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FIDES VIVA

24 de setembro

Nossa Senhora das Mercês

A padroeira dos presos que leva o nome de um resgate de cativos

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Capítulos
  1. 0:00Moeda por moeda
  2. 5:11Uma noite de agosto e os primeiros papéis
  3. 10:09Os que ficaram
  4. 13:53A Mercê
  5. 17:23Pelo mar, durante séculos
  6. 23:13Virgem das Mercês
  7. 27:04Dos cativos aos presos

A Virgem das Mercês é hoje invocada pelos presos. Seu nome nasceu há oito séculos, às margens do Mediterrâneo, de uma obra muito concreta. Fazer mercê era ir de porta em porta pedindo esmola, moeda por moeda, até juntar o preço de uma pessoa cativa do outro lado do mar. E trazê-la de volta para casa.

Os frades que faziam essa obra em nome de Santa Maria ainda se lembram de uma viagem a Túnis. O dinheiro deu para duzentos e nove cativos. Não para todos. Um daqueles frades, Pedro de San Dionisio, ficou.

Ficou com os que não puderam sair, para que não perdessem também a fé.

Muita gente já ouviu contar que a Virgem apareceu certa noite a um mercador de Barcelona. Essa noite, quem a guarda é a memória da Ordem. Ao lado dela ficaram os pergaminhos daqueles mesmos anos, com seus nomes e suas datas.

Como o preço de um cativo acabou se tornando um nome da Mãe de Deus?

Moeda por moeda

No fim do século doze, o Mediterrâneo separa reinos cristãos e muçulmanos que vivem em guerra. Há batalhas. Há razias, ataques rápidos para saquear um litoral e levar gente embora. E há corsários que caem sobre os navios. De cada golpe saem pessoas capturadas, de um lado e do outro: muçulmanos cativos em terras cristãs, cristãos cativos no norte da África.

O cativo é espólio de guerra. É vendido como escravo. É posto no remo de uma galé ou em trabalhos forçados. É trancado numa masmorra. Passa fome.

Para a Igreja, porém, havia um perigo mais profundo que a fome. Longe de casa, um cativo cristão podia renegar: abandonar sua fé por pressão ou por medo.

Havia caminhos para tirá-los de lá. Em Aragão atuavam os exeas, e em Castela os alfaqueques, agentes que negociavam libertações. Desde o último terço do século doze, o habitual para os cativos pobres era a redenção, isto é, pagar um resgate por meio de intermediários. Na França já trabalhava, com um fim parecido, a Ordem da Trindade, nascida com São João da Mata.

Depois da grande vitória cristã de Navas de Tolosa, em 1212, vêm anos de tratados e tréguas que facilitam os resgates. Mas os corsários continuam no mar, e um salvo-conduto, a permissão escrita para viajar sob proteção, pode não valer nada. Na Coroa de Aragão, as campanhas do rei sobre Maiorca e Valência coincidem com o florescimento das obras de caridade nascidas por volta do ano 1200.

Em Barcelona, os cronistas da Mercê situam em 1203 os primeiros passos de um homem chamado Pedro Nolasco. Aprendeu com o pai, Bernardo, o ofício de mercador. Com outros leigos, gente sem hábito nem votos, percorria a Catalunha e Aragão recolhendo esmolas, e todo ano resgatava cativos. Era um comerciante que, em vez de mercadorias, comprava pessoas. Para devolvê-las aos seus.

Em 1301, um rei de Aragão, Jaime II, escreveu ao papa Bonifácio VIII sobre aqueles primeiros companheiros. Disse deles que «tinham grande devoção a Cristo, que nos redimiu com seu precioso sangue». Redimir era a mesma palavra que usavam para o resgate de um cativo. Eles pagavam com moedas a liberdade de um homem. A de todos, segundo a fé que tinham, Cristo a tinha pago com seu sangue.

Pedem esmola com cofrinhos, com caixas de esmola e com sacos. Pedem nas igrejas e nas encruzilhadas. Nas lonjas, onde os mercadores fecham seus negócios. Nos moinhos e nos fornos, por onde acaba passando o povo inteiro com seu grão ou com sua massa. Saem a pedir ajudantes leigos vestidos de branco. E uma confraria, uma irmandade de fiéis, se dedica à esmola dos cativos.

Depois vem a negociação. Negociar um resgate leva de dois a quatro meses. E tem um preço. No século treze, um cativo custa oito, dez ou quinze libras. Um cavalo custa quinze.

Uma pessoa, o preço de um cavalo.

Aquela irmandade de leigos, com seus sacos e seus cofrinhos, chegaria a ser uma Ordem aprovada pelo papa. Os mercedários situam a origem desse passo numa única noite de agosto.

Uma noite de agosto e os primeiros papéis

Àquela altura, Nolasco já somava anos de estradas e de resgates, e o número de cativos não parava de crescer. Buscou na oração um jeito de continuar. A Ordem guardou durante séculos o que aconteceu depois. Na noite de 1º de agosto de 1218, Maria, a Mãe de Cristo, interveio de modo especial na vida dele. Iluminou sua inteligência e moveu sua vontade para transformar aquela irmandade de leigos numa Ordem da Igreja.

No dia seguinte, o mercador se apresentou no palácio real e expôs o projeto. Quem o ouviu foram os conselheiros da corte. O rei, Jaime I, tinha então uns dez anos.

Era assim que os mercedários contavam o próprio nascimento. Em 10 de agosto, diante do altar-mor da catedral de Barcelona, sobre o túmulo de Santa Eulália, o bispo Berenguer de Palou recebe Nolasco e seus companheiros. Ele lhes entrega o hábito branco. Entrega também a Regra de Santo Agostinho, a norma de vida em comum que iam seguir, e a cruz da sua catedral. O rei menino lhes dá o seu brasão de armas, as barras de Aragão, e o Hospital de Santa Eulália. Os primeiros frades professam ali mesmo.

Com uma pergunta a Ordem receberia sempre quem batia à sua porta: «Queres receber o hábito de Santa Maria?». A resposta cabia em duas palavras: «Sim, quero».

Aqueles primeiros frades estavam convencidos de que Maria tinha intervindo na fundação deles. Por isso a chamaram de Mãe e Fundadora.

Os pergaminhos daqueles anos falam de outro jeito, com cargos e com lugares. O primeiro que menciona Nolasco está datado de Perpignan, em 1226, e o chama de «reitor dos pobres». Depois aparece um legado, uma herança que alguém deixa para resgatar cativos. Outro documento o apresenta como coletor e guardião da esmola dos cativos. Em 1232, um nobre de Barcelona compra um pedaço de praia junto ao porto e o dá de presente a ele. Ali, à beira-mar, vai surgir a casa de Santa Eulália. Em 1234, Nolasco já dirige um hospital de cativos.

Em 17 de janeiro de 1235, em Perúgia, o papa Gregório IX assina uma bula, uma carta solene com o seu selo. Ela é dirigida ao Mestre, frei Pedro Nolasco, e aos frades da casa de Santa Eulália de Barcelona. Confirma a Ordem com a Regra de Santo Agostinho. É o primeiro ato de Roma que se conserva com segurança. A irmandade dos cofrinhos já é uma Ordem da Igreja.

Quando Jaime I conquista Valência, em 1238, já é um homem feito. Doa então a Nolasco casas e uma mesquita transformada em igreja. É assim que o rei aparece nos papéis da época: como protetor da obra.

A memória da noite e da catedral demorou a ser escrita. Em 1358, outro rei de Aragão, Pedro IV, conta numa carta ao papa a fundação de 10 de agosto, com o bispo e com Jaime I. Em 1445, um frade da Ordem, Nadal Gaver, escreve a primeira história dos mercedários. Em suas páginas, o relato da aparição fica enfim registrado por escrito.

Pela idade daquele rei, e porque os primeiros pergaminhos trazem a data de 1226, o ano de 1218 fica em dúvida. A memória e os papéis contam o mesmo nascimento com relógios diferentes.

No século dezessete, alguns dominicanos defenderam que o verdadeiro fundador tinha sido São Raimundo de Penaforte, um cônego de Barcelona que em 1218 ainda não era dominicano e que depois serviu ao papa como jurista. Em 1688 ficou pronto, na catedral, o retábulo da capela da Mercê, e nele Nolasco aparece ajoelhado diante do rei e de Raimundo. Em 1920, um frade mercedário publicou uma refutação daquela tese.

A memória e os pergaminhos contam do mesmo modo o trabalho daqueles homens do outro lado do mar. Levavam o dinheiro e pagavam. E, quando o dinheiro não bastava, um deles ficava como garantia.

Os que ficaram

Os cativos já libertados subiam no barco e voltavam para casa mesmo que o resgate ainda não estivesse pago por inteiro. Em terras muçulmanas ficava um frade como garantia, até chegar o dinheiro que faltava. A Ordem lembra essa prática como a novidade de Nolasco. Ao velho costume de pagar resgates, ele e seus frades acrescentaram a própria pessoa.

Em Túnis, em 1247, frei Pedro de San Dionisio não trabalhava sozinho. Tinha chegado com outro redentor, Bernardo de Pradas. Juntos, os dois conseguiram libertar duzentos e nove cativos. Outros ficavam lá dentro, em grave perigo de renegar, e já não havia com que pagar por eles. Bernardo partiu por mar com os libertados. Pedro permaneceu na cidade, ao lado dos que seguiam presos.

A memória da Ordem guardou o desfecho. Ele foi preso. Foi levado a pauladas pelas ruas. Fora das muralhas, foi decapitado.

Na memória da Ordem vive também frei Teobaldo de Narbona, um francês, junto com seu companheiro, Fernando de Portalegre. Em 1253, negociavam resgates no norte da África. Tinham dado sua palavra a dois homens poderosos de uma cidade daquela costa: comprariam os cativos que eles mantinham. Mas o dinheiro foi gasto com outros. Com crianças. Com mulheres. Com religiosos e cavaleiros. Cento e vinte e nove pessoas saíram livres.

Os dois poderosos responderam com uma armadilha. Pagaram uma jovem para acusar Teobaldo de tê-la enganado com uma promessa de casamento. A sentença lhe deixava duas saídas: renegar a fé e se casar com ela, ou morrer na fogueira. Teobaldo morreu queimado e apedrejado. Fernando foi espancado a pauladas e posto à força num barco.

Em 1255, o papa Alexandre IV chama esses frades de «os novos Macabeus no tempo da Graça». Os Macabeus são aqueles irmãos que, na Bíblia, preferiram morrer a trair a sua fé.

De outro redentor, Pedro Armengol, os mercedários contam algo assombroso. Antes de vestir o hábito, tinha sido bandoleiro. Em 1266, ficou como refém em Bugia, um porto do norte da África. O dinheiro não chegou a tempo. Ele foi enforcado.

No dia seguinte, frei Guillermo de Florencia chegou com o resgate. Encontrou-o vivo, «por singular proteção de Maria». Armengol viveu até 1304, com o pescoço torto para sempre.

Em 1º de maio de 1272, a Ordem registra por escrito, em catalão, suas primeiras Constituições, as normas da sua vida. Elas fixam para que a Ordem existe: visitar os cristãos cativos e libertá-los. E pedem a cada frade uma disposição.

Que todos «estejam sempre alegremente dispostos a dar a vida, se for preciso, como Jesus Cristo a deu por nós».

Nessas mesmas páginas, a Ordem recebe também o seu nome oficial. E esse nome começa pela Virgem Maria.

A Mercê

Esse nome não nasceu em nenhum gabinete. Quem o deu foi o povo de Barcelona.

Em 29 de abril de 1249, o bispo da cidade autoriza os frades a erguer uma igreja dentro da sua casa-hospital, naquele pedaço de praia junto ao porto. Eles a dedicam a Santa Maria. Os vizinhos, porém, passam a chamá-la pelo que veem acontecer ali todos os dias.

Naquele tempo, «mercê» significava uma obra concreta de misericórdia: resgatar cativos. Em catalão, a língua das ruas, «fer mercè» queria dizer libertar alguém da escravidão. Por isso o povo chamou aquela igreja, simplesmente, de «a Mercê». E a Virgem do seu altar, de Santa Maria da Mercê.

É a mesma Virgem Maria, a Mãe de Jesus. Nova é só a invocação, o título com que ela é chamada.

Naquele primeiro altar havia uma Virgem sentada com o Menino, esculpida em mármore e pintada em cores.

Em 3 de maio de 1258, o nome que tinha nascido na rua entra num documento de Roma. Uma bula de Alexandre IV, uma carta solene do papa, dá à Ordem pela primeira vez o título de «Bem-aventurada Maria da Mercê». As normas de 1272 deixam o nome fixado: Ordem da Virgem Maria da Mercê da Redenção dos Cativos. As mesmas normas vestem os frades de lã branca. É o hábito de Santa Maria.

Os frades rezavam todos os dias o Ofício de Santa Maria, as orações da Igreja dedicadas a ela. Aos sábados, celebravam a missa da Virgem e cantavam a Salve-Rainha, muito provavelmente desde os tempos de Nolasco.

Em 1295, em Palma de Maiorca, a Virgem da Mercê ganha outra forma: esculpida em pedra, abre o manto e abriga debaixo dele um grupo de pessoas.

Em 13 de setembro de 1361, o prior da Mercê de Barcelona encomenda um retábulo novo, com uma imagem da Virgem que vai substituir a de mármore. É a imagem que Barcelona venera até hoje. É feita de madeira pintada em cores e dourada, e mede um metro e quarenta. A Virgem está sentada, com o Menino sobre os joelhos e o manto fechado com um broche. Tem a cabeça descoberta e o cabelo preso na nuca, porque foi pensada para receber uma coroa de metal. A imagem é atribuída ao escultor Pere Moragues.

Entre os frades de Barcelona, uma lenda terna passou de geração em geração. Contavam que, quando eles pegavam no sono, a Virgem ocupava o lugar deles no coro. Ela mesma rezava as matinas, a oração da madrugada, e abençoava as celas durante a noite.

Eles a chamavam de Comendadora do Coro, aquela que presidia o coro.

Um século antes daquela imagem, no mesmo hospital junto ao mar, uma jovem da rua Montcada tinha pedido o hábito branco.

Pelo mar, durante séculos

Ela se chamava Maria de Cervelló. Em 25 de maio de 1265, fez sua profissão, a promessa de pertencer a Deus para sempre, e foi a primeira religiosa da Mercê. Seu lugar era o Hospital de Santa Eulália, entre pobres, doentes e cativos que voltavam do outro lado do mar. Ali serviu até a morte, em 19 de setembro de 1290.

Seu corpo, incorrupto, repousa até hoje na Basílica de la Mercè. Todo dia 19 de setembro, ele é mostrado aos fiéis.

Do fundador, ao contrário, não restou nem o sepulcro. Em 1767, quando a igreja gótica foi derrubada para dar lugar à nova, reviraram os alicerces à procura dele. Não apareceu.

Os irmãos de hábito deram a Maria de Cervelló o nome de «del Socós», que em catalão quer dizer «do Socorro». Garantiam que ela tinha sido vista, em vida e depois de morta, acudindo as naus da redenção em plena tempestade. Por isso os navegantes a têm como padroeira.

De uma travessia de 1295, na Mercê se contava a história inteira. Os redentores navegam rumo a Argel quando um temporal os apanha de surpresa. Eles se encomendam a Santa Maria del Socós e escapam com vida. Depois chegam os corsários e tomam a nau. A barca pequena, com os frades e o dinheiro do resgate, fica à deriva até ser recolhida por navios genoveses. Em Argel, resgatam noventa e sete cativos. Eles mesmos passam pela prisão. E voltam para Barcelona com todos.

Dentro de casa também houve tempestade. Em 1317, um capítulo, a assembleia que governa a Ordem, se dividiu em dois. Uns queriam à frente um Mestre leigo, como tinha sido Nolasco. Outros queriam um clérigo, um religioso ordenado sacerdote. Em janeiro de 1318, o papa João XXII decidiu: nomeou Mestre-Geral o clérigo Raimundo Albert e deixou os dirigentes leigos à frente de suas casas. Desde então, a Mercê é governada por clérigos.

Nesse mesmo ano, na lembrança dos seus irmãos, frei Claudio de Tonelles põe o pé na estrada. Percorre o Languedoc, o Rossilhão e a Catalunha pedindo esmola. Leva uma bandeira com a Virgem da Mercê entre dois cativos ajoelhados e um lema em latim:

«Haec est porta coeli», esta é a porta do céu. Prega nas praças, e o povo passa a chamá-lo de frei Claudio de Portaceli.

Catorze frades fazem a travessia até Argel. Resgatam trezentos e quarenta e seis cativos. Treze daqueles frades não voltam: ficam para consolar e servir os que continuam presos. Por volta de 1334, todos tinham morrido ali.

A esmola nunca chegava a bastar. Os bens da Ordem pertenciam aos cativos. Em 1424, a comunidade de Barcelona decidiu vender os vasos sagrados e as joias da sacristia. E deixou por escrito o motivo: «porque primeiro é preciso conservar os vasos vivos».

Cada redenção tinha seu rito. Os redentores partiam com uma bandeira de duas faces. Numa estava Cristo crucificado, ou Cristo descendo ao Limbo, o lugar onde os justos esperavam a sua chegada. Na outra, a Virgem cobria os cativos com o seu manto. Eles eram despedidos com uma cerimônia de envio.

A volta era uma festa. Os redimidos tinham o cabelo e a barba cortados, recebiam roupa nova e um pouco de dinheiro para a viagem. Desfilavam em procissão com o escapulário branco da Mercê sobre o peito, e os redentores fechavam o cortejo. Cantava-se o Te Deum, o hino de ação de graças. Depois era celebrada a missa da Virgem da Mercê, com um sermão que contava a redenção do começo ao fim.

Com os séculos, a promessa passou a ser dita em voz alta. A partir das normas de 1588 e de 1692, o frade que professava pronunciava o quarto voto: ficar como garantia, como refém, se a redenção o exigisse.

Em 1577, em Argel, os redentores Jorge del Olivar e Rodrigo de Arce pagam a liberdade de cento e seis cativos. Entre eles está um homem chamado Rodrigo. Pelo irmão dele pedem um preço alto demais, e não conseguem tirá-lo de lá.

Olivar fica um ano como refém. Faz amizade com o irmão que não pôde sair. Juntos, planejam uma fuga, e a fuga fracassa.

Aquele cativo se chamava Miguel de Cervantes. Anos depois, ele lembraria os frades da Mercê em duas peças de teatro sobre o seu cativeiro, «Os banhos de Argel» e «O trato de Argel».

Nessa época, do outro lado do oceano, os frades da Mercê já caminhavam junto com as primeiras fundações da América, e lá o nome da Virgem ia mudar.

Virgem das Mercês

O primeiro vestígio está numa ilha. Em Hispaniola, há muito tempo se conta que, em 1495, depois da primeira batalha de Colombo contra os indígenas, aconteceu o milagre da Cruz e apareceu a Virgem da Mercê. Naquele lugar, o Santo Cerro, ergueu-se uma capela dedicada à Mercê, segundo essa mesma memória, por vontade testamentária de Colombo. Os mercedários a consideram seu primeiro santuário na América. Em 1616, a Virgem da Mercê foi proclamada padroeira de Santo Domingo.

A mudança veio mais ao sul. Por volta de 1536, no Peru, o nome aparece pela primeira vez no plural. Onde antes se dizia a Mercê, começa-se a ouvir as Mercês.

Na boca do povo, a palavra se alarga. As mercês são os favores, as graças que se pedem à Mãe de Cristo. Assim nasce a Virgem das Mercês.

Em 1696, Roma estendeu a festa da Virgem da Mercê a toda a Igreja de rito latino e a fixou em 24 de setembro.

Diante do Pacífico, no norte do Peru, o porto de Paita guarda uma história só sua. São os fiéis que a contam, e seu arcebispo, José Antonio Eguren, já a recordou ao seu povo.

Em 1741, chega o corsário George Anson. Ele saqueia o porto e o incendeia. Tenta cortar a cabeça da imagem da Virgem. Mas a espada fica pesada demais para ele. Só deixa uma ferida no pescoço.

Anson leva a imagem para o seu navio. Cai uma tempestade, e a tripulação a lança ao mar. No dia seguinte, os moradores a encontram na praia. Recolhem a imagem e a levam em procissão até a sua igreja.

A ferida no pescoço continua à vista. Em 1960, a imagem de Paita foi coroada com a aprovação da Igreja.

Em 1812, o general Manuel Belgrano coloca o seu exército sob a proteção da Virgem da Mercê. A batalha de Tucumán acontece em 24 de setembro, o dia da festa dela. Belgrano vence.

Em 5 de outubro, ele envia bandeiras e estandartes à igreja da Mercê de Buenos Aires e organiza um novenário, nove dias seguidos de oração em ação de graças. Em 27 de outubro, ele a nomeia Generala do seu exército. E lhe entrega o seu bastão de comando, a vara que distingue quem comanda as tropas.

As repúblicas que nasciam seguiram o mesmo caminho. Em 1823, o primeiro Congresso do Peru a declarou Padroeira das Armas da República. Quito a adotou como padroeira contra os terremotos em 1851. Em 1861, ela foi declarada padroeira da República do Equador e de suas Forças Armadas, com o 24 de setembro como festa nacional.

Por toda a América, suas imagens foram coroadas. A de Tucumán recebeu a coroa num 24 de setembro, em 1912.

Quando Belgrano entregava o seu bastão, fazia muito tempo que nenhum frade da Mercê atravessava o Mediterrâneo com dinheiro de resgate. A última redenção de cativos da Ordem tinha sido em 1779.

Dos cativos aos presos

Naquela última vez, viajaram dois religiosos franceses, Domingo Pablo de Villa e Claudio de Chevillard. Foram junto com os trinitários, que também resgatavam cativos. Em Túnis, pagaram a liberdade de cinquenta e quatro cativos. Em Argel, a de vinte e quatro. Depois disso, os frades da Mercê já não tiveram a quem resgatar do outro lado do mar.

A obra não terminou com os barcos. Os frades procuraram os que continuavam trancados, e os encontraram bem perto, nas prisões. No México, um provincial da Ordem chamado Burguichani foi prefeito de prisões. Até 1874, ele havia acompanhado mil e dez condenados à morte. Em 1895, as normas da Ordem passaram a incluir por escrito o serviço aos presos.

Em Barcelona, que tinha a Virgem da Mercê como padroeira desde o século dezessete e cuja diocese também a havia declarado padroeira em 1871, a sua imagem continuava na basílica junto ao mar.

Em julho de 1936, nos primeiros dias da Guerra Civil Espanhola, a Basílica de la Mercè pegou fogo. A imagem gótica foi atirada sobre o sacrário, o lugar onde se guarda a Eucaristia, e depois ao chão.

Em 27 de julho, entraram na igreja Teresa Coll e três agentes enviados pelo conselheiro José María España. Disseram que vinham buscar o cofre. Saíram com a Virgem, coberta com um lençol.

Esconderam a imagem na Capitania, o antigo convento dos frades. Mais tarde, ela foi levada para o museu de Montjuïc. O padre Luis Pelegrí, que tinha impulsionado aquele resgate, foi assassinado em 29 de março de 1937.

Na restauração de 2021 e 2022, ao limparem a imagem, apareceu na testa dela o golpe da guerra, preenchido com massa. Continua lá.

Em 27 de abril de 1939, a Virgem da Mercê foi declarada padroeira das prisões na Espanha. Nesse mesmo ano, um mercedário começou a servir como capelão, o sacerdote que atende os presos, no presídio Modelo de Barcelona. Ficou ali vinte anos.

Em 1969, a festa saiu do calendário de toda a Igreja. Em 1986, voltou na Coletânea de Missas de Nossa Senhora, e a Ordem, Barcelona e vários países da América continuam a celebrá-la. Naquele ano, São João Paulo II falou aos mercedários reunidos em capítulo. Disse que aquele título era «um maravilhoso programa de vida que fala de misericórdia, redenção, conversão, perdão».

Em junho de 2026, durante a sua visita à Catalunha, o papa Leão XIV entrou no centro penitenciário de Brians 1 para se encontrar com pessoas privadas de liberdade. Foi recebido pelos capelães e pelos voluntários que as acompanham. Um mercedário, o padre Jesús Bel, dirigiu-lhe palavras de acolhida.

Em 20 de setembro de 2026, a imagem gótica saiu da sua basílica e seguiu em procissão até a catedral de Barcelona, onde o bispo auxiliar David Abadías presidiu a missa.

A cada 24 de setembro, nas prisões da Espanha, celebra-se a Eucaristia da Mercê, a missa em que Cristo se entrega por todos. O papa Bento XV difundiu uma invocação breve à Virgem: «Piedosíssima Mãe da Mercê».

A mercê começou como um pagamento pela liberdade de uma pessoa. Hoje ela se faz com horas de visita, com uma palavra, com uma missa no pátio de uma prisão.

Em cada uma dessas missas, a Mãe da Mercê continua ao lado de quem espera voltar para casa.

Santa Maria da Mercê, Mãe do Redentor: os frades que atravessavam o mar em vosso nome para devolver os cativos às suas casas vos chamaram de Mãe. Olhai hoje para os presos e suas famílias, para os que estão longe dos seus e para todos os que vivem qualquer cativeiro do corpo ou da alma. Alcançai-nos de vosso Filho, que nos redimiu com o seu precioso sangue, a liberdade dos filhos de Deus e um coração disposto a fazer mercê. Mãe da Mercê, rogai por nós. Amém.

Fontes

Fontes hagiográficas e da tradição

  • Instituto Histórico de la Orden de la Merced, La Orden de Santa María de la Merced (1218-1992). Síntesis histórica (1996) mercedaragon.org

Documentos e estudos eclesiásticos e acadêmicos

  • James William Brodman, New perspectives on the creation of the Mercedarian Order (s.f.) — Institut d'Estudis Catalans publicacions.iec.cat
  • Frederick G. Holweck, Feast of Our Lady of Ransom, The Catholic Encyclopedia, vol. 12 (1911) newadvent.org
  • Florencio Roselló, ¿Por qué la Virgen de la Merced es Patrona de las prisiones? (2024) — Conferencia Episcopal Española social.conferenciaepiscopal.es

Iconografia

  • Basílica de la Mare de Déu de la Mercè, La Basílica de la Merced (s.f.) basilicadelamerce.es
  • Arzobispado de Barcelona, La imagen restaurada de la Virgen de la Merced regresa a su basílica (2022) esglesia.barcelona
  • Harumi Suzuki, Esta es la imagen de la Virgen de la Merced que fue atacada por un pirata (2021) — ACI Prensa aciprensa.com

Contexto contemporâneo

  • Mercedarios de Aragón, La Orden de la Merced acompaña al Santo Padre León XIV en su visita a Catalunya (2026) mercedaragon.org
  • Arzobispado de Barcelona, publicación sobre la procesión del 20 de septiembre (2026) esglesia.barcelona

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quarta-feira, 28 de outubro · Evangelho

Depois de uma noite em oração, Jesus escolhe os doze apóstolos

Naquele tempo, Jesus foi à montanha para orar e passou a noite inteira em oração a Deus. Quando amanheceu, chamou os seus discípulos e escolheu doze dentre eles, aos quais deu também o nome de apóstolos: Simão, a quem…