Na enfermaria de um convento de Lisieux, uma carmelita de vinte e quatro anos, doente de tuberculose, pega uma rosa e vai tirando as pétalas, uma por uma, sobre o seu crucifixo. Pede que não se perca nem uma pétala.
É Teresa do Menino Jesus, que meio mundo chama de Teresinha: a santa das rosas. Naqueles meses, ela tinha prometido que, depois de morrer, continuaria fazendo o bem na terra, e que a sua ajuda cairia como uma chuva de rosas.
O que poucos sabem é que, enquanto fazia essa promessa, o céu tinha se tornado neblina para ela. Já não o sentia, e foi isso que confiou a uma irmã. Mesmo assim, continuava reafirmando a sua fé e rezava por quem não acreditava.
Como se promete uma chuva de rosas de dentro de uma noite assim? O que ela disse ao morrer? E o que encontraram treze anos depois, ao abrir o seu túmulo?
Uma mãe perdida e um sorriso
A vida daquela carmelita começou em Alençon, uma cidade da Normandia, na França da Terceira República. Fora das igrejas, o ateísmo vivia a sua idade de ouro. Dentro delas, muitos católicos rezavam com uma piedade severa, que falava mais da justiça de Deus do que da sua misericórdia.
Na casa dos Martin, a morte conhecia o caminho. Dos nove filhos de Luís e Zélia, quatro morreram pequenos. Ficaram cinco meninas: Marie, Paulina, Léonie, Céline e a caçula, Teresa, nascida em janeiro de 1873.
Zélia adoeceu de câncer e morreu no fim de agosto de 1877. Teresa tinha quatro anos e meio. Viu a mãe receber a extrema-unção, o sacramento dos moribundos, hoje chamado unção dos enfermos. As cinco irmãs estavam em fila, por idade, e o pai soluçava.
Depois, ele a tomou nos braços: «Vem beijar pela última vez a tua pobre mãezinha». Sem dizer nada, a menina encostou os lábios na testa da mãe.
Não chorou muito. Olhava e escutava em silêncio. Uma vez se viu sozinha diante da tampa do caixão e ficou muito tempo olhando para ela. Era tão pequena que precisava levantar a cabeça para vê-la inteira.
No dia do enterro, as cinco se olhavam com tristeza. Louise, a empregada, disse: «Pobrezinhas, já não têm mãe!». Céline se jogou nos braços de Marie: «Pois você vai ser a mamãe». Teresa se virou para Paulina e se atirou nos braços dela: «Pois para mim, a Paulina vai ser a mamãe!».
Com aquela morte começava para Teresa o período mais doloroso da sua vida.
Em novembro, Luís levou as filhas para Lisieux, para uma casa com jardim chamada Les Buissonnets, perto da família do tio Isidore Guérin.
Em 1882, também Paulina foi embora. Entrou no Carmelo de Lisieux, um convento de monjas dedicadas à oração, que não saem dos seus muros. No fim daquele ano, Teresa ficou gravemente doente. Tinha fortes dores de cabeça e mal-estares, e via coisas que não estavam ali. A família encomendou uma novena de missas, nove dias seguidos de súplica, a Nossa Senhora das Vitórias.
Num domingo de maio de 1883, dia de Pentecostes, Marie saiu um instante para o jardim. Da cama, a menina começou a chamar quase em voz baixa: «Mamãe… Mamãe…». Marie voltou logo. Teresa a via entrar, mas não conseguia dizer que a reconhecia, e continuava chamando, cada vez mais alto.
Marie se ajoelhou junto à cama com Léonie e Céline. As três se voltaram para a imagem da Virgem que havia no quarto. Marie rezava «com o fervor de uma mãe que pede a vida da filha». Sem socorro na terra, também a menina se voltou para a sua Mãe do céu.
«De repente, a Santíssima Virgem me pareceu bela, tão bela que eu nunca tinha visto nada tão lindo… mas o que me penetrou até o fundo da alma foi o sorriso encantador da Santíssima Virgem».
Duas lágrimas grandes lhe correram em silêncio pelo rosto, «lágrimas de pura alegria». E pensou: «A Santíssima Virgem sorriu para mim, como sou feliz… mas nunca vou contar isso a ninguém».
Baixou os olhos e viu Marie, que a olhava com amor. A menina estava curada.
Um ano mais tarde chegaria o dia que ela mais tinha esperado: a sua primeira comunhão, quando receberia Jesus pela primeira vez na Eucaristia. Nesse mesmo dia, atrás da grade do Carmelo, Paulina faria os seus votos para sempre.
Uns sapatos na lareira e um condenado
Na capela da abadia beneditina onde estudava, a menina recebeu Jesus pela primeira vez.
Foi o primeiro beijo de Jesus à sua alma, um beijo de amor. Ela se sentiu amada e lhe respondeu: «Eu vos amo, me entrego a vós para sempre».
Naquela manhã não houve pedidos nem lutas. Jesus e ela já se conheciam havia muito tempo, e naquele dia «já não era um olhar, mas uma fusão». A alegria foi tão grande que ela começou a chorar, e as colegas não entendiam por quê.
A menina que chorava de alegria também chorava por quase tudo. Na noite de Natal de 1886, a família voltou para Les Buissonnets depois da Missa do Galo. Por um velho costume, na lareira esperavam os sapatos de Teresa cheios de presentes. Ela tinha treze anos, e em casa continuavam a tratá-la como a pequena.
Naquela noite o pai chegou cansado. Ao ver os sapatos, disse umas palavras que atravessaram o coração dela: «Enfim, ainda bem que este é o último ano!».
A filha subiu a escada para tirar o chapéu. Céline viu lágrimas brilhando nos olhos dela: «Ah, Teresa, não desça, ia doer demais olhar agora para os seus sapatos!».
Mas desta vez Teresa já não era a mesma: Jesus tinha mudado o seu coração.
Segurou as lágrimas. Desceu depressa. Pegou os sapatos e os colocou diante do pai. Foi tirando os presentes, «com ar feliz, como uma rainha». Ele começou a rir. Céline achou que estava sonhando.
Naquela noite, ela recuperou a força de alma que tinha perdido aos quatro anos e meio, quando a mãe morreu. Chamou aquela noite de sua conversão completa. Desde então, acrescentava, nenhum combate a venceu: tinha começado «uma corrida de gigante».
Aquela força nova logo procurou a quem servir. Num domingo de julho de 1887, no fim da missa na catedral de Saint-Pierre, um santinho do Crucificado escapava um pouco das páginas do seu missal. Diante daquela imagem, sentiu qual era a sua missão: salvar almas.
Naquele verão, os jornais falavam de Henri Pranzini, condenado à morte por um triplo assassinato. Ele recusava qualquer assistência religiosa. A adolescente começou a rezar por ele e a oferecer a Deus, pela salvação dele, o que Jesus tinha sofrido por todos.
Pediu a Céline que mandasse celebrar uma missa nas intenções dela, Teresa, sem coragem de dizer que era por «Pranzini, o grande criminoso». Céline arrancou dela o segredo e, longe de zombar, se uniu a ela.
Teresa disse a Deus que tinha certeza de que Ele o perdoaria mesmo que não se confessasse. Só lhe pedia «um sinal» de arrependimento, para o seu consolo. O pai tinha proibido as filhas de ler os jornais, mas ela achava que não desobedecia se lesse o que falava de Pranzini.
Pranzini foi guilhotinado em Paris no dia 31 de agosto de 1887. No dia seguinte, ela abriu o La Croix, o jornal católico, e leu:
«Pranzini não tinha se confessado; tinha subido ao cadafalso e se preparava para passar a cabeça pelo lúgubre buraco quando, de repente, se vira, pega um crucifixo que o sacerdote lhe apresentava e beija por três vezes as suas chagas sagradas».
As lágrimas a denunciaram, e ela teve que se esconder. Aquele homem, ela o chamaria de seu «primeiro filho».
Não seria a última vez que um crucifixo ocuparia o centro da sua história.
Se a sua oração podia alcançar um condenado, Teresa já sabia de onde queria rezar: atrás dos muros do Carmelo de Lisieux, onde viviam Paulina e, havia pouco tempo, também Marie. Tinha catorze anos.
Proibido falar com o papa
A primeira porta em que bateu foi a do pai. Alguns meses antes, no fim de maio de 1887, ela lhe pediu permissão para entrar no Carmelo, e Luís Martin a concedeu.
As outras não se abriram tão depressa. O tio, Isidore Guérin, recusou no começo e só cedeu em outubro. O superior do Carmelo, o sacerdote responsável por aquela comunidade, se opunha: a moça era jovem demais.
Faltava o bispo. Poucos dias depois, ela viajou com o pai a Bayeux. Antes de se apresentar, prendeu o cabelo comprido num coque, para parecer mais velha. O bispo adiou a resposta.
Em novembro, Luís, Céline e Teresa se juntaram a uma peregrinação diocesana a Roma. Passaram por Loreto. No fim da viagem, esperava por eles uma audiência com Leão XIII.
No dia 20 de novembro, os peregrinos foram passando um a um diante do papa. Eles se ajoelhavam, beijavam o pé e a mão dele e recebiam a sua bênção. Ao lado de Leão XIII estava o padre Révérony, vigário-geral de Bayeux, o sacerdote que agia em nome do bispo. Da parte de Révérony logo veio o aviso: era proibido falar com o papa.
Ela se virou para Céline. E a irmã lhe disse uma única palavra: «Fala!».
Aos pés do papa, em vez de beijar a mão dele, juntou as suas. Tinha os olhos cheios de lágrimas: «Santíssimo Padre, tenho uma grande graça a vos pedir».
O ancião inclinou a cabeça até quase tocar o rosto dela.
«Santíssimo Padre, em honra do vosso jubileu, permiti-me entrar no Carmelo aos quinze anos».
«Não entendo bem», disse o papa. O vigário explicou que os superiores estavam estudando o caso. «Pois bem, minha filha, fazei o que os superiores vos disserem».
Ela apoiou as mãos nos joelhos do papa: «Oh, Santíssimo Padre, se disserdes que sim, todos quereriam!».
Leão XIII olhou fixamente para ela: «Vamos… vamos… Entrareis, se Deus quiser».
Teresa quis continuar falando. Dois guardas nobres a seguraram pelos braços e, com a ajuda do vigário, a afastaram à força dos pés do papa.
«Se Deus quiser». Era tudo o que ela levava de Roma.
A permissão do bispo chegou mais tarde. No dia 9 de abril de 1888, aos quinze anos, ela atravessou a porta do Carmelo de Lisieux. Tinha batido em todas as portas que encontrou, e aquela se abriu quando já não dependia dela.
Entrava no Carmelo teresiano, a família religiosa de outra Teresa: santa Teresa de Jesus, a grande santa de Ávila. Os escritos dela iriam alimentar esta jovem.
Lá dentro a esperavam um horário que começava às quinze para as cinco da manhã e um claustro sem aquecimento. Poucos meses depois, chegaria de fora a notícia mais dura sobre o seu pai.
Atrás da grade: a Santa Face
A grade do Carmelo separava dois mundos. Atrás dela vigorava a clausura: quem entrava não voltava mais a sair do mosteiro.
Teresa era postulante, a jovem que pede para entrar e ainda não usa o hábito. Costurava na rouparia e varria. Daqueles começos deixou um resumo sem enfeites: «mais espinhos que rosas».
Em janeiro de 1889, recebeu o hábito de carmelita. Um mês depois, chegou a notícia. O pai «beberia o mais amargo, o mais humilhante de todos os cálices». Uma doença grave obrigou a interná-lo em Caen, e ali ele passaria três anos. Ela não podia sair para vê-lo.
«As palavras não podem exprimir as nossas angústias».
E, no entanto, olhando para trás, chamou aqueles três anos de «os mais amáveis, os mais fecundos de toda a nossa vida». E acrescentou: «não os trocaria por todos os êxtases e revelações dos santos».
A aridez, uma oração que não trazia nenhuma consolação, era o seu pão de cada dia. Contemplava longamente a Santa Face, o rosto humilhado de Cristo na sua Paixão. Levava sempre o Evangelho consigo e lia são João da Cruz, o carmelita que foi o seu verdadeiro mestre. O seu nome religioso unia os dois extremos da vida de Jesus: Teresa do Menino Jesus e da Santa Face. As orações que ela escreveu ao rosto de Cristo continuam sendo rezadas.
Aos dezessete anos, em setembro de 1890, fez a profissão religiosa, os votos que a uniam para sempre à Ordem, e dias depois recebeu o véu preto. Na sua cela, deixou gravadas algumas palavras: «Jesus é meu único amor».
Um ano depois, num retiro, o sacerdote que o pregava a lançou «a velas soltas sobre as ondas da confiança e do amor».
No verão de 1894, o pai morreu. Semanas depois, Céline também atravessou a porta do Carmelo, e trazia consigo a sua câmera fotográfica. Graças a ela, hoje conhecemos o rosto da irmã.
Naquele outono, com o pai morto e Céline ao seu lado, Teresa continuava esbarrando na mesma coisa: queria ser santa, e a cada dia se via mais longe dos santos.
O elevador
Ela explicou isso com uma imagem: «ao me comparar com os santos, sempre constatei que entre mim e eles existe a mesma diferença que entre uma montanha cujo cume se perde no céu e o grão de areia escuro pisado pelos que passam».
Não desanimou. Pensou que Deus não pode inspirar desejos impossíveis. Crescer, ela não conseguia; teria de se aceitar como era, com as suas imperfeições. Mas queria procurar outro jeito de chegar: «um pequeno caminho bem reto, bem curto, um pequeno caminho totalmente novo».
Vivia num século de invenções. Nas casas dos ricos já não era preciso subir escadas: um elevador as substituía. Ela também queria um elevador, porque era pequena demais para a dura escada da perfeição. Foi procurá-lo na Escritura e encontrou esta frase: «Se alguém for pequenino, venha a mim». E outra, em que Deus promete consolar como uma mãe que acaricia o filho e o embala sobre os joelhos.
«O elevador que deve me levar até o céu são os vossos braços, ó Jesus! Para isso não preciso crescer; ao contrário, tenho de continuar pequena, e ficar cada vez menor».
Em 9 de junho de 1895, festa da Santíssima Trindade, deu o passo seguinte. Ofereceu-se ao Amor Misericordioso: entregou-se inteira, sem guardar nada para si, ao amor de Deus que se inclina sobre o que é pequeno. Na oração que escreveu naquele dia, deixou esta frase: «No entardecer desta vida, comparecerei diante de vós de mãos vazias».
Ainda hoje muita gente a reza com as mesmas palavras dela.
Paulina, que desde 1893 era a priora com o nome de Madre Inês de Jesus, tinha lhe confiado ajudar na formação das noviças. Também lhe pediu que escrevesse as suas lembranças de infância, e Teresa foi enchendo cadernos escolares até entregá-los a ela em janeiro de 1896.
Mais tarde, já pouco antes da sua morte, uma noviça lhe anunciou que encontrariam o seu corpo incorrupto. A resposta veio rápida: «Essa maravilha, não! Seria sair do meu pequeno caminho de humildade».
Toda tarde, dez minutos antes das seis, a irmã São Pedro sacudia a sua ampulheta. Queria dizer: «vamos!». Era idosa e inválida, e era preciso levá-la até o refeitório. Mover o banco de um certo jeito, não ter pressa, segurá-la pelo cinto.
Um passo em falso: «Ai, meu Deus, a irmã está indo depressa demais, eu vou me quebrar!». Um passo mais lento: «eu bem que dizia que a irmã era jovem demais para me levar».
No refeitório, Teresa lhe arregaçava as mangas. Como aquelas mãos mal davam conta do pão, ela o cortava. E, antes de sair, lhe dava «o meu mais belo sorriso».
Numa tarde de inverno, no claustro gelado, ouviu uma música ao longe e imaginou um salão iluminado. Não teria trocado aqueles dez minutos de serviço por mil anos de festas.
Havia outra irmã que, nas palavras de Teresa, tinha «o talento de me desagradar em tudo». A caridade, disse a si mesma, não está nos sentimentos, mas nas obras. Rezava por ela cada vez que a encontrava e lhe prestava todos os serviços que podia. Quando sentia vontade de lhe responder com aspereza, dava-lhe «o meu sorriso mais amável». Às vezes, quando a luta era forte demais, fugia «como um desertor».
Um dia, no recreio, a irmã lhe perguntou toda contente: «O que é que tanto a atrai para mim? Toda vez que a irmã me olha, eu a vejo sorrir».
O que atraía Teresa era «Jesus escondido no fundo da sua alma».
Em março de 1896, pediu para trabalhar na rouparia junto com a irmã Maria de São José, que a comunidade considerava difícil. Teresa dizia às irmãs: «Se soubessem o quanto é preciso perdoá-la».
O que ela estava aprendendo do amor, que não depende do que se sente, logo lhe faria falta para crer.
Poucas semanas depois chegou a Semana Santa de 1896. Teresa tinha feito toda a Quaresma com jejum rigoroso, e dizia que nunca se sentira tão forte.
Quinta-feira Santa: o túnel
Na noite da Quinta-feira Santa, ela ficou em vigília diante do altar da reposição, o altar onde, nessa noite, se guarda a Eucaristia depois da missa que recorda a Última Ceia do Senhor. Ficou ali até a meia-noite. Depois voltou para a sua cela.
Mal encostou a cabeça no travesseiro, sentiu «como um jorro que subia, subia fervendo até os meus lábios». Não sabia o que era. Pensou que talvez fosse morrer, e a alma se encheu de alegria. A lamparina estava apagada. Resolveu esperar pela manhã para ter certeza da sua «felicidade».
Ao acordar, foi até a janela. Não tinha se enganado: era sangue.
Ela o entendeu assim: «Eu estava intimamente convencida de que Jesus, no aniversário da sua morte, queria me fazer ouvir um primeiro chamado. Era como um murmúrio doce e distante que me anunciava a chegada do Esposo». O Esposo: era assim que ela chamava Cristo.
Naquela manhã, contou tudo à priora. Acrescentou que não sofria nada e pediu que não lhe dessem nenhum tratamento especial. Passou a Sexta-feira Santa com todas as austeridades do Carmelo. Na noite seguinte, veio o mesmo sinal.
Tinha tossido sangue pela primeira vez. Era o primeiro sinal da tuberculose, que naquela época causava uma em cada sete mortes na Europa. Em 1897, levaria em Lisieux cerca de uma pessoa por semana.
Naquela mesma Páscoa começou outra provação. Até então, a sua fé era tão viva que ela não conseguia acreditar que existissem incrédulos: achava que diziam o contrário do que pensavam. «Nos dias tão alegres do tempo pascal, Jesus me fez sentir que há verdadeiramente almas que não têm fé».
Deus permitiu que a sua alma «fosse invadida pelas mais espessas trevas». O pensamento do céu, tão doce para ela, tornou-se «motivo de combate e de tormento».
«É preciso ter viajado por esse túnel escuro para compreender a sua escuridão».
Era como ter nascido num país envolto numa neblina espessa, sem nunca ter visto o sol, e saber, mesmo assim, que a verdadeira pátria é outra.
Continuou fazendo atos de fé. Rezava pelos que não acreditavam. Cantava aquilo em que queria crer. Ela mesma uniu aquela escuridão à descrença do seu tempo. E a provação a acompanharia até a morte.
Naquele mesmo ano, com o corpo ferido e o céu coberto de neblina, Teresa sentia desejo de todas as vocações ao mesmo tempo. No Carmelo, já lhe tinham confiado um jovem que se preparava para ser padre.
No coração da Igreja
Chamava-se Maurice Bellière. Madre Inês o tinha confiado a ela em outubro de 1895 como irmão espiritual: um seminarista que Teresa acompanharia com a sua oração e as suas cartas.
Em maio de 1896, confiaram-lhe um segundo irmão: o padre Adolphe Roulland, um jovem das Missões Estrangeiras de Paris que estava de partida para a China. Teresa pediu ao padre Roulland uma mecha de cabelo. Uma «relíquia», explicou, por antecipação.
No retiro de setembro, o desejo de todas as vocações pesava sobre ela: queria ser apóstolo, missionária, mártir, tudo ao mesmo tempo, e não sabia como conciliar tudo isso. Abriu a Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios. Leu sobre os membros do corpo de Cristo, cada um com a sua função. Não se reconheceu em nenhum.
Continuou lendo. O Apóstolo convidava a desejar os dons maiores e prometia mostrar um caminho ainda melhor. E explicava que, sem o amor, esses dons não são nada.
«Compreendi que, se a Igreja tinha um corpo, composto de diferentes membros, não lhe faltava o mais necessário, o mais nobre de todos: compreendi que a Igreja tinha um coração, e que esse coração ardia de amor».
Compreendeu também que, se esse amor se apagasse, os apóstolos deixariam de anunciar o Evangelho e os mártires se recusariam a derramar o seu sangue.
«Ó Jesus, meu amor!… a minha vocação, enfim a encontrei: a minha vocação é o amor!… No coração da Igreja, minha Mãe, eu serei o amor… assim serei tudo».
Logo se corrigiu. Não era uma alegria delirante. Era «a paz tranquila e serena do navegante que avista o farol que deve conduzi-lo ao porto».
Poucos dias depois, resumiu tudo numa carta à sua irmã Marie: «A confiança, e nada mais que a confiança, pode nos conduzir ao Amor».
Mas a neblina continuava ali. Em outubro, durante o retiro de toda a comunidade, ela confiou as suas dúvidas ao padre que o pregava. Ele a aconselhou a trazer o Credo sobre o coração.
Ela obedeceu. Copiou-o com o próprio sangue e passou a trazê-lo consigo.
Em novembro, chegou um pedido de longe. O Carmelo de Saigon precisava de reforços, e em Lisieux pensaram nela.
A comunidade fez uma novena a Théophane Vénard, um jovem missionário martirizado no Tonquim em 1861, de quem Teresa gostava muito. Pediam um sinal.
Durante a novena, Teresa voltou a tossir: «a bainha não é tão sólida quanto a espada».
Não iria a Saigon. Em janeiro de 1897, no seu próprio Carmelo, uma irmã foi lhe contar um sonho.
A porta negra e uma promessa
Era a irmã Teresa de Santo Agostinho. Em 8 de janeiro, ouviu estalos e, naquela noite, sonhou com o pai de Teresa, morto havia anos. No sonho, «o senhor Martin chama a irmã Teresa do Menino Jesus». De início, a própria irmã achou que aquela impressão era superstição.
No dia seguinte, contou isso a Teresa, que se alegrou: a morte de Teresa estava perto.
Mais tarde, num dia de licença, um daqueles dias em que as irmãs podiam conversar livremente, a irmã Teresa de Santo Agostinho lhe contou o sonho inteiro. Tinha visto uma porta muito negra, com uma gaze vermelha e dourada.
Teresa escutou. E lhe confiou o que se passava na sua alma.
«Não creio na vida eterna, parece-me que depois desta vida mortal não há mais nada».
Disse-lhe que aquela porta negra era a imagem do que se passava na sua alma. Ali só lhe restava o amor.
Aquela que tinha gravado na parede da cela «Jesus é meu único amor» já não sentia nada do outro lado.
Naquele mesmo janeiro, numa carta, ela escreveu: «se há um céu, é para mim».
Em 19 de março, festa de são José, contou à sua irmã Marie o que estava pedindo ao santo: «a graça de passar o meu céu fazendo o bem na terra». Em maio, a pedido de Marie, escreveu um poema à Virgem, «Por que te amo, Maria», que até hoje é cantado.
O corpo pagava o seu preço. Em 23 de maio, o médico lhe aplicou no flanco mais de quinhentas pontas de fogo, pequenas queimaduras que na época se usavam como remédio. Depois, Teresa subiu para a cela e se deitou no seu enxergão, o colchão de palha das carmelitas. O médico lhe receitou morfina.
Em junho, por obediência à priora da época, a Madre Maria de Gonzaga, começou a preencher o seu último caderno. E foi nessas semanas que disse aquilo que a tornaria conhecida em meio mundo: a sua ação depois da morte, anunciou, «será como uma chuva de rosas».
Fez a promessa das rosas em plena noite, quando já não sentia o céu.
A Maurice Bellière, seu irmão espiritual, escreveu: «Eu não morro; entro na vida».
Em 8 de julho, a desceram para a enfermaria. No quarto havia uma imagem da Virgem. Dali já não sairia.
Setembro de 1897
Na enfermaria, a pequena que tinha aprendido a se deixar levar já não conseguia dar um passo. Ao lado da cama ficava Paulina, a Madre Inês, a irmã que ela, ainda menina, tinha escolhido como mãe. Dia após dia, ela ia anotando num caderno o que Teresa dizia.
Em 6 de setembro, lhe trouxeram uma relíquia de Théophane Vénard, o jovem mártir de Tonquim. Ela chorou de alegria.
Em poucos dias piorou muito: os pés incharam, e no dia 14 calcularam que ela não viveria mais de quinze dias.
Nesse mesmo dia, teve uma rosa entre as mãos. Foi despetalando a rosa sobre o seu crucifixo, e com cada pétala acariciava as chagas. Pediu que nenhuma se perdesse: mais tarde serviriam «para dar alegria».
No dia 20, chamou a si mesma de «um esqueleto». Disse que gemia e pedia piedade sem parar. E negou que fosse paciente.
No dia 22, a voz quase já não saía. Mesmo assim, disse: «Que graça ter fé!». Sem a fé, confessou, teria tirado a própria vida.
Dois dias depois, disse: «Minha alma, apesar das suas trevas, está numa paz assombrosa». O médico comentou que o rosto dela não estava alterado e que ela tinha «ar de anjo».
Naquelas semanas, tinha dito: «é muito fácil escrever coisas bonitas sobre o sofrimento… é preciso estar nele». Mas, no dia seguinte àquele em que falou da sua paz, afirmou que o que tinha escrito sobre o sofrimento era verdade. No dia 28, ouviu o ofício de são Miguel, o arcanjo.
Na manhã do dia 29, começou o estertor, a respiração rouca da agonia. A comunidade se ajoelhou para rezar as orações pelos moribundos. Ao meio-dia, Teresa perguntou: «Madre, é a agonia?… nunca vou saber morrer».
Naquela noite, depois das Matinas, a oração da noite, disse: «Sim, meu Deus, quero tudo».
No dia 30, de manhã, juntou as mãos. Olhava a imagem da Virgem. «É a agonia pura, sem nenhuma mistura de consolação».
À tarde, ela sufocava. Então, pela janela, entrou o canto dos passarinhos, piscos-de-peito-ruivo e outros, muito forte, muito perto, durante um longo tempo. Aquele canto atravessou o coração da Madre Inês.
Céline pôs nos lábios de Teresa um pedacinho de gelo. Teresa o aceitou com um sorriso. Foi um sorriso «como um adeus supremo», e a Madre Inês nunca o esqueceu.
Às seis, tocou o Ângelus, a oração que recorda o anúncio do anjo a Maria. Teresa olhou longamente a imagem da Virgem.
Passava das sete, e a priora já tinha dispensado a comunidade. Teresa perguntou: «Madre, ainda não é a agonia?… Não vou morrer?».
A priora respondeu: «Sim, minha pobrezinha, é a agonia, mas talvez Deus queira prolongá-la por algumas horas».
Teresa respondeu: «Pois bem… avante!… avante!… Oh, não queria sofrer menos tempo…».
Olhou para o seu crucifixo. E disse o que seriam as suas últimas palavras:
«Oh, eu o amo!… Meu Deus… eu vos amo!».
Caiu suavemente para trás. A priora tocou a sineta da enfermaria: «Abram todas as portas». As irmãs entraram e se ajoelharam.
Viram que o rosto de Teresa recuperava a cor de quando tinha saúde e que os olhos ficavam fixos no alto, brilhando de paz e de alegria. Aquilo durou «o tempo de um Credo». Depois, ela exalou o último suspiro.
Eram sete e vinte da noite de 30 de setembro de 1897. Ela tinha vinte e quatro anos.
Apertava o crucifixo com tanta força que tiveram de arrancá-lo das suas mãos para amortalhá-la.
Foi enterrada na área reservada às carmelitas, no cemitério de Lisieux. Fora da família e do convento, ninguém sabia quem ela era.
Chuva de rosas
No ano seguinte, o nome dela começou a sair de Lisieux. Os seus cadernos foram impressos com o título *História de uma Alma*, numa tiragem de dois mil exemplares. As irmãs os apresentaram como se tudo tivesse sido dirigido a uma só pessoa, corrigiram o estilo e deixaram de fora alguns trechos.
Mesmo assim, o livro passou de mão em mão. Então começaram a chegar cartas ao Carmelo. Vinham de gente de toda parte, que contava ter recebido uma graça depois de lhe pedir uma graça. Era a chuva que ela tinha anunciado no meio da sua noite.
Em menos de trinta anos, as irmãs registraram cerca de oito mil testemunhos. Não eram milagres reconhecidos pela Igreja: eram graças que os fiéis contavam, agradecidos.
Treze anos depois da sua morte, numa manhã de setembro de 1910, abriram o túmulo. Cavaram até três metros e meio e retiraram o caixão, muito deteriorado. Os que estavam junto à cova contaram que a palma colocada em 1897 apareceu verde e viçosa, e que dois operários sentiram um perfume intenso de violetas.
Dela só restavam os ossos. Era o que ela tinha desejado: nenhuma maravilha que a tirasse do seu pequeno caminho. O bispo proibiu que se levasse qualquer fragmento, e mais de quinhentas pessoas passaram para venerar os restos.
Em 1914, Pio X assinou a introdução da sua causa, o processo que examina se alguém pode ser declarado santo. Estourou a guerra. Muitos soldados franceses rezavam a ela, e chegaram tantas súplicas deles que o tribunal foi dispensado de investigar a sua fama de santidade.
Em março de 1923, os seus restos voltaram ao Carmelo. Repousam na capela da Châsse: uma estátua de Teresa adormecida na morte guarda as costelas, e embaixo, num relicário de prata dourada oferecido por devotos do Brasil, estão os demais ossos. Ali são venerados até hoje.
Para beatificá-la, a Igreja mandou que médicos examinassem curas. Uma delas foi a do padre Charles Anne, um sacerdote de Lisieux doente de uma tuberculose pulmonar galopante: a mesma doença que a tinha levado. Em 1923, Pio XI a beatificou em São Pedro, e em 1925, com outras duas curas aprovadas, a declarou santa.
Restava a ferida de Saigon. A freira que não pôde embarcar porque voltou a tossir poderia ser missionária sem sair da clausura? Em dezembro de 1927, Pio XI a proclamou padroeira das missões, ao lado de são Francisco Xavier, o missionário jesuíta. Desde que atravessou a porta do Carmelo, aos quinze anos, Teresa nunca mais tinha saído de lá.
Faltava uma coisa: a sua voz tal como ela a tinha escrito, sem as correções de 1898, e uma frase de uma das suas cartas que alguém tinha raspado.
Se há um céu
Essa voz teve de esperar mais de meio século. A Madre Inês, a sua Paulina, viveu até 1951. Pio XII tinha pedido que se aguardasse a morte da Madre Inês antes de trazer a público os textos originais. Em 1956 foram publicados, enfim, os cadernos tal como Teresa os tinha escrito, página por página.
Aquela voz, já sem retoques, chegou a Roma no dia 19 de outubro de 1997. Na praça de São Pedro, João Paulo II a proclamou Doutora da Igreja. Com esse título, a Igreja reconhece um ensinamento como guia seguro para todos os fiéis. Teresa nunca estudou teologia. Aprendeu com o Evangelho que levava sempre consigo, e nos seus escritos há mais de mil citações da Bíblia. Aquela que tinha querido continuar pequena estava agora entre os mestres da fé.
A sua memória é celebrada no dia primeiro de outubro, e todo fim de setembro o seu relicário percorre Lisieux, do Carmelo à Basílica e à Catedral. Desde 1994, as suas relíquias já viajaram para cerca de setenta países, e em toda a Igreja a sua Oferenda continua sendo rezada e os seus poemas, cantados.
Esse relicário de prata dourada do Carmelo de Lisieux foi oferecido por devotos do Brasil.
A frase raspada era aquela de janeiro de 1897: «se há um céu, é para mim». Ela tinha sido copiada para o processo da sua causa. Depois, alguém a apagou do papel. A cópia a guardou, e hoje ela volta a ser lida.
Teresa a escreveu quando já não conseguia sentir o céu. E nessa frase cabe toda a sua confiança.
Santa Teresinha do Menino Jesus e da Santa Face, vós que vos reconhecestes pequena demais para subir sozinha e vos deixastes levar nos braços de Jesus, e que na noite mais escura continuastes a dizer-lhe «eu vos amo», alcançai-nos essa confiança que não precisa sentir para crer, e ensinai-nos a amar nas pequenas coisas de cada dia. Rogai por nós. Amém.





