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FIDES VIVA

15 de outubro

Santa Teresa de Jesus

Fundadora do Carmelo descalço e autora do Castelo Interior

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Capítulos
  1. 0:00De manhã bem cedo
  2. 3:47A que esperavam morta
  3. 6:30O relógio
  4. 10:10O Cristo muito chagado
  5. 12:40Eu te darei livro vivo
  6. 15:12Uma estrela
  7. 18:32Tempos difíceis
  8. 23:12A casa rústica
  9. 25:41Um frade que queria ser cartuxo
  10. 28:18O livro diante dos inquisidores
  11. 32:21Um castelo na tempestade
  12. 35:51Já é hora
  13. 39:00Mas ela caminhava

Chega a hora da oração no mosteiro da Encarnação, em Ávila, e uma freira, Teresa, olha o relógio torcendo para que acabe logo. Durante anos ela vai viver dividida entre Deus e o mundo. Essa mesma freira é hoje Santa Teresa de Jesus, a de Ávila, a primeira mulher Doutora da Igreja. Foi ela quem disse que orar é tratar de amizade com quem sabemos que nos ama. E ela mesma levou anos para confiar nesse amigo. Foi sepultada sem ser embalsamada. Mais de quatro séculos depois, abriram de novo o seu sepulcro para ver o que restava dela. E o que encontraram não era o que se espera de um corpo tão antigo.

De manhã bem cedo

Até essa casa ela chega pelos próprios pés. Em Ávila, numa madrugada de novembro de 1535, aos vinte anos, ela sai da casa do pai sem a permissão dele. Ele tinha se recusado com firmeza a deixá-la ser freira. Ela caminha até o mosteiro carmelita da Encarnação, fora das muralhas, e ali a priora a recebe.

A casa que ela escolhe é grande, com quase duzentas pessoas. As freiras saem à cidade quando é preciso e recebem visitas no locutório, a sala com grade onde se conversa com quem vem de fora. No ano seguinte, o mesmo pai que tinha se recusado assina o dote, aquilo que a família entrega ao mosteiro, e a filha recebe o hábito.

Não era a primeira vez que ela saía de casa por Deus. Tinha seis ou sete anos e lia vidas de santos com Rodrigo, o seu irmão preferido. Ao ver quanto as mártires sofriam, parecia-lhe que elas compravam o céu bem barato. Então os dois irmãos combinaram de ir morrer mártires em terra de mouros, pedindo esmola pelo caminho, para que lá lhes cortassem a cabeça. Saíram, e tiveram de voltar para casa.

Fracassado o martírio, viraram eremitas na horta. Levantavam ermidas com pedrinhas, que logo desabavam. A menina procurava cantos onde ficar sozinha para rezar, sobretudo o Rosário, e dava esmola como podia, e podia pouco. Naquelas leituras ela descobriu que tudo acaba e que só Deus permanece. Ela e Rodrigo repetiam isso um ao outro, sem parar, «para sempre, sempre, sempre».

Rodrigo, o irmão daquela fuga para a terra de mouros, vai acabar indo muito mais longe. No mesmo ano em que Teresa entra na Encarnação, ele embarca em Sevilha rumo às Índias, e lá, no Rio da Prata, morre provavelmente uns dois anos depois. As duas crianças que sonhavam dar a vida por Deus nunca mais vão se ver.

A casa que ela deixa naquela madrugada já tinha perdido a mãe. Dona Beatriz de Ahumada morreu quando a filha tinha treze anos. A menina foi então à ermida de São Lázaro, ficou diante de uma imagem de Nossa Senhora da Caridade e lhe pediu o que já não tinha. Muitos anos depois, ela contou assim. «Supliquei-lhe que fosse minha mãe».

Por isso, naquela madrugada de novembro, ela não atravessa Ávila de todo sozinha.

A que esperavam morta

Pouco depois de fazer os votos, em 1537, Teresa adoece gravemente e precisa sair da Encarnação para se tratar. Passa o inverno em Hortigosa, na casa do tio Pedro. Ali ela lê um livro sobre a oração, o Terceiro Abecedário Espiritual, de frei Francisco de Osuna. Com esse livro aprende o recolhimento, um jeito de orar em que os sentidos se voltam para dentro, para ficar a sós com Deus. Assim, a oração chega até ela primeiro como um livro.

Mas o remédio não chega. Em Becedas ela passa meses submetida a tratamentos que não a curam, e volta para Ávila pior do que saiu.

Em agosto de 1539, na casa do pai, ela perde os sentidos e fica assim quase quatro dias. É dada como morta. Quando volta a si, está com a língua em pedaços de tanto mordê-la. Não consegue engolir nem água. Tem o corpo encolhido, enrolado como um novelo, e só mexe um dedo da mão direita. Para movê-la, duas mulheres a carregam num lençol, cada uma segurando uma ponta.

Assim ela fica até a Páscoa. Então pede que a levem para o seu mosteiro. As freiras a recebem de volta, e ela resume tudo numa frase seca. «A que esperavam morta, receberam com alma, mas com o corpo pior que morto».

Passa mais de oito meses sem poder se mover, e quase três anos até voltar a andar. O primeiro passo não é um passo. Quando enfim começa a engatinhar, louva a Deus. As freiras se admiram da sua paciência, e ela a considera um presente do Senhor.

Os médicos da terra já não lhe dão esperança, então ela decide recorrer aos do céu. Não quer devoções supersticiosas. Escolhe como protetor São José, o esposo da Virgem. E tem certeza de quem a pôs de pé. Foi São José.

Desde então, não se lembra de ter pedido a ele nada que ele não lhe concedesse. E a quem não tiver ninguém que o ensine a orar, ela deixa um conselho. «Quem não encontrar mestre que lhe ensine a oração, tome este glorioso Santo por mestre e não errará o caminho».

Já de pé, ela volta à vida da casa, às visitas e ao locutório.

O relógio

As horas junto à grade passam sem que ela perceba. Teresa conversa bem, as pessoas gostam dela, e as visitas voltam.

Aquelas conversas vão afastando Teresa de Deus. Um dia, logo que começa a conhecer certa pessoa, Cristo aparece diante dela, muito sério, dando-lhe a entender o quanto aquilo lhe doía. Ela não o vê com os olhos do rosto, mas com os da alma, e com mais clareza do que se o visse com os do corpo. Fica espantada. Mas, com o passar dos dias, convence-se de que imaginou tudo, e volta à mesma conversa.

Outra vez, com essa mesma pessoa e em plena luz do dia, ela e outros que estão ali veem vir em direção ao grupo algo parecido com um sapo grande, muito mais rápido do que os sapos costumam andar. Ela nunca esqueceu aquilo. Entendeu como mais um aviso, e mesmo assim não deixou aquelas visitas.

Durante cerca de um ano e meio, ela chega a abandonar a oração. Sente-se tão má que não se acha digna de tratar com Deus. Ela chama isso de falsa humildade, e diz que foi a maior tentação que teve. Anos antes, tinha ensinado o pai a orar, e ele avançou tanto que agora vai à Encarnação para lhe falar de Deus. E Teresa dá a ele suas doenças como desculpa para não orar.

No fim de dezembro de 1543, o pai adoece, e Teresa cuida dele. Não deixa que ele perceba nenhuma tristeza nela, embora por dentro a alma se parta. Ele sente muita dor nas costas. Ela lhe sugere pensar no Senhor carregando a cruz, e ele não se queixa mais.

Ele recebe a unção dos enfermos e pede aos seus que o recomendem a Deus e que vejam que tudo se acaba. Passa três dias quase sem sentidos. No dia da morte, volta a si e reza o Credo, a oração em que o cristão professa a sua fé. Morre no meio do Credo, rezando-o ele mesmo.

O homem que não queria vê-la freira parte rezando, como a filha lhe ensinou, e em paz, como um anjo.

Nesse luto, quem a acolhe é o confessor do pai, um frade dominicano. Ele a faz comungar a cada quinze dias e lhe pede que não abandone a oração. E então ela volta à oração, e nunca mais a deixa, embora ainda não se afaste daquelas conversas do locutório que a iam afastando de Deus.

Não é fácil. Há dias em que a única coisa que ela espera é o fim da hora, de olho no relógio. Mas não se levanta. Fica agarrada à oração, como a uma coluna forte.

E nessa luta ela descobre o que é orar. Para ela, é tratar de amizade, estar a sós com alguém que ela sabe que a ama. A Cristo ela diz isso com a simplicidade de quem fala com um amigo. «Ó, que bom amigo sois, meu Senhor!»

Já faz quase vinte anos que vive assim, com o coração dividido entre Deus e o mundo, quando um dia entra no oratório da casa e encontra uma imagem que antes não estava ali.

O Cristo muito chagado

A imagem tinha sido buscada para uma festa da casa, e agora a trazem para guardá-la no oratório. É Quaresma, e Teresa fica imóvel diante dela. É um Cristo coberto de chagas, tão comovente que, ao olhar para ele, ela estremece inteira, porque vê nele tudo o que Ele sofreu por nós.

Teresa tem trinta e nove anos e chega a esse momento cansada de si mesma. Quer descansar, e os seus maus costumes não a deixam. Há anos ela se propõe mudar com as próprias forças. E sempre acaba voltando ao mesmo.

Agora olha aquelas feridas e sente como foi ingrata com elas. E então sente que o coração se parte.

Lança-se junto dele, chorando muitíssimo, e lhe suplica que a fortaleça de uma vez para não ofendê-lo.

Outras vezes ela já chorou e já prometeu. Agora já não confia em si mesma e põe toda a sua confiança em Deus.

E, do chão, fala com Ele.

Diz que não vai se levantar dali enquanto Ele não fizer o que ela pede.

E fica ali, no chão. Desde então, vai melhorando muito. Deus a tira daquilo que ela chama de uma morte tão mortal.

Nesses mesmos dias, dão a ela as Confissões de Santo Agostinho, como se o Senhor tivesse preparado tudo. É o livro em que aquele santo dos primeiros séculos conta como voltou para Deus. Num jardim, Agostinho tinha ouvido uma voz que o chamava a mudar de vida.

Quando Teresa chega a essa página, a voz já não é só de Agostinho. Ela sente que é o Senhor quem lhe diz aquilo. E passa um bom tempo desfeita em lágrimas.

Pouco depois, na oração, ela é surpreendida por algo que nunca tinha vivido, uma presença de Deus tão clara que não consegue duvidar de que Ele está dentro dela.

Mas essa proximidade não tranquiliza a todos. Alguns de seus amigos e de seus confessores têm medo de que seja o demônio que a está enganando. Naquela Espanha, desconfiava-se das mulheres que diziam receber favores de Deus.

Eu te darei livro vivo

Por isso, vários homens de Deus vão ouvi-la. No inverno de 1557, passa por Ávila Francisco de Borja, um nobre de Valência que deixou tudo para se tornar jesuíta. Teresa lhe conta como é a sua oração, sem esconder nada. E sai dali com uma resposta. O que ela vive na oração vem de Deus.

Depois, tiram dela aquilo que mais a tinha acompanhado. Desde menina, quando lia vidas de santos com Rodrigo, os livros eram o seu caminho até Deus. Em agosto de 1559, o inquisidor-geral, Fernando de Valdés, publica o Índice, a lista dos livros proibidos. Com ele, desaparecem muitos dos livros espirituais em castelhano que ela lia. Teresa sofre muito com isso.

E, nessa perda, o Senhor lhe diz «Eu te darei livro vivo».

Poucos dias depois, conta ela, começam as suas visões. No dia de São Pedro de 1560, ela vê Cristo, e Ele mesmo é esse livro vivo.

Nesse mesmo ano, na casa da amiga dona Guiomar de Ulloa, uma viúva da cidade, Teresa conhece um franciscano idoso e muito magro. É frei Pedro de Alcântara, reformador dos franciscanos. Teresa abre a alma para ele, e ele lhe traz luz em tudo.

E, nesses meses, na Encarnação, acontece com ela algumas vezes a graça do dardo, uma das cenas da sua vida que os artistas mais representaram. Do seu lado esquerdo, ela vê um anjo. Não é grande, mas pequeno e muito bonito, com o rosto todo abrasado, e lhe parece ser daqueles que se chamam querubins.

Nas mãos, o anjo traz um longo dardo de ouro, com um pouco de fogo na ponta. Parece-lhe que ele o crava algumas vezes no seu coração, e que o dardo chega até as entranhas.

Ao tirar o dardo, o anjo deixa Teresa ardendo num grande amor de Deus. A dor a faz gemer. E a doçura é tão grande que ela não quer que essa dor passe.

Não é uma dor do corpo, mas da alma, embora o corpo também participe, e muito.

Uma estrela

Um dia, estando em oração, de repente ela se vê dentro do inferno, no lugar que os demônios tinham preparado para ela. Diante dela há uma entrada como um beco muito comprido e estreito, parecido com um forno muito baixo e escuro. O chão é de lama. No fundo há um buraco na parede, e é ali que ela se vê encerrada.

Sente um fogo na alma e um desespero, uma falta total de esperança, que pesa mais do que todas as dores que já tinha sofrido no corpo, até mesmo as daqueles quatro dias em que a deram por morta.

Ali não há luz, tudo é escuridão.

Ela sai dali transformada. Perde o medo dos sofrimentos desta vida. O que lhe fica é uma tristeza enorme pelas almas que se perdem, e sobretudo pelos luteranos. São os cristãos que, no seu século, se afastaram de Roma seguindo Lutero. Para ela, eles continuam sendo membros da Igreja pelo batismo, e o que ela sente por eles é dor. Dessa tristeza nasce nela o desejo de viver a Regra do Carmelo, a norma de vida da sua Ordem, com toda a perfeição que puder. Na Encarnação, essa Regra é vivida de forma suavizada, com saídas à cidade e visitas no locutório.

Numa noite de setembro, Teresa e algumas parentes conversam na cela dela sobre os Padres do Deserto, os primeiros monges que deixaram tudo para rezar na solidão. Uma parente jovem, María de Ocampo, propõe fundar um mosteiro pequeno e oferece a sua herança. Dona Guiomar de Ulloa, a amiga viúva, se junta. Teresa hesita. Está contente na sua cela.

Mas um dia, depois de comungar, Cristo lhe manda lutar por essa casa com todas as suas forças. Ela recebe a promessa de que a casa será feita e vai se chamar São José, de que São José guardaria uma porta e a Virgem a outra, e de que Cristo andaria com elas. Vai ser uma estrela que dará muita luz.

Ao ouvir isso, Teresa fica angustiada, porque vê tudo o que vai sofrer para fazer essa casa, e a paz da sua cela, que vai ter de deixar.

A angústia não passa. Na festa da Assunção de 1561, ela reza numa igreja dos dominicanos de Ávila, a mesma onde tinha confessado tantos pecados, e se lembra deles. De repente, ela se vê sendo vestida com uma roupa muito branca e luminosa. Nossa Senhora está à sua direita e São José à sua esquerda, e são eles que lhe põem essa roupa. Ela entende que já está limpa dos seus pecados.

Nossa Senhora segura as mãos dela. Diz que se alegra muito por ela servir a São José, e lhe garante que o mosteiro será feito.

A casa já tem nome e dois guardiões. O que ainda não tem é dinheiro.

Tempos difíceis

Assim que Ávila fica sabendo, começam os falatórios, as risadas, os que dizem que é um disparate, e a oposição chega de todos os lados. A pressão atinge todos os que a ajudam. Os confessores de dona Guiomar, a amiga viúva, lhe negam o perdão na confissão enquanto ela não desistir do projeto. O provincial, o superior dos carmelitas da região, tinha dado a sua permissão, e agora a retira. Ele diz que a casa não vai ter do que viver e que a oposição é grande demais. Até o confessor de Teresa manda que ela não fale mais do assunto. E na Encarnação, o seu próprio convento, olham para ela com tanta desconfiança que algumas freiras pedem que ela seja trancada como castigo.

Teresa e dona Guiomar recorrem então a frei Pedro Ibáñez, um dominicano, o homem mais sábio da cidade. Ele pede oito dias para estudar o projeto, convencido de que vai tirar essa ideia da cabeça delas. Passados esses dias, ele se convence de que a obra é mesmo para Deus. E diz a elas que se apressem para terminá-la.

Mas em Ávila já se comenta que essa casa nasce de umas visões, que Teresa diz que foi Cristo quem lhe mandou fazê-la. E naquela Espanha isso era perigoso. Uns amigos a avisam, com muito medo, de que ela pode ser denunciada à Inquisição, o tribunal que julgava quem se afastava da fé.

«Isso me pareceu engraçado e me fez rir», diz Teresa. Ela sabe muito bem o que traz dentro de si. Pela menor cerimônia da Igreja, ou por qualquer verdade da Escritura, ela estaria disposta a morrer mil mortes. Então responde que, se houvesse motivo, ela mesma iria procurar a Inquisição. Depois conta a Ibáñez, com toda a clareza, as suas visões e o seu modo de rezar, para que ele veja se há alguma coisa contra a Escritura.

Enquanto isso, a irmã de Teresa compra em segredo uma casa pequena, como se fosse para ela mesma. Dinheiro não há. «Meu Senhor, como me mandais coisas que parecem impossíveis?», diz Teresa a Cristo. Um dia ela não tem com que pagar os operários que consertam a casa. Então lhe aparece São José, a quem ela chama de seu verdadeiro pai e senhor, e lhe dá a entender que o dinheiro não vai faltar. E ela contrata os operários sem ter uma única moeda.

A casa lhe parece pequena demais, e ela pensa em comprar outra. Mas, depois de comungar, ouve Cristo lhe dizer «Já te disse que entres como puderes». E a mesma voz acrescenta «Quantas vezes eu dormi ao relento por não ter onde me abrigar!». Teresa volta para a casinha, arruma tudo com o que tem e encontra nela um mosteiro completo.

No verão de 1562, adoece o marido da sua irmã, aquela que tinha comprado a casinha. Teresa consegue permissão para sair da Encarnação e cuidar dele, e assim, sem levantar suspeitas, pode se ocupar da casa. A fundação é feita em grande segredo. No dia 24 de agosto, quatro jovens recebem o hábito na casinha. É São José, a casa que Cristo lhe tinha prometido, com São José e a Virgem guardando as suas portas. Um Carmelo pobre e de clausura, onde as freiras vivem sem sair. E desta vez, ao contrário das ermidas de pedrinhas da sua infância, as paredes não caem.

Logo em seguida, Teresa tem de voltar à Encarnação para prestar contas ao provincial. Ele tinha retirado a sua permissão, e a casa foi feita com a permissão do bispo de Ávila, dom Álvaro de Mendoza. E a cidade inteira se levanta contra a casa nova. A Câmara municipal, o governo de Ávila, reúne os homens mais importantes da cidade para fechá-la, e ali frei Pedro Ibáñez, o dominicano sábio, e outros sacerdotes a defendem. A casa resiste. A cidade vai continuar brigando contra ela nos tribunais por mais de um ano, mas as freiras não saem.

E na casinha rústica, quatro noviças começam a viver o que ela tinha sonhado.

A casa rústica

No fim de 1562, Teresa volta para São José, e desta vez para ficar. A casa é pobre e rústica, com umas pequenas ermidas na horta. Agora ela veste o hábito de burel pardo, uma lã áspera, igual ao das suas noviças. Ali vai viver os cinco anos que ela chama de os mais tranquilos da sua vida.

Naqueles anos tranquilos, o demônio também não a deixa em paz. Um dia ela vê ao seu lado uma figurinha escura e horrível, que rosna como se estivesse desesperada. Teresa ri e pede água benta. Jogar a água em si mesma não adianta nada, mas, assim que ela a joga na direção dele, ele vai embora na mesma hora.

Uma das suas freiras declarou anos mais tarde, quando a Igreja examinava a santidade de Teresa, que ela nunca queria andar sem água benta. Levavam a água benta em pequenas cabaças penduradas na cintura.

Nesses anos, um sacerdote conta a Teresa que há dois anos e meio vive num pecado grave que não tem coragem de confessar. Teresa promete rezar por ele e pedir que outros rezem também, e lhe escreve por meio de uma terceira pessoa. Logo na primeira carta, ele se confessa.

Mas a tentação não o larga, e ele conta a Teresa que essa tentação o atormenta como um inferno. Então Teresa pede a Deus que essa tentação caia sobre ela, e passa um mês de tormentos terríveis, até que ele fica livre. Quando a tentação volta a apertar, ele lê outra vez as cartas de Teresa. Ela atribui essa mudança à oração das suas irmãs de São José.

Para essas poucas irmãs ela escreve então o Caminho de Perfeição, um livro que as ensina a rezar. Nele fala da Igreja dividida pelos luteranos e da dor que sente por ela. Fica muito angustiada e escreve assim. «Como se eu pudesse alguma coisa ou fosse alguma coisa, chorava com o Senhor e lhe suplicava que remediasse tanto mal».

E em 1567 bate à porta de São José o superior de toda a Ordem.

Um frade que queria ser cartuxo

O visitante é o prior-geral dos carmelitas, o italiano João Batista Rubeo. Ele conhece a casa pequena, conversa com a fundadora e, antes de seguir viagem, a autoriza a fundar outras casas como aquela. Alguns meses depois, dá licença também para duas casas de frades.

A primeira casa nova é aberta em agosto, em Medina del Campo, uma cidade de mercadores e de feiras. Ali Teresa procura frades que queiram viver a Regra sem abrandamentos, como as suas freiras. O primeiro a se oferecer é o prior do convento carmelita, frei Antônio de Heredia. Mas é preciso mais.

Um dia chega a Medina um jovem frade do Carmo, de vinte e cinco anos. Ele se chama frei João de São Matias, estuda em Salamanca e veio celebrar a sua primeira missa. Teresa conversa com ele. Fica muito contente com ele e descobre que está prestes a deixar a Ordem para se tornar cartuxo. Os cartuxos são monges que vivem em silêncio, cada um sozinho na sua cela.

Os dois conversam durante semanas. Ela lhe propõe outra solidão, a de uma vida pobre dentro da sua própria Ordem. Ele dá a palavra de que vai se juntar a ela, com uma condição, que não se demore muito. Ele será São João da Cruz.

E não se demora. Em novembro de 1568, em Duruelo, uma casa de lavoura perdida no campo, frei João inaugura a primeira casa de frades descalços. É assim que são chamados os da reforma, que vivem a Regra sem abrandamentos. Teresa não está lá, porque continua pelos caminhos fundando novos Carmelos, um depois do outro, e no fim da vida serão dezessete.

Poucos anos depois, mandam que ela volte para a Encarnação, a casa de onde saiu, mas agora como priora. E ali os caminhos dos dois se cruzam outra vez. Como confessor daquelas freiras ela traz frei João, um dos descalços, que considera muito santo.

Num dia de novembro de 1572, Teresa recebe a comunhão das mãos de frei João e, com ela, a graça que chama de matrimônio espiritual, a união mais profunda com Cristo. Anos depois, ela escreverá que essa união acontece no mais escondido da alma.

O livro diante dos inquisidores

Enquanto isso, uma das suas fundações desandou, a de Pastrana. Anos antes, dona Ana de Mendoza, a princesa de Éboli, uma grande dama da corte, tinha chamado Teresa à sua vila para que fundasse ali um Carmelo. Quando fica viúva, a própria princesa entra como freira nessa casa. A presença dela e as suas interferências tornam impossível a vida das freiras, e em 1574 elas abandonam Pastrana.

A princesa também sai do convento. E nesses meses ela denuncia à Inquisição um livro de Teresa, o Livro da Vida, o relato que Teresa tinha escrito para os seus confessores, com as suas visões e as graças que recebia de Deus. Teresa o tinha terminado em 1565, em São José. Em 1559 tinham tirado de Teresa os seus livros, e agora é um livro dela que a Inquisição vai ler.

No ano seguinte, o bispo de Ávila, dom Álvaro de Mendoza, aquele que tinha amparado São José, entrega à Inquisição de Valladolid o manuscrito original, escrito pela própria mão de Teresa. De lá ele passa ao tribunal de Madri, onde é examinado pelo dominicano Domingo Báñez. No verão de 1575, Báñez assina o seu parecer, e é favorável. Nele escreve que aquela mulher, mesmo que se engane em alguma coisa, pelo menos não é uma enganadora.

Mesmo assim, o livro fica retido durante anos.

Só será publicado depois da morte dela.

Em 1575, enquanto o manuscrito espera em Madri, Teresa chega a Sevilha para fundar. Chega doente, com poucas freiras, e entre todas lhes resta uma única blanca, a menor moeda de Castela, e nada além da roupa que vestiam.

A nova denúncia sai do seu próprio convento. No fim daquele ano, uma noviça que tinha saído daquele Carmelo denuncia Teresa e as suas freiras à Inquisição. Em 1576, os inquisidores de Sevilha as interrogam, ela e outras religiosas. Teresa responde com a mesma clareza com que, em Ávila, tinha contado tudo a Ibáñez. Ela escreve para um consultor do tribunal um relato da sua vida interior.

Antes que ela deixe Sevilha, o padre Jerônimo Gracián, um jovem frade descalço que agora é o seu superior, e a quem ela prometeu obedecer, lhe impõe uma mortificação, um exercício de humildade. Ele mesmo contou que foi uma das que mais custaram a ela. Manda que ela se deixe retratar, ordena que obedeça ao pintor e vai embora.

O pintor é frei Juan de la Miseria, um frade napolitano não muito hábil com o pincel. Ele a repreende se ela ri ou mexe o rosto. Segura o rosto dela com as mãos para virá-lo para a luz. Assim nasce o único retrato que lhe fizeram em vida. Sobre a cabeça de Teresa ele pinta uma pomba e, ao lado dela, uma faixa com um verso dos salmos.

«Misericordias Domini in aeternum cantabo». São palavras de um salmo, e querem dizer que cantará para sempre as misericórdias do Senhor. Ao lado, ele escreve a idade dela, sessenta e um anos.

Conta-se que, ao ver a tela pronta, ela disse ao frade que ele a tinha pintado feia e remelenta.

Com esse rosto de sessenta e um anos, ela deixa Sevilha rumo a Castela, mas não para fundar. A sua própria Ordem mandou que ela ficasse reclusa num convento.

Um castelo na tempestade

E quem dá essa ordem, no fim das contas, é o prior-geral Rubeo. Alguns anos antes, ele tinha escrito que ela faz mais bem à Ordem do que todos os frades carmelitas da Espanha. Agora o prior-geral se sente desobedecido. Na Andaluzia foram abertas casas de frades descalços sem a permissão dele, com a de um visitador, o enviado que inspecionava a Ordem.

Em 1575 se reúne em Piacenza, na Itália, o capítulo geral, a grande assembleia dos superiores carmelitas, e se volta contra os descalços. Dessa assembleia sai a ordem de reter Teresa. Chega até ela o boato, falso, de que foi excomungada, de que foi afastada da comunhão da Igreja.

Com a própria Ordem contra ela, Gracián e um confessor mandam que ela escreva. Em junho de 1577, em Toledo, ela começa o Castelo Interior, que também se chama As Moradas. Nele, a alma é um castelo com sete moradas, sete aposentos, um dentro do outro. É também um bicho-da-seda que se fecha no casulo e sai borboleta. E no fim está a união dos dois esposos, a alma e Cristo.

Ela termina o livro em novembro, já de volta a São José de Ávila. Por esse ensinamento, o papa Paulo VI vai proclamá-la, em 1970, a primeira mulher Doutora da Igreja.

Poucos dias depois, numa noite de dezembro, os frades do ramo antigo da Ordem, contrários aos descalços, prendem frei João da Cruz, o frade que ela tinha conquistado em Medina, e o trancam na prisão do convento que tinham em Toledo. No dia seguinte, de Ávila, Teresa escreve ao rei Filipe II para defendê-lo.

E, como se não bastasse, na véspera de Natal ela cai na sua casa de São José e desloca o braço esquerdo. Com o braço assim e o amigo preso, ela passa o inverno inteiro. Em maio, uma curandeira põe o braço de volta no lugar, com uma dor terrível.

Em 1578 chega um novo representante do papa na Espanha, o núncio Filippo Sega. Ele tira os poderes de Gracián e coloca os descalços, frades e freiras, sob os superiores do ramo antigo da Ordem, o que se opunha à reforma. Conta-se que ele chamou Teresa de mulher inquieta, andarilha, desobediente e contumaz, alguém que não sossega e não obedece.

Naquele ano chegam a ela duas notícias. Frei João conseguiu fugir da prisão de Toledo. E em Roma morreu o prior-geral Rubeo. Teresa chora por ele, embora tenha sido ele quem mandou retê-la.

No fim, quem toma o partido dos descalços são os conselheiros do próprio núncio, e em 1580 o papa Gregório XIII, com um breve, uma carta do papa com força de lei, concede a eles uma província própria, o direito de governar a si mesmos.

Com essa província nas mãos e o braço ainda dolorido, Teresa sai mais uma vez pela estrada, rumo ao norte.

Já é hora

Seu último caminho rumo ao norte começa com uma despedida. No fim de 1581, em Ávila, ela se encontra com frei João da Cruz. É a última vez. Os dois se conheciam desde Medina, catorze anos antes, quando ele ainda pensava em entrar para a cartuxa.

Em pleno inverno, ela chega a Burgos com a saúde desgastada. O arcebispo cria dificuldades durante meses, e só em abril de 1582 ela abre ali seu último Carmelo. Em maio, Gracián, que a acompanhou na viagem, se despede dela. Nesse mesmo mês, o Arlanzón, o rio da cidade, transborda, e a água inunda a casa.

No verão, ela começa a viagem de volta. Quer chegar a Ávila para ver a sobrinha fazer os votos. Mas frei Antônio de Heredia, o primeiro que em Medina se ofereceu para a reforma, ordena que ela mude de caminho e siga para Alba de Tormes. Ela obedece e chega muito doente. Poucos dias depois, deita-se para não se levantar mais.

Entre as folhas do seu breviário, o livro das orações de cada dia, ela leva um poema breve, «Nada te perturbe, nada te amedronte, tudo passa, Deus não muda, a paciência tudo alcança, quem a Deus tem nada lhe falta. Só Deus basta».

A mulher que na Encarnação ouvia o relógio e queria que a hora da oração acabasse já não conta os minutos. Agora espera outra hora.

No dia 3 de outubro, levam à cela o viático, a última comunhão de quem vai morrer. Junto à cama estão Ana de São Bartolomeu, a irmã que cuida dela como enfermeira, e o sacerdote que lhe dá os últimos sacramentos. Ao receber Cristo, Teresa exclama «Já é hora, meu Esposo, de nos vermos».

Nas últimas horas, ela agoniza em paz. Os que a velam a ouvem repetir salmos, dando graças a Deus e esperando de Cristo a salvação. Diz que morre filha da Igreja e pede perdão pelos seus pecados. Frei Antônio suplica que ela não morra tão cedo, e ela responde que já não é necessária. «Eu, padre, já não faço falta».

Morre por volta das nove da noite de 4 de outubro de 1582.

Nessa mesma noite entra em vigor o novo calendário do papa Gregório XIII, que ajusta as datas ao curso do sol, e depois da quinta-feira, 4 de outubro, vem a sexta-feira, 15. Numa só noite, o calendário pula dez dias. Nessa sexta-feira, 15, ela é sepultada em Alba, e nessa data a Igreja inteira celebra todos os anos a sua memória.

Deixam Teresa na casa onde morreu.

Mas ela caminhava

As freiras de Alba velam o seu túmulo. Naquele Carmelo se guardou a lembrança de que o seu corpo, sepultado sem ser embalsamado, continuou durante décadas como no primeiro dia.

Ávila e Alba chegaram a disputá-lo. Em 1585 o levaram para São José de Ávila, e no ano seguinte ele voltou para Alba. Junto ao seu sepulcro de Alba começou-se a falar de graças alcançadas por sua intercessão. Essa fama ajudou a abrir em Salamanca o exame da sua vida, e em 1622 o papa Gregório XV a proclamou santa.

Aquele corpo repousa hoje atrás de uma grade, numa urna de prata que os reis da Espanha lhe deram de presente no século dezoito. Para chegar até ele são necessárias dez chaves.

No verão de 2024, todas elas são usadas. Primeiro, as carmelitas da casa, um tribunal da Igreja e alguns poucos religiosos levam os relicários do seu coração e do seu braço, que também são guardados em Alba. Fazem isso cantando o Te Deum, o antigo hino de ação de graças. Com eles está o padre Marco Chiesa, o frade encarregado das causas de santidade dos carmelitas descalços. Retiram a laje de mármore. Três chaves abrem a grade, três o sepulcro e quatro a urna.

Rezam diante do corpo. Depois de mais de quatro séculos debaixo da terra, esse corpo deveria ser hoje apenas ossos. O de Teresa está como estava em 1914, a última vez em que a urna tinha sido aberta. A pele está seca e já não tem cor, e mesmo assim os especialistas conseguem ver, quase com clareza, o rosto de Teresa. Esse é o corpo que tantos fiéis chamam de incorrupto.

Resta o pé. O seu corpo não está inteiro em Alba. Como se fazia com os santos, algumas partes foram repartidas como relíquias, e em Roma se conserva um pé. Esse pé também foi estudado, e o padre Chiesa conta o que viram nele, crescimentos do osso, esporões calcários que tornam quase impossível caminhar. E acrescenta «Mas ela caminhava».

Ainda menina, ela saiu de Ávila rumo à terra de mouros, e teve de voltar. Depois da doença, voltou a andar, primeiro engatinhando. Percorreu Castela, La Mancha e Andaluzia em carroças e no lombo de mulas. E a freira que passou quase vinte anos olhando o relógio na oração acabou caminhando com aquele amigo até o último dia, sobre uns pés que mal conseguiam sustentá-la.

E se a hora que nos parece longa fosse também a hora de um amigo que espera?

Santa Teresa de Jesus, tu que ouviste o relógio na oração e não a abandonaste, ensina-nos a tratar a sós com quem sabemos que nos ama. Tu que voltaste a andar, primeiro engatinhando, acompanha os doentes que hoje não conseguem se levantar. Tu que pediste à Virgem que fosse tua mãe, consola os que choram por seus entes queridos. Alcança-nos a tua confiança, para que nada nos perturbe e nada nos amedronte. E que no fim do caminho possamos esperar contigo a hora de ver o Esposo. Rogai por nós. Amém.

Fontes

Fontes primárias (século XVI)

  • Teresa de Jesus, Livro da Vida (1565), caps. 6-8 e 31-33, edição anotada — mercaba.org
  • Teresa de Jesus, Livro das Fundações (1573-1582) — es.catholic.net
  • Teresa de Jesus, Caminho de Perfeição 1,2 (1566-1567), citado na homilia de Paulo VI — vatican.va
  • Jerônimo Gracián, Escólios (séc. XVI), citado por A. Hevia Ballina — alfayomega.es
  • María de San José, Libro de las recreaciones (séc. XVI), citado por A. Hevia Ballina — alfayomega.es
  • Ana de Jesus, declaração no processo de beatificação (BMC 18, 465), em nota a Vida 31 — mercaba.org
  • Domingo Báñez, declaração no processo (BMC XVIII, 6-7) e censura da Vida (1575) — mercaba.org; teresavila.com
  • frei Pedro Ibáñez, Dictamen (BMC 2, 131), em nota a Vida 32 — mercaba.org
  • María de San José, Memorias Historiales R 141, em nota a Vida 32 — mercaba.org
  • João Batista Rubeo, carta à priora de Medina del Campo (1569, MHCT 2,317), citada por T. Álvarez — teresavila.com

Documentos eclesiásticos e estudos

  • Paulo VI, Homilia na proclamação de Santa Teresa de Jesus como Doutora da Igreja (1970) — vatican.va
  • Bento XVI, Audiência geral: Santa Teresa de Jesus (2011) — vatican.va
  • Tomás Álvarez, «Teresa de Jesús», Diccionario teresiano (2018) — Editorial Monte Carmelo, teresavila.com
  • teresavila.com, «9.- Nada te turbe» — Editorial Monte Carmelo
  • Guillermo Serés, Biografía de Santa Teresa de Jesús — Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes
  • Daniel de Pablo Maroto, «Muerte y resurrección de santa Teresa» (2022) — CIPECAR
  • Eduardo Sanz de Miguel, «La Transverberación de santa Teresa de Jesús» (2021) — padreeduardosanzdemiguel.blogspot.com

Iconografia

  • Agustín Hevia Ballina, «El verdadero retrato» (2015) — Alfa y Omega

Contexto contemporâneo

  • Diocese de Ávila (Auxi Rueda), «El cuerpo de Santa Teresa de Jesús sigue incorrupto casi cinco siglos después de su muerte» (2024) — diocesisdeavila.com
  • misalcatolico.com, Missa de 15 de outubro de 2025 (missal on-line não oficial)

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quinta-feira, 29 de outubro · Evangelho

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