a si mesmo de pai de Blesila no espírito. Mas, na carta, ele lembra também o que se ouviu no enterro.

Paula teve de ser retirada desmaiada do cortejo. E entre o povo corriam murmúrios: quem matou a moça foi o jejum. Alguns iam mais longe: "Até quando não vamos expulsar de Roma esses monges detestáveis? Por que não os apedrejamos ou os jogamos no Tibre?".

Por isso Jerônimo pede à mãe algo mais difícil do que chorarem juntos: que modere a sua dor. Uma tristeza sem medida daria a essa gente a ocasião que ela procura. E o homem que guia essas mulheres na Escritura está no centro de todos os olhares.

Enquanto Dâmaso vive, as críticas têm um limite. Em dezembro do ano trezentos e oitenta e quatro, o velho papa morre.

Então vem à tona tudo o que a pena de Jerônimo tinha ferido. Durante anos ele criticou duramente muita gente, e agora essas palavras se voltam contra ele. A inveja e a incompreensão fazem o resto. Ele mesmo vai contar que tudo lhe era censurado: "um atacava o meu jeito de andar ou de rir".

A acusação mais grave mira a sua amizade com Paula. Um homem o acusa e depois volta atrás. Mas muitos que acreditaram no acusador quando ele mentia não acreditam nele quando se desdiz. A vida que Jerônimo tinha em Roma se torna impossível, e o empurram para fora.

Agosto de trezentos e oitenta e cinco. No porto de Óstia, junto à foz do Tibre, um navio está prestes a zarpar. Jerônimo já está a bordo. Escreve às pressas a Asela, uma das mulheres do Aventino, que fica em Roma.

Está tomado de dor e de lágrimas. Lembra a ela que, antes de conhecer Paula, quase todos em Roma o achavam digno de ser bispo. E lhe diz que nenhuma outra dama da cidade conseguiu dobrá-lo; só Paula, com a sua penitência.

O homem que a cidade queria como bispo vai embora dali acusado.

E, no entanto, a carta não termina em vingança. Jerônimo dá graças a Deus por ser digno do ódio do mundo. Depois pede a Asela que reze por ele, para que possa chegar a Jerusalém, a cidade onde Cristo morreu e ressuscitou.

Com o cais de Óstia ficam para trás o secretário do papa, o mestre do Aventino e o bispo que talvez ele tivesse sido. O que vai com ele, naquele navio, é a gratidão.

Naquele mesmo ano, em Portus, o outro porto de Roma, Paula também embarca rumo ao Oriente.

Na margem ficam os seus filhos. O pequeno Toxócio estende as mãos para ela da terra. Rufina, a filha, chora. Paula ergue os olhos ao céu e vence o seu amor de mãe com o amor a Deus.

Jerônimo não está naquela margem. Anos depois, vai contar a despedida gesto por gesto: as mãos do menino, as lágrimas da filha, o olhar da mãe voltado para o alto.

No Oriente, os seus caminhos se encontram. E a peregrinação os leva a uma pequena cidade da Judeia chamada Belém.

Belém: o presépio e uma casa para os peregrinos

Em Belém, Paula desce à gruta onde Cristo nasceu. Jerônimo está ao lado dela.

A caverna é pequena, de rocha. Paula olha para a manjedoura e garante, diante de Jerônimo, que está vendo ali, com os olhos da fé, o Menino. Vê os Magos. Vê a estrela. Vê a Mãe virgem e José.

Depois cai em pranto. E, no meio das lágrimas, vem subindo a alegria. Também ela, exclama, uma pecadora, foi achada digna de beijar a manjedoura em que chorou o Senhor menino, e de rezar nesta caverna.

Paula beija a manjedoura.

Jerônimo passou metade da vida no meio de palavras escritas. Nesta caverna, a Palavra de Deus se fez carne e chorou como um recém-nascido.

Ele guarda o que ouviu. Só vai pôr isso por escrito muito mais tarde, quando Paula já não puder contar.

Dali continuam percorrendo a Terra Santa, e chegam até o Egito. Mas voltam para Belém, e desta vez para ficar. No ano trezentos e oitenta e seis, com os bens de Paula, são construídos um mosteiro de homens, outro de mulheres e uma hospedaria para os peregrinos que chegam de toda parte aos lugares de Cristo.

Jerônimo vai explicar por que quiseram essa casa. Eles a construíram, escreve, "pensando que Maria e José não tinham encontrado um lugar para se hospedar".

O homem que ficou sem lugar em Roma agora é quem abre a porta.

Séculos depois, os pintores vão lhe dar duas coisas que ele nunca teve. Uma é um manto vermelho de cardeal: com essa púrpura queriam dizer que ele tinha servido junto do papa, como membro do clero de Roma. Mas, no tempo dele, aquela púrpura ainda não existia.

A outra é o leão. Ele chegou muito depois, com uma lenda da Idade Média: um dia entra no mosteiro de Belém um leão com uma ferida na pata; Jerônimo manda que cuidem dela, e o animal, agradecido, fica morando com os monges. Essa história se contava antes sobre outro monge, e com os séculos passou para Jerônimo. Os pintores a acolheram com gosto: uma fera mansa ao lado do homem dos livros.

O que viu naquela casa um viajante da Gália, Postumiano, que morou alguns meses com ele, não foi leão nenhum. Ele contou isso em poucas linhas: "Ele vive inteiro na leitura, inteiro nos livros; não descansa nem de dia nem de noite; está sempre lendo ou escrevendo alguma coisa".

A Bíblia a partir do hebraico

É o mesmo homem que, quando estudante, ficava encantado com uma frase de Cícero. A paixão pelas palavras continua intacta. O que mudou foi o livro que ele tem diante de si.

Por volta do ano trezentos e noventa, ele começa a tarefa mais longa da sua vida. O Antigo Testamento que os cristãos de língua latina liam vinha do grego, da versão dos Setenta. Jerônimo decide voltar mais atrás: traduzi-lo diretamente do hebraico, aquela língua áspera que tanto lhe custou aprender no deserto.

Isso vai levar uns quinze anos, até o ano quatrocentos e cinco.

Ele tem à mão a grande obra de Orígenes, um mestre cristão de Alexandria, que colocava o texto hebraico em colunas, ao lado das traduções gregas, para compará-las. Linha por linha, olha uma coluna e outra. Pesa cada palavra. Volta atrás.

Nesses primeiros anos, dá um passo decisivo. Até ali, ele considerava inspirada a tradução grega; agora muda de ideia. Para ele, inspirado é só o original.

Suas regras são simples e exigentes. Respeita até a ordem das palavras, porque na Escritura, escreve ele, essa ordem "é um mistério". E quando os manuscritos latinos ou gregos não concordam entre si, volta à fonte: ao hebraico ou ao grego original.

Tudo isso ele faz rezando. Pede a Deus que sua tradução seja feita com o mesmo espírito com que os livros foram escritos.

É assim que ele responde, com os anos, ao juiz daquela febre. O talento para a frase bonita, que o afastava da Escritura, agora está a serviço dela. Já não quer que o texto soe como Cícero. Quer que diga o que Deus quis dizer.

No começo, nem todos receberam bem a sua tradução. Em Oea, uma cidade da costa da África que hoje é Trípoli, um bispo manda ler na igreja o livro de Jonas na versão nova. Há uma passagem que todos sabem de cor: a planta que Deus faz crescer para dar sombra ao profeta. Sempre tinham ouvido "abóbora". Agora ouvem "hera".

O tumulto é tão grande que o bispo quase fica sem fiéis, e tem de corrigir a passagem. Quem conta isso a Jerônimo, numa carta, é Agostinho, o grande bispo de Hipona. E Jerônimo responde que o hebraico não diz abóbora: fala de um arbusto de folhas grandes, que cresce depressa e se sustenta sozinho.

Com o tempo, sua versão se tornou patrimônio comum. É a Vulgata, a tradução latina que acabou sendo o texto de toda a Igreja do Ocidente. Durante séculos, em mosteiros, catedrais e paróquias, a Escritura foi lida com as palavras que ele tinha pesado em Roma e em Belém.

Mais de mil anos depois, no século dezesseis, os bispos reunidos no Concílio de Trento a declararam "autêntica": a versão latina que a Igreja considerava confiável para ler, pregar e ensinar em público.

O que movia esses anos sem descanso, diante das colunas de hebraico e de grego, ele mesmo deixou dito na sua frase mais repetida:

"Ignorar as Escrituras é ignorar Cristo."

Mas a mesma pena que servia à Palavra também sabia ferir. Entre os que acabaram em conflito com ele estava um amigo dos tempos de Aquileia: Rufino.

A pena que feria, o coração que chorava

Entre os dois velhos amigos se colocou Orígenes, o mestre das colunas. Ele tinha deixado obras imensas e também ideias muito discutidas. Jerônimo o tinha traduzido e usado em seu trabalho. Rufino, que admirava Orígenes, pediu a Jerônimo que justificasse esse uso.

Jerônimo respondeu às pressas e com palavras duras.

Os escritos foram e vieram, e cada resposta acendia a seguinte. Por volta do ano quatrocentos e um, o homem de Belém continuava se defendendo e atacando com a pena. Daquele “coro de bem-aventurados” de Aquileia, não restava entre os dois nada além de uma disputa amarga.

Não foi a única ferida que a sua pena abriu. Num livro contra outro escritor, falou do matrimônio com expressões depreciativas, e já no seu tempo houve cristãos que o censuraram por isso.

O papa Francisco reconheceu sem rodeios os excessos de Jerônimo, uma linguagem que às vezes chegou a ser violenta. E lembrou, ao mesmo tempo, o que esse homem buscava no fundo: uma paz de Cristo, sem inimizades.

Em janeiro do ano quatrocentos e quatro, em meio a essas batalhas, morre Paula. A mulher que tinha erguido com seus bens a casa dos peregrinos já não está em Belém.

Jerônimo promete à filha dela, Eustóquio, uma carta que conte quem foi sua mãe. Mas, quando pega a pena, não consegue. Os dedos ficam rígidos, a mão cai, e a força vai embora. Precisa ditar a carta. Leva duas noites.

Ao terminar, ele mesmo avisa que o estilo saiu tosco, sem elegância nem graça. Essa falta de jeito, diz, é testemunha da dor de quem escreve. O jovem que não largava Cícero já não procura a frase bonita: nessas páginas, quem manda é a dor.

E nessa carta ficaram guardadas as lágrimas de alegria diante da manjedoura e o menino que, da margem de Portus, estendia as mãos para a mãe. O que Paula disse na gruta chegou até nós porque o homem que estava ao lado dela o ditou para a filha.

É a mesma mão que tinha ferido um amigo. Por Paula, essa mão não consegue nem segurar a pena.

Sobre a mesa, os profetas ainda esperam por ele. Os mesmos que, quando jovem, ao lado de Cícero, lhe pareciam toscos.

Belém no coração

Está trabalhando nos profetas quando chega do Ocidente uma notícia terrível: Roma foi sitiada e tomada. Era a cidade da sua juventude e da sua biblioteca, a que lhe tinha confiado a Bíblia latina e a que o tinha visto partir entre calúnias.

Ele mesmo escreve: "A voz fica presa na minha garganta, e os soluços me cortam as palavras enquanto dito. A cidade que conquistou o mundo inteiro foi conquistada".

Nessa mesma carta, conta o que aconteceu com Marcela, a viúva do Aventino em cuja casa ele ensinava a Escritura. Pelo que lhe contaram, uns soldados entram na casa dela e pedem ouro. Ela, já idosa, aponta para o seu vestido pobre: não tem nada escondido. Não acreditam nela e a espancam. E ela, aos pés deles, só suplica pela jovem que mora com ela. Morre poucos dias depois, nos braços dessa jovem.

O trabalho continuou. Terminou de comentar Isaías e depois se dedicou a Ezequiel. Seus últimos anos foram para Jeremias.

Mas a pena ainda lhe reservava uma última batalha. Já idoso, tinha escrito contra os seguidores de Pelágio, um monge que confiava tanto nas forças humanas que deixava pouco espaço para a graça de Deus. No ano quatrocentos e dezesseis, conforme chegou aos ouvidos de Agostinho, uns partidários de Pelágio atacam os mosteiros de Belém. Espancam monges e freiras, matam um diácono e põem fogo nas casas. Jerônimo se salva a muito custo, refugiado numa torre bem protegida.

Três anos depois, morre Eustóquio, a filha de Paula. Com ela se vai a última das duas mulheres que o seguiram de Roma até Belém. Ele mesmo escreve a Agostinho que a doença e essa morte o fizeram sofrer muito.

Naquela terra, deixou escrita uma frase que é quase o seu retrato: "Feliz aquele que traz Belém no coração, e em cujo coração Cristo nasce a cada dia".

O mesmo papa que reconheceu seus excessos contava sobre ele uma história, avisando que era apócrifa. Nela, Jerônimo pergunta ao Senhor o que Ele quer dele.

"Ainda não me deste tudo", ouve.

Ele enumera o que já entregou: isto, e isto, e isto. E o Senhor lhe responde: "Falta uma coisa: dá-me os teus pecados, para que eu possa ter a alegria de perdoá-los outra vez".

Num 30 de setembro, por volta do ano quatrocentos e vinte, Jerônimo morre em sua cela, ao lado da gruta da Natividade. Morre já muito idoso, na comunidade que tinha fundado. É sepultado numa caverna junto à gruta, perto de Paula e de Eustóquio.

O homem que não encontrou lugar em Roma se despede do mundo a poucos passos de onde Maria e José também não o encontraram. Foi ali mesmo, sem lugar, que Cristo nasceu.

A cidade que o viu partir guarda hoje o que resta dele. Estão na basílica de Santa Maria Maior, uma das grandes igrejas dedicadas à Virgem.

No fim do século treze, o papa Bonifácio VIII determinou que toda a Igreja celebrasse com especial solenidade a festa dos quatro grandes mestres do Ocidente: Ambrósio, Agostinho, Gregório e Jerônimo. Jerônimo é Doutor da Igreja, um mestre da fé cujo ensinamento a Igreja reconhece como seguro para todos.

Todo 30 de setembro, a Igreja inteira celebra a sua memória e recorda o seu amor vivo e suave pela Sagrada Escritura.

Essa memória não fica entre os livros. Em alguns lugares, ela tem ruas, música e gente de joelhos.

Os fiéis de Masaya, na Nicarágua, o chamam de San Jerónimo Doctor, São Jerônimo Doutor. Todo ano, de vinte de setembro a sete de outubro, a cidade inteira faz festa para ele.

Os promesantes, os que vêm pagar uma promessa a ele, dançam ao som das marimbas. Levam para ele ex-votos, oferendas que agradecem uma graça recebida, e vestem a sua imagem. Alguns entram de joelhos no templo e rezam o terço diante das imagens. No dia 30, sai às ruas um torovenado, uma dança popular que só sai nesse dia.

O eremita que banhava de lágrimas os pés de Jesus entre as rochas da Síria é recebido hoje por um povo de joelhos.

A palavra "cristão", que num sonho um juiz não quis aceitar de sua boca, ele sustentou depois com a vida inteira, página por página, até morrer junto ao presépio de Belém.

Senhor Jesus Cristo, que quisestes nascer em Belém e falar-nos em vossa Palavra: vós recebestes as lágrimas de São Jerônimo aos vossos pés e transformastes o seu amor pelas palavras em serviço à vossa Escritura. Por sua intercessão, dai-nos um coração que não se canse de vos escutar no Livro santo, que saiba entregar-vos também os seus pecados e que abra lugar para quem não tem lugar, para que nasçais em nós a cada dia. São Jerônimo, rogai por nós. Amém.

Fontes

Fontes primárias (séculos IV–V)

  • São Jerônimo, Carta 22 a Eustóquio (384) — trad. NPNF II/6, New Advent newadvent.org
  • São Jerônimo, Carta 39 a Paula — trad. NPNF II/6, New Advent newadvent.org
  • São Jerônimo, Carta 45 a Asela (385) — trad. NPNF II/6, New Advent newadvent.org
  • São Jerônimo, Carta 108 a Eustóquio (404) — trad. NPNF II/6, New Advent newadvent.org

Fontes hagiográficas e tradição

  • Universidade de Salamanca, «Leyenda áurea», exposição El León y la Pluma (2020) elleonylapluma.usal.es
  • Martirológio Romano, 30 de setembro, em Cathopedia, «San Girolamo» it.cathopedia.org

Documentos e estudos eclesiásticos e acadêmicos

  • Bento XVI, Audiência geral: São Jerônimo (1) (2007) — Santa Sé, vatican.va
  • Bento XVI, Audiência geral: São Jerônimo (2) (2007) — Santa Sé, vatican.va
  • Francisco, Carta apostólica Scripturae Sacrae affectus (2020) — Santa Sé, vatican.va
  • Louis Saltet, «St. Jerome», The Catholic Encyclopedia, vol. 8 (1910) — Robert Appleton Company / New Advent
  • John Chapman, «Doctores de la Iglesia», Enciclopedia Católica — ACI Prensa ec.aciprensa.com
  • Dicastério para a Evangelização, «Basilica di Santa Maria Maggiore» (2025) — iubilaeum2025.va

Iconografia

  • Francisco, Scripturae Sacrae affectus (2020), seção «A chave sapiencial do seu retrato» — Santa Sé

Contexto contemporâneo

  • Santa Sé, Biografia do Santo Padre Leão XIV (2025) — vatican.va
  • Conferência Episcopal Argentina, ficha da Arquidiocese de Córdoba (2026) episcopado.org
  • Diocese de Segóvia, «El Parral celebra el centenario de la restauración de los Jerónimos» (2025) — diocesisdesegovia.es
  • Ministério da Educação da Nicarágua, Mapa del Arte y la Cultura: Masaya — mined.gob.ni
  • Arquidiocese de Xalapa, «Fiesta patronal en honor de San Jerónimo» — arquidiocesisdexalapa.com

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quinta-feira, 29 de outubro · Evangelho

Jesus segue para Jerusalém e chora sobre a cidade que mata os profetas

Naquele tempo, no mesmo dia, aproximaram-se alguns fariseus e disseram a Jesus: “Sai e vai embora daqui, porque Herodes quer matar-te”. Ele lhes disse: “Ide dizer a essa raposa: Eis que expulso demônios e realizo curas…