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FIDES VIVA

7 de outubro

Nossa Senhora do Rosário

A Mãe de Jesus invocada em Lepanto, em Pompeia e em Fátima

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Capítulos
  1. 0:00Pedras, Pai-Nossos e uma coroa de rosas
  2. 4:32São Domingos, um cartuxo e um pregador
  3. 7:42Lepanto: os que não podiam combater
  4. 12:42Do nome de uma vitória ao nome de uma oração
  5. 16:01Pompeia: o advogado e o quadro da carroça
  6. 20:35Outubro, o mês da Rainha
  7. 23:05Fátima: o nome prometido para outubro
  8. 26:43O que se salva do fogo
  9. 28:44Olhar para Cristo com os olhos de Maria
  10. 31:42Este outubro

Ao meio-dia, as galeras se enfrentam no golfo de Lepanto.

Nesse mesmo dia, em Roma, os que não podem lutar percorrem as ruas em procissão, rezando o Rosário. É domingo, 7 de outubro de 1571. Por isso, a cada 7 de outubro, a Igreja celebra Nossa Senhora do Rosário.

Roma vai levar duas semanas para saber quem venceu.

Mas aquela oração é muito mais antiga que a batalha. Começou em mãos que contavam suas orações com pedras, e a ela está ligado também o nome de São Domingos. Quem a reza faz algo muito simples: olha para Jesus junto com sua Mãe, de conta em conta.

Em julho de 1917, numa aldeia de Portugal, uma Senhora prometeu a três pastorinhos que em outubro lhes diria quem era.

Como uma oração que se contava com pedras chegou a ter o seu próprio dia?

Pedras, Pai-Nossos e uma coroa de rosas

No deserto do Egito, no século quarto, uma pedra cai sobre a areia. E depois outra. Quem as deixa cair é um eremita chamado Paulo, um homem que se retirou para a solidão a fim de rezar. Ele se propôs a rezar trezentas orações por dia. Para não perder a conta, junta trezentas pedrinhas e deixa cair uma a cada oração que termina. E assim, com umas pedras, a oração começa a ser contada.

Sete séculos depois, na grande abadia de Cluny, na França, a oração dos monges são os salmos, os cento e cinquenta cânticos da Bíblia que a Igreja reza desde os tempos antigos. São cantados no coro, de dia e de noite. Mas na abadia vivem também irmãos conversos, e a maioria não sabe ler. Como vão rezar cento e cinquenta salmos? Quando morre um irmão, eles rezam por ele cinquenta Pai-Nossos no lugar dos salmos. É como um saltério para quem não sabe ler, feito de orações breves, repetidas e contadas.

Maria é venerada desde os primeiros séculos. Mas no século doze o povo começa a lhe repetir, muitas e muitas vezes, as palavras com que o anjo a saudou. Assim, a Ave-Maria entra na conta. Alguns a rezam de joelhos. De santo Alberto se conta que se ajoelha cem vezes por dia, e a cada vez diz uma Ave-Maria.

Na Inglaterra, a regra de algumas mulheres que vivem reclusas numa cela junto a uma igreja lhes propõe cinquenta Ave-Marias, de dez em dez. É a dezena que ainda hoje se reza.

Mas contar tanto tem um perigo, o de rezar depressa só para chegar ao número. Na Idade Média corre a história de Eulália, uma mulher que reza cento e cinquenta Ave-Marias por dia. Um dia, diz a história, a Virgem lhe pede que reze só cinquenta, mas devagar. Já não importa o número, e sim cada saudação.

Para contar, as pedras já não fazem falta. Na Paris do século treze, corporações de ofício inteiras fabricam cordões de contas, que chamam de «pater-nósteres».

Desse mesmo século é uma lenda muito querida, contada por toda a Europa. Um jovem monge reza Ave-Marias. Dos lábios dele, a Virgem colhe botões de rosa, um a um, e tece com eles uma guirlanda para a própria cabeça.

Por causa dessa imagem, a oração se chama rosário, que quer dizer coroa de rosas, como as flores com que os fiéis coroam as imagens de Maria. A oração que começou com pedras na mão de um eremita já leva nome de flores. Séculos mais tarde, cidades inteiras verão coroadas suas imagens de Nossa Senhora do Rosário.

Falta o nome que a tradição vai ligar para sempre a estas contas. Pelos caminhos do sul da França prega então um frade castelhano, Domingos de Gusmão.

São Domingos, um cartuxo e um pregador

Domingos vai de vila em vila falando de Cristo a quem quiser ouvi-lo. Naquelas terras se espalharam os albigenses, um movimento que se afastou da fé da Igreja.

Durante séculos, na festa do Rosário, a Igreja leu esta história, «conforme se transmitiu». Quando os albigenses se enfureciam contra os sacerdotes do Senhor, Domingos ergueu os olhos ao céu, para a Virgem Maria. E recorreu a um modo simples de orar: o Rosário, também chamado de Saltério da Virgem. Ela lhe pediu que o pregasse aos povos, como defesa contra as heresias e os vícios.

O frade o propagou. E os fiéis, com a saudação do anjo nos lábios e inflamados por essas orações, começaram a se transformar em homens novos.

É a cena que tantos quadros pintariam depois: a Virgem pondo o rosário nas mãos de Domingos. Mas as contas continuam sendo só isso, contas. O que vai lhes dar alma nascerá muito depois, na cela silenciosa de um monge.

No começo do século quinze, na cartuxa de Tréveris, na Alemanha, vive um jovem monge chamado Domingos da Prússia. É cartuxo, um monge que passa quase a vida inteira em silêncio, sozinho em sua cela. Seu superior o aconselha a rezar todos os dias cinquenta Ave-Marias. E o jovem tem uma ideia simples, escrever cinquenta frases breves sobre a vida de Jesus, uma para cada Ave-Maria.

Assim, cada Ave-Maria abre uma cena da vida de Jesus, do seu nascimento à sua ressurreição. São os mistérios, que vão sendo contemplados Ave-Maria após Ave-Maria. A conta se transformou em olhar.

Falta pôr tudo em ordem. Uns cinquenta anos depois, um frade dominicano, Alain de la Roche, conhece em Flandres aquelas frases dos cartuxos e se apaixona por elas. Ele as organiza em quinze grupos de dez Ave-Marias, as dezenas, e funda confrarias, grupos de fiéis que rezam juntos e se ajudam. E por onde passa conta a história da Virgem e de São Domingos. Da voz dele, ela passou aos conventos, às confrarias e a toda a Igreja.

Em 1569, em Roma, um papa que na juventude tinha sido frade dominicano deixa essa mesma história escrita numa bula, um documento solene com o selo papal. Assina-a para uma Igreja que ele vê «abalada por heresias» e «aflita por tantas guerras». Chama-se Pio V, e governa uma Roma que olha com medo o avanço da frota otomana.

Lepanto: os que não podiam combater

Diante desse avanço, Pio V tem reunido vários reinos e repúblicas cristãs numa aliança: a Liga Santa. Suas galeras se juntam no Mediterrâneo sob o comando de dom João da Áustria. Antes que zarpem, o Papa lhe envia sua bênção e um conselho que nada tem de estratégia: que deixe para trás os soldados de vida desregrada.

O ancião de hábito branco se prepara do seu jeito: jejua três dias por semana e passa muitas horas por dia em oração. Tem mandado rezar em todas as igrejas de Roma.

Aos romanos, que não podem embarcar numa galera nem empunhar uma arma, ele manda rezar o Rosário. Enquanto a armada da Liga procura a frota otomana, na cidade as contas passam entre os dedos.

No primeiro domingo de outubro, por volta do meio-dia, as duas frotas se encontram perto das ilhas Equínadas, na entrada do golfo de Lepanto. Combatem durante umas três horas. No fim, a Liga vence.

O preço é alto. Calcula-se que a frota cristã perde cerca de sete mil e quinhentos homens e dezessete navios, e que entre vinte mil e trinta mil turcos ficam fora de combate.

Nas galeras otomanas remavam, acorrentados aos bancos, cristãos reduzidos à escravidão. Calcula-se que entre doze e quinze mil deles saem livres de suas correntes naquele dia.

Em Roma, naquele mesmo domingo, as confrarias do Rosário saem em procissão, enquanto longe dali se combate no mar.

Os primeiros biógrafos de Pio V contam que, naquele dia, no fim da batalha, ele está despachando assuntos com seu tesoureiro, Bartolomeo Busotti. De repente, o Papa se levanta. Abre a janela. Olha para o céu por um momento. E se volta para o tesoureiro: «Não é hora de negócios; depressa, deem graças a Deus, porque a nossa frota acaba de vencer os turcos».

Mas nenhum mensageiro confirma o que o Papa disse junto à janela. Roma não sabe de nada. Os dias passam, e no palácio a espera se torna dolorosa.

Seis dias depois da batalha, a única notícia que chega à cidade é que as duas frotas estão perto uma da outra. Nada mais. Quem venceu, quem morreu, se chegou a haver combate: ninguém sabe dizer.

O Papa manda rezar dia e noite em todos os mosteiros de Roma. E é o primeiro a fazê-lo. As noites se sucedem com conventos inteiros em vigília, pedindo por homens que talvez já não estejam vivos.

Na noite de 21 para 22 de outubro, um mensageiro finalmente entra na cidade. Quem o envia é o núncio em Veneza, o representante do Papa junto àquela república. Ele traz a notícia da vitória.

O mensageiro a entrega ao cardeal Rusticucci, que cuida dos assuntos de Estado do Papa. O cardeal não espera o dia amanhecer: manda acordar o Papa.

O ancião escuta. E começa a chorar de alegria. O que lhe vem aos lábios é uma frase do Evangelho.

«Nunc dimittis servum tuum in pace». Agora, Senhor, deixai o vosso servo ir em paz. São as palavras do velho Simeão quando teve o Menino Jesus nos braços.

Pio V se levanta da cama. Ajoelha-se e dá graças a Deus. Depois volta a se deitar, mas já não consegue dormir.

Agora que a cidade sabe, o Papa junta as duas coisas. A batalha foi vencida no primeiro domingo de outubro. Naquele mesmo dia, as confrarias rezavam o Rosário pelas ruas de Roma.

Para Pio V, a vitória tem uma fonte: a Virgem Maria, que o seu povo invocava conta a conta enquanto outros combatiam. Ele manda tocar os sinos. E ordena que todo ano, nesse aniversário, se recorde Nossa Senhora da Vitória.

Assim nasce a festa. A oração dos que não podiam combater já tem o seu próprio dia.

Pio V não chegará a celebrar o primeiro aniversário. Morre na primavera seguinte, e hoje repousa em Santa Maria Maior, a grande basílica da Virgem em Roma. Será o seu sucessor quem mudará o nome daquela festa.

Do nome de uma vitória ao nome de uma oração

Os vencedores não atribuíram a vitória a si mesmos. Em Veneza, sob uma pintura da batalha no Palácio Ducal, o Senado da república mandou escrever: «Não o nosso poder e as nossas armas, nem os nossos comandantes, mas Nossa Senhora do Rosário nos ajudou a vencer».

Em 1573, os dominicanos recorrem a Gregório XIII, o sucessor de Pio V. Ele ordena que o primeiro domingo de outubro seja celebrado como festa do Rosário nas igrejas que têm um altar do Rosário.

A festa de uma vitória já leva o nome de uma oração. Esse nome voltará a soar, séculos depois, num campo de Portugal.

Nessa época, Nossa Senhora do Rosário já atravessou o oceano. No Novo Reino de Granada, a terra que hoje é a Colômbia, o pintor Alonso de Narváez a pintou sobre uma tela de algodão tecida por indígenas. Ao lado da Virgem e do Menino, ele colocou santo André e santo Antônio de Pádua.

A tela vai parar numa capela de Suta, com teto de palha. Mais de dez anos de umidade a deixam apagada.

Anos depois, a tela é levada para Chiquinquirá, mas está tão estragada que a deixam largada num cômodo que antes tinha sido oratório. Vem morar no povoado uma mulher nascida em Sevilha, María Ramos. Ela restaura o velho oratório e pendura a tela no melhor lugar da capela, embora quase não se distinga o que a tela mostra.

Em Chiquinquirá se conta, e a Igreja da Colômbia guarda isso como a sua história, que em 26 de dezembro de 1586 María Ramos sai do oratório. Nesse momento passa por ali uma mulher indígena, Isabel, com o filho. Ela olha para dentro e grita para María:

«Olhe, olhe, Senhora!».

María volta os olhos para a pintura. A imagem está cercada de vivos resplendores. As cores voltaram, com o seu brilho. Não resta um rasgo, não resta um buraco.

Hoje Nossa Senhora do Rosário de Chiquinquirá é a Padroeira da Colômbia, e os dominicanos guardam aquela tela.

A festa continuaria crescendo a cada vitória. Em 1716, o príncipe Eugênio vence outra vez os turcos, na Hungria, perto da fortaleza de Peterwardein. É a manhã da festa de Nossa Senhora das Neves.

Em Roma, Clemente XI vê nessa data a intercessão da Virgem e estende a festa do Rosário a toda a Igreja.

O que começou nas ruas de Roma já se celebra no mundo católico inteiro. Mas um quadro do Rosário ainda terá de viajar na mais pobre das carroças. Na segunda metade do século dezenove, perto das ruínas de Pompeia, vive um advogado que tinha se afastado da fé.

Pompeia: o advogado e o quadro da carroça

Aquele advogado se chama Bartolo Longo. Ele já voltou à Igreja depois de passar pelo espiritismo, a prática de invocar os espíritos. Desde 1872, cuida das terras da condessa De Fusco no vale de Pompeia, onde os camponeses vivem espalhados por sítios e casas de campo.

Ter voltado não lhe trouxe calma. Em 9 de outubro daquele ano, a tempestade da sua alma lhe tortura o coração e o corpo mais do que de costume. Ele sai de casa e caminha sem rumo. Chega ao canto mais desolado do vale, que os camponeses chamam de Arpaja, como se ali morassem as harpias dos mitos antigos.

Não há ninguém.

Ele para de repente. Tem a impressão de ouvir uma voz amiga que lhe sussurra: «Se procuras salvar-te, propaga o Rosário. É promessa de Maria».

Longo ergue a fronte e as mãos para o céu. Grita à Virgem que, se ela de fato prometeu a São Domingos que quem propagar o seu Rosário se salvará, então ele se salvará, «porque não sairei deste vale sem ter propagado o teu Rosário».

Ninguém responde. Ao redor, um silêncio de túmulo. Mas, de repente, vem uma grande calma. Ao longe soa o Angelus, a oração que os sinos anunciam ao meio-dia. Ele cai de joelhos naquele campo vazio para rezá-lo. Ao se levantar, sente uma lágrima no rosto.

A partir desse dia, ele vai de casa em casa pelo vale. Bate à porta dos camponeses e lhes dá terços e medalhas de presente. Como são de metal, aquela gente pobre os acha valiosos e os aceita de bom grado. Mas muitos mal sabem rezar a Ave-Maria.

Com os anos, ele quer lhes dar algo mais. Em novembro de 1875, há no vale uma santa missão popular, alguns dias de pregação para a gente do campo. Longo não quer que ela termine sem deixar para eles um quadro de Nossa Senhora do Rosário, para que se reúnam diante dele todas as tardes para rezar.

Para encontrá-lo, vai a Nápoles. Numa praça, perto do ateliê de um pintor, encontra o dominicano Alberto Radente, o frade que o tinha acompanhado na volta à fé. Entram juntos. Um quadro pequeno de Nossa Senhora do Rosário custa quatrocentos francos. «É caro demais!», diz o frade. Já na rua, ele conta que comprou um quadro velho de um vendedor de objetos usados, por três francos e quarenta, e que anos atrás o deu de presente a uma religiosa, irmã Maria Concetta De Litala.

Longo vai pedir o quadro a ela. Assim que o vê, o coração dele para. A tela está toda roída. Bem em cima da cabeça da Virgem, falta um palmo inteiro de pano.

A freira não o deixa ir embora de mãos vazias: «Leve esta imagem; com certeza ela vai arrancar alguma Ave-Maria».

O quadro mede um metro por um metro e quarenta e não cabe no trem. Angelo Tortora é o carroceiro de Pompeia: esvazia os estábulos das famílias ricas e vende o esterco aos camponeses. Ele aceita a tarefa. Põe o quadro em cima da carga que já leva na carroça. E não quer cobrar nada: para ele, basta ter levado a Virgem.

É assim que Nossa Senhora do Rosário entra no vale de Pompeia. Sobre uma carroça de esterco.

Naquela tarde, na igreja paroquial, os presentes olham a tela, e um sorriso lhes aparece nos lábios diante daquele «mostrengo». O quadro fica num canto, atrás do altar.

Poucos meses depois, uma moça que estava à beira da morte, Clorinda Lucarelli, se cura, e a cura é tomada como sinal de que a obra agrada à Virgem. Em maio, é lançada a pedra fundamental de um templo para aquele quadro esquecido num canto. Sete anos mais tarde, um papa escreve a todos os bispos do mundo.

Outubro, o mês da Rainha

Esse papa é Leão XIII, e o que ele pede à Igreja inteira tem nome de mês: consagra o mês inteiro de outubro de 1883 à Rainha do Santíssimo Rosário.

Para esse mês, ele pede que em cada paróquia se reze o terço, as cinco dezenas, junto com a ladainha, a série de invocações à Virgem, durante a Missa ou diante do Santíssimo exposto no altar. A festa já era da Igreja inteira. Agora a oração também tem o seu mês.

Naquele mesmo outubro, no dia 14, vinte mil peregrinos se reúnem no vale onde Bartolo Longo tinha batido de porta em porta, com terços nas mãos.

Todos olham para a mesma tela. É aquela que, anos antes, chegou na carroça e passou a primeira tarde num canto, atrás do altar. Diante dela, rezam juntos, pela primeira vez, a Súplica à Rainha do Santo Rosário, a oração que brotou do coração de Longo.

Vinte mil vozes terminam com as mesmas palavras: «Ó Rosário bendito de Maria, doce cadeia que nos prende a Deus».

Aquele voto gritado em Arpaja não fica só em palavras. Nos anos seguintes, Longo ergue um orfanato ao lado do santuário. Das prisões, os próprios presos lhe pedem que cuide dos seus filhos, e para eles ele abre outra casa. Para cuidar das órfãs, ele mesmo funda uma congregação de irmãs dominicanas. Em Pompeia, a oração rezada nas contas se torna pão, teto e escola.

Ainda faltava um passo para o dia da festa. Durante séculos, ela tinha sido celebrada no primeiro domingo de outubro, e por isso mudava de data a cada ano. Em 1913, São Pio X a fixa em 7 de outubro, o mesmo dia em que as galeras se chocaram em Lepanto. É o dia que a Igreja guarda hoje em seu calendário como memória de Nossa Senhora do Rosário.

Desde então, o dia não muda mais.

Quatro anos depois, num povoado de Portugal, três pastorinhos ouvem o sino do Angelus e começam a rezar o terço.

Fátima: o nome prometido para outubro

O campo onde eles rezam se chama Cova da Iria, perto de Fátima. Lúcia, Francisco e Jacinta levam o rebanho para lá.

Naquele 13 de maio de 1917, eles veem uma Senhora. Ela traz nas mãos um terço de contas brancas.

É Lúcia quem fala com ela, e é por Lúcia que chegam as suas palavras. Naquele dia, são um pedido: «Rezem o terço todos os dias, para alcançarem a paz para o mundo e o fim da guerra».

Sobre quem ela é, nenhuma palavra.

Em julho, no mesmo lugar, a Senhora repete o pedido. Que continuem rezando o terço todos os dias em honra de Nossa Senhora do Rosário, para obter a paz, «porque só Ela lhes poderá valer». O título já foi dito. Mas ela o diz como quem fala de outra pessoa.

Lúcia lhe pergunta quem ela é.

A resposta fica em suspenso: «Em outubro direi quem sou, o que quero, e farei um milagre que todos hão de ver, para acreditar».

No povoado, nem todos acreditam nas crianças. O pároco duvida do que elas contam. O prefeito do município tenta convencê-las a desistir. E num dia 13, o dia em que deviam voltar, elas não conseguem ir à Cova da Iria: estão presas.

Mas os três continuam voltando. Outubro está cada vez mais perto e, com outubro, a promessa.

O dia 13 de outubro de 1917 é frio e cinzento. Chove sem parar. Na esplanada, entre cinquenta e setenta mil pessoas esperam encharcadas, olhando para três crianças.

Lúcia pergunta à Senhora o que ela quer.

E a Senhora diz, enfim, o nome que tinha prometido em julho: «Quero dizer-te que façam aqui uma capela em minha honra, que sou a Senhora do Rosário, que continuem sempre a rezar o terço todos os dias».

É o nome da festa que nasceu no dia de Lepanto.

O que ela pede depois não fala dela, mas de seu Filho, Jesus. Com um aspecto mais triste, diz: «Não ofendam mais a Nosso Senhor, que já está muito ofendido».

Ela abre as mãos, e a luz delas se reflete no sol. Enquanto se eleva, sua própria luz continua se projetando sobre ele. As crianças veem então, junto ao sol, São José com o Menino Jesus e a Virgem vestida de branco, com manto azul. São José e o Menino parecem abençoar o mundo, com gestos da mão em forma de cruz.

Lá embaixo, a multidão encharcada ergue o rosto para o céu e vê outra coisa. O sol gira. Muda de cor.

Treze anos depois, a Igreja declara dignas de fé aquelas aparições. Francisco e Jacinta hoje são santos. Fátima e o Rosário não falam de duas Virgens diferentes: são dois nomes da mesma Maria.

A Senhora tinha pedido uma capela naquele campo. Longe dali, em Cádis, outra imagem dela tinha a sua casa havia séculos.

O que se salva do fogo

A sua história como Padroeira começa em 1755, quando o terremoto de Lisboa sacode também Cádis. Os moradores da cidade correm assustados até a porta do convento de São Domingos. Pedem aos frades dominicanos que levem em procissão a sua Nossa Senhora do Rosário para conter a força do mar. Nove dias depois, a cidade a proclama sua Padroeira.

Quase dois séculos depois, em 11 de maio de 1931, um grupo de exaltados ateia fogo à igreja e ao convento. Antes de fugir, os frades conseguem salvar o que podem.

Levam o Santíssimo, o pão consagrado da Eucaristia. E, da imagem da Padroeira, duas peças: as mãos da Virgem e o Menino.

O resto da imagem é devorado pelo fogo.

Doze anos depois, um escultor sevilhano que se tornou frade dominicano esculpe para Cádis uma nova imagem da Padroeira. As mãos que seguram o terço são as mesmas que os frades tiraram do fogo. O Menino que ela traz nos braços é o mesmo Menino.

Dezesseis anos depois do incêndio, o cardeal arcebispo de Sevilha coloca a coroa sobre a fronte da Virgem. É uma coroação canônica, feita com a autorização do Papa.

Hoje ela continua em seu nicho, no centro do retábulo-mor de São Domingos, com aquelas mãos e aquele Menino.

A guirlanda de rosas que deu nome à oração é agora uma coroa de verdade sobre a cabeça de Nossa Senhora do Rosário de Cádis.

Como tantas imagens do Rosário, esta Mãe segura o seu Filho. E a oração que se reza diante dela percorre a vida desse Menino.

Olhar para Cristo com os olhos de Maria

Uma mão passa uma conta, e depois outra. Um Pai-Nosso, dez Ave-Marias, e tudo recomeça. Dito assim, parece pouca coisa. Mas cada dezena se detém diante de um mistério da vida de Jesus, e quem reza o contempla ao lado de sua Mãe.

Em Nazaré, uma jovem escuta um anjo e responde que sim. Em Belém, essa mesma jovem envolve o filho recém-nascido e o deita numa manjedoura.

Anos depois, a Mãe está de pé junto à cruz, vendo o Filho morrer. Ao terceiro dia, Jesus ressuscita. E em Jerusalém, no meio dos discípulos em oração, chega o fogo de Pentecostes.

As Ave-Marias correm por baixo, como as batidas de um coração. O olhar, porém, permanece no rosto de Cristo. É o olhar de Maria, que guardava tudo aquilo e o meditava em seu coração. Quem reza o Rosário aprende com ela a olhar assim para o seu Filho: devagar, uma cena depois da outra.

Durante séculos, esses mistérios foram quinze, tantos quantas as dezenas que imitavam os cento e cinquenta salmos: os gozosos, os dolorosos e os gloriosos. Em outubro de 2002, João Paulo II assina uma carta sobre o Rosário e abre com ela um Ano do Rosário para toda a Igreja. Propõe ainda algo novo, que deixa à livre escolha de cada um: cinco mistérios luminosos, tirados da vida pública de Jesus.

No Jordão, Jesus entra na água para ser batizado. Numa festa de casamento em Caná, sua Mãe percebe que o vinho acabou, e ele transforma a água em vinho. Pelos caminhos, anuncia que o Reino de Deus está próximo e chama à conversão. Num monte, seu rosto se transfigura diante de três discípulos. E na Última Ceia ele toma o pão e o entrega como seu Corpo: é a Eucaristia.

No fim da carta, João Paulo II a coloca nas mãos da Virgem. É Nossa Senhora de Pompeia, a do santuário que Bartolo Longo ergueu, aquele advogado do vale desolado.

É o mesmo quadro carcomido que chegou em cima de uma carroça de esterco. Os presentes sorriram ao ver aquele «mostrengo», e ele passou sua primeira tarde esquecido num canto, atrás do altar.

Diante dele se prostra agora, em espírito, um papa.

E o advogado que o confiou a um carroceiro ainda esperava, naquele ano, a última palavra da Igreja.

Este outubro

Bartolo Longo envelheceu junto àquele quadro. Morreu aos oitenta e cinco anos no mesmo vale onde um dia, sozinho e atormentado, tinha prometido aos gritos à Virgem não sair dali sem ter propagado o seu Rosário. O voto estava cumprido.

Leão XIV o declara santo na Praça de São Pedro, em 19 de outubro de 2025.

No ano seguinte, no fim de setembro, o mesmo papa reza o Angelus em Lourdes. Ali a Imaculada apareceu a santa Bernadette com o terço. Desse lugar, Leão XIV pede a todos os fiéis que rezem o Rosário durante todo o mês de outubro, com uma intenção concreta: que cessem as guerras.

Como naquele domingo de Lepanto, a oração volta às mãos de quem não pode deter uma guerra. Neste outubro, a Igreja inteira é convidada a tomar o terço nas mãos pela paz.

A oração que começou com pedras na mão tem o seu dia porque, no domingo de Lepanto, os que não podiam combater a rezaram pelas ruas de Roma. E dá nome à Virgem porque, conta a conta, olha com ela para o rosto do Filho dela.

Virgem Maria, Mãe de Jesus, vós que guardastes no coração cada palavra e cada gesto do vosso Filho: ensinai-nos a olhar convosco para o seu rosto, conta a conta, na alegria e na dor. Vós que acolhestes a oração dos que não sabiam ler, dos que não podiam combater e das crianças debaixo da chuva, recebei também a nossa. Alcançai-nos a paz para o mundo e para os nossos lares, e que esta doce cadeia nos prenda sempre a Deus. Rainha do Santíssimo Rosário, rogai por nós. Amém.

Fontes

Fuentes primarias

  • Pío V, Consueverunt Romani Pontifices (1569) — Papal Encyclicals Online papalencyclicals.net
  • Breviarium Romanum, In festo Sacratissimi Rosarii B. M. V., lecciones IV-VI — Divinum Officium
  • León XIII, Supremi apostolatus officio (1883); Superiore anno (1884); Diuturni temporis (1898) — vatican.va
  • Bartolo Longo, Storia del Santuario di Pompei (1890); History of the Sanctuary of Pompei (1895) — archive.org
  • Santuário de Fátima, Narrativa das aparições (Memórias da Irmã Lúcia; Documentação Crítica de Fátima) — fatima.pt
  • Juan Pablo II, Rosarium Virginis Mariae (2002) — vatican.va
  • Benedicto XVI, Ángelus del 7 de octubre de 2007 — vatican.va

Fuentes hagiográficas y tradición

  • Vatican News, s. Pío V, papa — vaticannews.va
  • Vatican News, Nossa Senhora de Fátima — vaticannews.va
  • Arquidiócesis de Bogotá, Historia de la Renovación del lienzo de Nuestra Señora de Chiquinquirá (2021) — arquibogota.org.co
  • ACI Prensa, Nuestra Señora del Rosario (Guatemala) — aciprensa.com
  • Dominicos Provincia de Hispania, Santuario de la Virgen del Rosario (Cádiz) — dominicoshispania.org
  • Catholic.net, Aprobadas las apariciones de la Virgen en San Nicolás (2016) — es.catholic.net
  • Meridiano.mx, Nuestra Señora del Rosario de Talpa (2023) — meridiano.mx

Documentos eclesiásticos y estudios académicos

  • Ludwig von Pastor, The History of the Popes, vol. XVIII (1929) — Kegan Paul
  • Ludwig von Pastor, Geschichte der Päpste, Bd. XV (1930) — Herder
  • H. Thurston y A. Shipman, «The Rosary»; H. Thurston, «Feast of the Holy Rosary», Catholic Encyclopedia 13 (1912) — New Advent
  • S. Vailhé, «Lepanto», Catholic Encyclopedia 9 (1910); J. Lataste, «Pope St. Pius V», Catholic Encyclopedia 12 (1911) — New Advent
  • Governatorato dello Stato della Città del Vaticano, 7 October: Our Lady of the Rosary — vaticanstate.va
  • Ulderico Parente, «Con Maria in difesa dei bambini in difficoltà», L'Osservatore Romano (2025)
  • Arquivo Nacional (Brasil), Irmandade de Nossa Senhora do Rosário (2021)
  • Armada Española, Presentación e historia del Día de la Virgen del Carmen (2016) — armada.defensa.gob.es

Contexto contemporáneo

  • León XIV, Ángelus en Lourdes, 27 de septiembre de 2026 — vatican.va
  • Pontificio Santuario di Pompei, Bartolo Longo santo! (2025) — santuario.it
  • Aleteia, Pope makes appeal for October «close to my heart» (2026)
  • ACN Ireland, Pope Leo to pray ACN Rosary for peace (2026)

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quinta-feira, 29 de outubro · Evangelho

Jesus segue para Jerusalém e chora sobre a cidade que mata os profetas

Naquele tempo, no mesmo dia, aproximaram-se alguns fariseus e disseram a Jesus: “Sai e vai embora daqui, porque Herodes quer matar-te”. Ele lhes disse: “Ide dizer a essa raposa: Eis que expulso demônios e realizo curas…