Um religioso italiano, encharcado da cabeça aos pés, chega perto do fogo para se secar. Falta pouco para a meia-noite. Uma porta se abre, e o homem que entra cai de joelhos diante dele. É John Henry Newman. Clérigo anglicano, durante anos ele tinha pregado do púlpito da igreja da Universidade de Oxford. Para chegar àquela sala, deixara esse púlpito, a paróquia que amava e amigos muito queridos. Naquela noite, ele pede para entrar na Igreja Católica.
No dia seguinte foi recebido nela, e é por isso que a Igreja o celebra a cada 9 de outubro como santo e Doutor da Igreja. Ainda hoje se rezam os seus versos «Conduz-me, Luz bondosa», que não pedem para ver o caminho inteiro, porque um só passo basta.
Duas curas que a Igreja examinou e aprovou como milagres estão ligadas ao seu nome. E quando, em 2008, abriram o seu túmulo, não encontraram o que esperavam.
Ele e o seu Criador
No outono de 1816, Newman era um aluno de quinze anos em Ealing, nos arredores de Londres. Era o mais velho dos seis filhos de um banqueiro, e naquele mesmo ano o banco do pai tinha quebrado. No seu país, a Igreja da Inglaterra era a Igreja do Estado. O catolicismo era visto como uma comunhão «muito pouco inglesa», que, segundo se acreditava, sobrevivia graças à astúcia e à intriga. E o próprio rapaz, por causa de um livro que leu naquela época, chegou a acreditar que o papa era o Anticristo. O homem que quase trinta anos depois cairia de joelhos em Littlemore estava então no polo oposto.
Mas naquele outono, em meio à ruína da sua casa, um clérigo conversava com ele e lhe punha livros nas mãos. Pela primeira vez, o rapaz recebeu um credo definido. Foi uma conversão interior, e dela ele estaria sempre mais certo do que de ter mãos e pés. Desde então, descansou no pensamento de dois únicos seres absolutos, luminosamente evidentes. Eram ele mesmo e o seu Criador.
Nessa mesma estação, compreendeu que Deus queria que ele vivesse sem se casar.
No ano seguinte, chegou a Oxford como estudante. Ali, o primeiro nome que ouviu pronunciar com reverência, mais do que com admiração, foi o de John Keble, um jovem clérigo do college de Oriel. Um dia, durante um passeio, um amigo exclamou: «Olha o Keble ali!». E Newman olhou para ele com temor reverente.
Na primavera de 1822, foi a ele que Oriel chamou. Ele estava tocando violino quando chegou o mensageiro. Tinha sido eleito fellow, com um lugar e um sustento no college. «Muito bem», respondeu, e continuou tocando. Assim que o homem saiu, atirou o violino de lado e desceu a escada correndo. Pelo caminho, os lojistas que já sabiam da notícia lhe faziam reverências, e aqueles rostos não lhe saíram da memória em cinquenta anos.
Esperavam por ele na torre do college para apertar a mão do reitor e dos demais fellows. Era a primeira vez que estava numa mesma sala com Keble. Aguentou tudo até que Keble lhe tomou a mão; então se sentiu «tão envergonhado e indigno da honra» que queria que o chão o engolisse. Pela sua eleição, repicaram os sinos de três torres, «e quem teve de pagar fui eu», confidenciou ele à mãe.
Ali, ia encontrar também um companheiro que mudaria o seu jeito de rezar. Seu nome era Hurrell Froude, e sua saúde era tão frágil que acabaria levando os dois rumo ao sul da Europa.
Um trabalho a fazer na Inglaterra
Com os anos, a amizade com Froude se tornou íntima. Newman já era presbítero da Igreja Anglicana e vigário de St Mary's, a igreja da Universidade. Aquele amigo gravou fundo nele o amor à Virgem. Pouco a pouco, também o levou a crer que Cristo está verdadeiramente presente na Eucaristia, sob o pão e o vinho.
Quando a saúde de Froude se abalou de vez, Newman partiu com ele e com o pai de Froude rumo ao sul da Europa, em busca de um clima que o aliviasse. Percorreram Malta, Corfu, Sicília e Roma. Em Roma, conviveram com Nicholas Wiseman, um jovem sacerdote do Colégio Inglês da cidade. Na despedida, Wiseman desejou que eles voltassem. Newman lhe respondeu com grande seriedade: «Temos um trabalho a fazer na Inglaterra».
Depois voltou sozinho à Sicília, e o pressentimento de uma missão foi ficando mais forte. Embrenhou-se no interior da ilha, e em Leonforte caiu doente, com febre. O criado que o acompanhava achou que ele estava morrendo e lhe pediu suas últimas disposições. Newman as deu. Mas repetia: «Não vou morrer, porque não pequei contra a luz, não pequei contra a luz». Nunca chegou a entender de todo o que tinha querido dizer.
Passou quase três semanas de cama em Castro-Giovanni. Na manhã em que finalmente ia deixar a estalagem, a caminho de Palermo, sentou-se na cama e caiu em soluços. Ao criado que tinha cuidado dele, só conseguiu dizer: «Tenho um trabalho a fazer na Inglaterra».
Não morreu na Sicília. O seu túmulo ficaria na Inglaterra, e um dia guardaria a sua própria surpresa.
A caminho de casa, ainda convalescente, compôs uns versos que intitulou «The Pillar of the Cloud», como a coluna de nuvem que guiava Israel pelo deserto. Hoje eles são conhecidos pelo primeiro verso, Lead, Kindly Light, «Conduz-me, Luz bondosa». Datou-os no mar, em 16 de junho de 1833.
O homem que tinha chorado na estalagem não pede para ver o fim do caminho. «Guarda os meus pés», suplica; «não peço para ver a paisagem ao longe: um passo me basta». E o poema se fecha com a manhã, quando voltam a sorrir os rostos de anjos que ele amara há muito e perdera por um tempo.
Em julho, desembarcou finalmente na Inglaterra. E descobriu que seus amigos tinham começado algo sem ele.
A sombra de uma mão na parede
Alguns amigos de Oxford, ao vê-lo, duvidaram que fosse ele e hesitaram antes de lhe dirigir a palavra. Voltava com a alegria da saúde recobrada e do lar reencontrado. Mas trazia também uma pergunta que o angustiava havia tempo. A Inglaterra saía da grande agitação da reforma política, e ele não sabia como impedir que sua Igreja fosse «liberalizada», isto é, rendida às ideias do momento.
Keble, Froude e outros já se correspondiam e uniam seus conselhos. Num domingo de julho, Keble subiu ao púlpito da Universidade e pregou o sermão que seria publicado como «National Apostasy», «Apostasia nacional». Newman guardou para sempre aquele dia como o início do movimento religioso que a história chamaria de Movimento de Oxford.
Nem ele nem Froude tinham reputação a perder: «Froude e eu não éramos ninguém». Um companheiro queria um comitê, com regras e reuniões. Newman não esperou. Começou por conta própria uns folhetos breves, os Tracts for the Times, «Folhetos para o nosso tempo», e foi o seu editor e principal autor. Quando uns amigos de Londres quiseram suprimi-los, ele estava disposto a ceder. Keble e Froude, não. Ficaram zangados com ele por ter consentido e defenderam com força que os folhetos continuassem.
Seis anos depois, aqueles folhetos tinham feito dele a figura de maior destaque do movimento. Havia mais de dois anos que ele deixara de lado a controvérsia com Roma. Em meados de junho de 1839, com as férias de Oxford recém-começadas, mergulhou na história dos monofisitas. Eram cristãos de catorze séculos atrás, separados do resto da Igreja por sua maneira de entender Cristo. E ali, pela primeira vez, surgiu nele uma dúvida sobre a solidez da sua própria Igreja. Naquela disputa antiga, viu refletido o seu próprio tempo: «Vi meu rosto naquele espelho, e eu era um monofisita».
Em setembro, uns amigos lhe puseram nas mãos uma revista com um artigo de Wiseman, que comparava a Igreja dele a outro grupo antigo separado do resto. Newman não viu ali grande coisa. Mas um amigo ainda protestante lhe apontou umas palavras de santo Agostinho citadas no artigo e as repetiu para ele uma e outra vez:
«Securus judicat orbis terrarum», o juízo do mundo inteiro é seguro.
Quando o amigo foi embora, aquelas palavras continuavam soando em seus ouvidos.
Ressoavam-lhe como o «Tolle, lege», «toma e lê», que Agostinho ouviu antes de se converter. O caminho intermediário que ele defendia para a sua Igreja, entre Roma e a Reforma, ficou «pulverizado».
Só contou isso a dois amigos íntimos. Depois se acalmou, e suas antigas convicções continuaram de pé.
Mas ele tinha visto «a sombra de uma mão na parede». E quem viu um fantasma não pode viver como se não o tivesse visto.
O fantasma ia voltar. Dois anos depois, um folheto seu, o Tract 90, poria Oxford inteira contra ele.
Três golpes
No Tract 90, Newman lia em sentido católico os Trinta e Nove Artigos que resumiam a fé da Igreja Anglicana. O folheto saiu em fevereiro de 1841, e veio uma imensa comoção. Os diretores dos colégios de Oxford, reunidos em conselho, chamaram aquela leitura de «evasão».
Newman contou a um amigo que eles tinham acabado de cometer um ato violento. «Não pense que isso vai me doer», acrescentava; «meus ombros saberão carregar a acusação». A Edward Pusey, professor de hebraico e seu amigo havia quase vinte anos, garantiu ainda que, se o bispo desejasse, suprimiria o folheto. E, se exigissem, renunciaria à sua paróquia.
Seu primeiro impulso foi obedecer sem dizer uma palavra. Num domingo, o bispo de Oxford mandou lhe dizer que escrevesse uma carta «imediatamente». Na segunda-feira, ele a redigiu. Na terça, ela estava na gráfica. Na quarta, foi publicada. Na quinta, já estava em Londres. E os Tracts tinham de ser suspensos.
Naquele verão, buscou refúgio em Littlemore, um vilarejo perto de Oxford, longe de toda polêmica. Ali queria traduzir santo Atanásio, o grande defensor da fé em Cristo contra os arianos. Mas, entre julho e novembro, recebeu três golpes que o quebraram.
O primeiro veio dos livros. Mal tinha começado a traduzir, e na história daquela crise antiga «o fantasma voltou pela segunda vez». O segundo veio dos bispos, que, um após o outro, o censuraram em suas cartas pastorais, numa série de julgamentos que ia durar três anos. O terceiro foi um bispado para Jerusalém, preparado pelo arcebispo de Cantuária. Um bispo anglicano ia ser consagrado para governar as comunidades luteranas e calvinistas do Oriente. Aquele golpe destroçou de vez sua fé na Igreja Anglicana. Enviou um protesto solene ao arcebispo e a seu próprio bispo.
Desde então, como anglicano, estava «em seu leito de morte», embora só aos poucos fosse compreender isso.
Naqueles anos, um sacerdote irlandês do seminário de Maynooth, o doutor Russell, foi visitá-lo em Oxford. Não lhe falou de controvérsia. Depois lhe enviou sermões de santo Afonso e livros de devoção romanos, e o deixou em paz. Aquele homem sereno talvez tenha tido mais a ver com a conversão de Newman do que qualquer outra pessoa. Naquelas páginas, Newman descobriu que a Igreja Católica não deixa que nada se interponha entre a alma e seu Criador. Entre o homem e seu Deus, tudo é face a face: «Só Ele cria; só Ele redimiu».
Em abril de 1842, instalou-se em Littlemore com alguns amigos, numa antiga hospedaria de diligências. O estábulo virou biblioteca; o celeiro, celas. Rezavam, estudavam e jejuavam.
Nem ali o deixaram em paz. Um dia, ao entrar em casa, encontrou lá dentro um grupo de estudantes. Diretores de colégios rondavam a cavalo aquelas pobres casinhas, «como patrulhas montadas». «Por que não me deixam morrer em paz?», perguntava-se. Os animais feridos se enfiam num buraco qualquer para morrer, e ninguém os censura por isso.
Um jornal deu como certo que em Littlemore se erguia um «mosteiro anglo-católico», com celas, capela, refeitório e claustros. Seu bispo lhe escreveu. De início não o acusava, mas lhe pedia uma explicação. Newman lhe respondeu por carta. Não havia mosteiro. Não havia capela. Não havia refeitório, apenas uma sala de jantar. «Os “claustros” são o meu telheiro, aquele que une as casinhas.» Fazia pelo menos treze anos que desejava uma vida religiosa mais ordenada. E achava muito cruel que assuntos sagrados, entre ele e sua consciência, virassem conversa pública.
Naquele silêncio vigiado, começou a amadurecer outra resposta, que já não cabia numa carta. Chegava a hora de falar com atos, e esses atos lhe custariam o púlpito de St Mary's.
Falar com atos
O primeiro desses atos foi uma retratação pública das acusações violentas que ele mesmo tinha lançado contra Roma. Saiu da gráfica em fevereiro de 1843, depois de três meses de deliberação. A ideia do papa como Anticristo, que carregava desde os quinze anos, tinha manchado sua imaginação até aquele mesmo ano de 1843.
Naquele verão, um hóspede que já morava havia um ano em sua casa de Littlemore se tornou católico. Tinha prometido a Newman ficar três anos tranquilo na Igreja Anglicana. Newman comunicou o fato a seu bispo. Se o responsabilizassem por aquela promessa quebrada, sentia que não poderia continuar a serviço daquela Igreja.
Foi a Londres renunciar a St Mary's, porque em Oxford não podia fazer isso legalmente. Pediu para ficar com Littlemore. Ali tinha construído uma igreja e uma espécie de casa paroquial; tinha feito dela uma paróquia, e a amava. O pedido não foi atendido. A um amigo, confessou o motivo mais profundo. Acreditava que a Igreja de Roma era a Igreja Católica, e que a sua não fazia parte dela.
Uma semana depois da renúncia, subiu ao púlpito de Littlemore. Era o aniversário da consagração daquela igreja, e foi seu último sermão anglicano. Voltou ao mesmo versículo dos Salmos com que tinha pregado pela primeira vez, dezenove anos antes, o do homem que sai para o seu trabalho e para a sua lida até o entardecer.
Falou de Cristo, que se despediu de seus discípulos numa ceia. Lamentou-se diante de uma «mãe» que dá à luz filhos e não se atreve a reconhecê-los. E, sem dizer o próprio nome, pediu que, se alguém algum dia os tinha ajudado, eles se lembrassem dele no tempo que viria, mesmo sem ouvi-lo mais, e rezassem por ele.
Vieram dois anos de espera. Vivia como simples fiel anglicano, sem exercer o ministério de clérigo nem assistir à missa católica, e fazia isso por princípio, porque nunca tinha conseguido entender «como um homem podia ser de duas religiões ao mesmo tempo».
Um dia, em Littlemore, voltou-lhe às mãos seu primeiro caderno de versos latinos, de quando tinha nove anos. Quando menino, fazia o sinal da cruz ao entrar num lugar escuro, sem saber quem lhe tinha ensinado aquilo. Numa daquelas páginas, tinha desenhado uma cruz e o que parecia um terço. Aquilo lhe tirou o fôlego.
Em Oxford, durante as cerimônias de fim do ano letivo de 1845, Pusey continuava sem querer acreditar que o perderia. «Confio que, no fim, vamos conservá-lo conosco», disse a um amigo.
Em outubro, chegou a Littlemore a notícia de que um sacerdote passionista italiano, o padre Domingos Barberi, ia passar por ali. Newman já sabia o que faria quando o tivesse diante de si.
A noite de Littlemore
Na tarde do dia 8 de outubro de 1845, Newman pegou a pena e escreveu a vários amigos: «Esta noite espero o padre Domingos, o passionista… Quero pedir a ele a admissão no único redil de Cristo». Acrescentava que o padre não sabia nada de sua intenção.
Aquele passionista, desde muito jovem, tinha posto o coração nos países do Norte e na Inglaterra, e tinha esperado quase trinta anos para pisá-la.
Depois, na velha casa de Littlemore, só restava esperar.
Faltava uma hora para a meia-noite quando o padre Domingos chegou à casa. Vinha encharcado até os ossos e parou diante do fogo para se secar.
Então a porta se abriu.
Newman estava a seus pés, de joelhos. Pediu que ele ouvisse sua confissão e o recebesse na Igreja Católica.
Naquela mesma noite, Newman começou sua confissão geral, aquela que repassa diante de Deus os pecados de uma vida inteira. Durou muitas horas.
No pequeno oratório da casa, na tarde seguinte, o padre Domingos o batizou sob condição, caso o batismo de sua infância tivesse sido duvidoso, e o recebeu «no único redil do Redentor». Tinham se passado vinte e nove anos desde aquele outono de Ealing em que ele se descobriu a sós com seu Criador.
Desde então viveu em paz, como quem enfim entra no porto depois de um mar agitado. Continuaria havendo perguntas difíceis, e ele sabia que dez mil dificuldades não fazem uma única dúvida.
Mas aquela paz não o poupou do preço. Wiseman o chamava para junto de si, e ele precisava deixar Littlemore. Em janeiro, confidenciou a um amigo: «Você pode imaginar como estou sozinho». Fazia doze horas que ressoava dentro dele um versículo dos Salmos:
«Obliviscere populum tuum et domum patris tui», esquece o teu povo e a casa de teu pai. Ir embora dali era «como sair para o mar aberto».
Passou o último sábado e o último domingo em sua casa, completamente sozinho, como nos primeiros dias em que tinha morado ali.
Na noite de domingo, já dormiu em Oxford, no Observatório, na casa de um amigo muito querido. Vários amigos subiram para vê-lo pela última vez. Também subiu Pusey, aquele que confiava em não perdê-lo, para se despedir.
Foi ver seu antigo tutor dos tempos de estudante e, nele, despediu-se de Trinity, seu primeiro colégio, que «nunca tinha sido indelicado» com ele. Diante de seu quarto do primeiro ano crescia nos muros a boca-de-leão, uma flor silvestre, e durante anos ele a tinha tomado como sinal de que viveria em sua Universidade até a morte.
Na manhã de segunda-feira, 23 de fevereiro, saiu do Observatório. Durante trinta e dois anos, de Oxford só veria as torres pontiagudas, ao longe, tal como se veem do trem.
Wiseman, o mesmo que tinha se despedido dele em Roma treze anos antes, agora o enviava a Roma, para descobrir que tipo de sacerdote católico ele seria.
Companheiros de muito bom humor
Em Roma, Newman pensou e repensou aquela pergunta. Pesou vários caminhos e por fim escolheu uma família de sacerdotes, a de são Filipe Néri, o Oratório. E a escolheu pensando na Inglaterra. Numa carta em latim, expôs seu plano, e nela falava das grandes cidades inglesas e de Birmingham.
A resposta chegou no fim de fevereiro do ano seguinte. Pio IX estava encantado, e não se limitou a aprovar o plano. Propôs que viessem a Roma todos os que pudessem. Ele lhes arranjaria casa, fariam juntos o noviciado e voltariam juntos para a Inglaterra. A cada pedido, o papa respondia em italiano: «Siano tranquilli», fiquem tranquilos, «farei tudo».
Para aquela vida em comum, eram necessários companheiros, e Newman sabia quais queria. Homens de muito bom humor, porque, sem ânimo, um Oratório seria «como cerveja engarrafada sem rolha».
E era preciso uma casa. Foi o próprio papa quem a escolheu, Santa Croce in Gerusalemme, «un bel sito», um lugar bonito. Newman gostava daquele nome. Ali, diz a tradição, santa Helena levou a Cruz e terra do Calvário.
Se a Igreja tinha um centro, eles iam morar nele, sobre terra de Jerusalém no meio de Roma. Eram sete, e ali começaram juntos o noviciado.
Antes de voltar, eles tinham de ser sacerdotes. Na capela particular de um cardeal, com os companheiros como testemunhas, Newman e seu amigo Ambrose St John receberam em poucos dias o subdiaconato e o diaconato. No fim de maio, receberam juntos o sacerdócio.
Duas semanas depois, Newman celebrou missa no quarto de são Filipe Néri, na Chiesa Nuova, o quarto do santo cuja família tinha escolhido. Já sabia que tipo de sacerdote ia ser. De volta à Inglaterra, o Oratório lançou raízes em Birmingham, para onde Wiseman o destinou.
Faltava o trabalho que tinha pressentido na Sicília, e ele o encontrou em Bilston, uma cidadezinha inglesa. Em setembro de 1849, o cólera irrompeu ali. O padre do lugar não dava conta. Carregava nas costas até o hospital os que caíam fulminados.
Newman foi com Ambrose St John e um irmão do Oratório para lhe dar uma mão. A epidemia cessou quase assim que eles chegaram. Mas por muito tempo ficou na memória aquela prontidão em ir ao encontro da peste por um pároco que não tinha direito algum sobre eles.
Logo o procuraram também fora da Inglaterra. Os bispos da Irlanda queriam uma universidade católica em Dublin, e em 1854 foi a ele que chamaram como reitor. Quis para ela uma igreja que fosse «um grande celeiro decorado no estilo de uma basílica, com mármores irlandeses». Na abside dourada da igreja, preside a Virgem, Sede da Sabedoria.
Quatro anos depois, deixou a reitoria e voltou para a sua casa do Oratório de Birmingham, em Edgbaston. Ali, em 1859, dois bispos lhe pediram um favor. Aquele favor faria com que, em Roma, alguém chegasse a considerá-lo um homem perigoso.
O homem mais perigoso da Inglaterra
O favor tinha a ver com uma revista católica, The Rambler. Para evitar um escândalo em torno dela, o cardeal Wiseman e William Ullathorne, bispo de Birmingham, pediram a Newman que a dirigisse.
Newman aceitou. Em maio, escreveu em suas páginas que, em questões práticas, também era possível ouvir os leigos, assim como eles tinham sido consultados antes de se proclamar que a Virgem foi concebida sem pecado, a Imaculada Conceição. Um professor suspeitou de heresia. Ullathorne conversou com Newman, pediu que ele deixasse a revista e lhe perguntou algo como: «Quem são os leigos?».
Newman obedeceu na mesma hora. Nunca tinha resistido, nem podia resistir, «à voz de um superior legítimo».
Mas o artigo chegou a Roma por outro caminho. Um bispo inglês o denunciou, com uma tradução latina malfeita, ao órgão romano que na época supervisionava a Igreja na Inglaterra como terra de missão. Aquele órgão tinha autoridade sobre Newman. As objeções que ali se levantaram nunca chegaram às mãos de Newman. Sem resposta dele, o cardeal que presidia aquele órgão o julgou desobediente.
Da corte papal, um prelado inglês, monsenhor George Talbot, escreveu para a Inglaterra que uma nuvem pairava sobre Newman, e o chamou de «o homem mais perigoso da Inglaterra».
Naqueles anos, Newman confidenciou a um amigo que talvez fosse vontade de Deus que a sua obra se realizasse cem anos depois.
Em janeiro de 1864, a acusação veio em voz alta, e de fora. Charles Kingsley, clérigo anglicano, escreveu numa revista que a verdade, por si mesma, nunca tinha sido uma virtude do clero romano, e que «o padre Newman» ensinava isso. Newman protestou. Kingsley chegou a responder que duvidaria de cada palavra dele, com medo de ser vítima de «algum equívoco astuto».
Newman chamou aquilo de «envenenar os poços», porque, se isso fosse aceito, ninguém mais poderia beber de nada do que ele dissesse.
Em meia hora, viu o que fazer. Contaria a história inteira de sua mente, desde o menino que fazia o sinal da cruz ao entrar no escuro e o doente que soluçava numa estalagem da Sicília até o homem de joelhos em Littlemore. «Vencerei», disse, «não o meu acusador, mas os meus juízes».
Assim nasceu a Apologia pro vita sua, a defesa de sua vida. A suspeita de duplicidade não sobreviveu à sua leitura.
Naquele verão, monsenhor Talbot passou por Edgbaston para vê-lo, e depois lhe escreveu. Convidava-o a pregar a Quaresma em sua igreja de Roma, diante de um público protestante mais culto que o da Inglaterra.
Newman respondeu: «Contudo, o povo de Birmingham tem alma; e não tenho nem gosto nem talento para o trabalho que o senhor me propõe».
Três anos depois, Ambrose St John, seu companheiro de ordenação e do cólera de Bilston, foi a Roma e esclareceu que Newman nunca tinha recebido as objeções. Pio IX pediu ao arcebispo de Dublin um relatório sobre o próprio Newman, e o relatório foi muito favorável. A nuvem tinha se desfeito.
Ainda estava por vir um chamado de Oxford.
Teria vivido tantos anos para isto?
Voltou a Oxford no fim de fevereiro, aos setenta e sete anos. Tinham se passado exatamente trinta e dois anos desde a manhã em que partira. O Trinity, o colégio da boca-de-leão nos muros, o tinha eleito seu primeiro membro honorário. Desta vez, a cidade deixou de ser umas agulhas de torres vistas de longe, da janela de um trem.
No inverno seguinte, num sábado de fevereiro, em sua casa de Birmingham, um padre do Oratório lhe levou uma proposta em segredo. Newman e Ullathorne estavam doentes, e aquele padre ia e vinha entre os dois. O novo papa, Leão XIII, queria fazê-lo cardeal. Ullathorne, o mesmo bispo que lhe pedira para deixar The Rambler, tinha sugerido o seu nome.
No dia seguinte, Newman já tinha respondido. Fez isso com gratidão, e com modestas objeções contra si mesmo. Daquela carta humilde nasceu um boato, e em meados do mês The Times publicou em Londres que Newman tinha recusado a púrpura.
Não tinha recusado. Quis, além disso, receber o barrete vermelho dos cardeais das mãos do próprio papa, e não na Inglaterra.
Em Roma houve uma ressalva. Alguém objetou que ele nunca tinha ocupado nenhum dos cargos de onde costumam sair os cardeais. O papa respondeu que ele mesmo abriria esse precedente. Newman seria cardeal sem nunca ter sido bispo.
Pouco depois de sua eleição, Leão XIII tinha dito ao comendador De Rossi que esperasse para ver o seu primeiro cardeal, porque nele se veria o que seria o seu pontificado. De Rossi contou isso aos que acompanhavam Newman em Roma.
Por volta das onze da manhã, os salões do Palazzo della Pigna estavam cheios de católicos ingleses e americanos. Era 12 de maio de 1879. Chegou o mensageiro com a notificação oficial, lacrada, que o criava cardeal-diácono de San Giorgio al Velabro, uma antiga igreja de Roma. Newman rompeu o lacre e a entregou ao bispo Clifford, que a leu.
Então foi a vez dele falar. Começou em italiano e passou para «minha querida língua materna». Ficou de pé o tempo todo, e sua voz soou forte e clara.
«Foi uma grande surpresa», disse. Tinha passado por muitas provações, mas elas tinham chegado ao fim. E, diante de todos, fez a si mesmo uma pergunta: «Seria possível que eu tivesse vivido tantos anos para isto?».
Depois, o cardeal voltou para os seus aposentos em Birmingham. Dez anos mais tarde, ainda sairia de carruagem no meio da neve, porque alguém precisava do seu conselho.
O lenço de seda
Numa grande fábrica de Birmingham, todas as operárias eram moças. Os donos, quacres, reuniam todos os dias o pessoal inteiro para ler a Bíblia e comentá-la. O padre católico do lugar tinha proibido as católicas de participar, e os donos quiseram saber o que o cardeal pensava.
Era novembro de 1889, e a neve cobria as ruas. Ele tinha oitenta e oito anos. Não quis nem ouvir falar em deixar para outro dia. Tomou a carruagem e foi vê-los. Já de volta à carruagem, disse: «Se ainda posso fazer um trabalho assim, estou feliz e contente de continuar vivendo». Poucos dias depois, a fábrica reservou uma sala para que as católicas rezassem por conta própria.
No dia de Natal, celebrou sua última missa. A vista já lhe falhava, e também as forças. Tinha medo de perder o equilíbrio ao tomar o cálice com o Sangue de Cristo, e a reverência proibia um risco desses. Por isso deixou de celebrar.
Mas não deixou de se preparar. Decorou uma missa da Virgem e outra de defuntos, e todos os dias repetia uma ou outra, com todas as suas cerimônias. Esperava que a luz mais clara da primavera lhe permitisse voltar ao altar. Essa ocasião nunca chegou.
Quando já não conseguia rezar o breviário, a oração diária do sacerdote, disse que o terço compensava isso de sobra. No fim, teve de deixá-lo também, porque tinha perdido a sensibilidade nas pontas dos dedos.
Muitos anos antes, quando parecia posto de lado e era muito pobre, alguém tinha deixado à sua porta um lenço de seda. Era uma pessoa pobre e desconhecida, e o lenço vinha com uma mensagem de respeito. Ele o guardou por mais de trinta anos.
Em agosto de 1890, quando se deitou à espera da morte, pediu que lhe trouxessem o lenço e o colocou. Os médicos diziam que ele podia muito bem passar sem o lenço. Recebeu os últimos sacramentos.
Na noite de 11 de agosto, às quinze para as nove, morreu em seu quarto do Oratório, ainda com o lenço daquele pobre.
Oito dias depois, ele foi levado ao pequeno cemitério do Oratório em Rednal, nas colinas perto de Birmingham. Milhares de pessoas se enfileiraram nas ruas à passagem do corpo. Foi sepultado, como tinha pedido, no túmulo do seu amigo Ambrose St John, o companheiro de Roma e de Bilston.
Sobre o pano que cobria o caixão ia o seu lema de cardeal:
«Cor ad cor loquitur», o coração fala ao coração. Para o túmulo, tinha escolhido outras palavras:
«Ex umbris et imaginibus in veritatem», das sombras e das imagens à verdade. O homem que, num verão, tinha visto a sombra de uma mão na parede pedia, sobre o próprio túmulo, a verdade inteira.
Por mais de um século, o cemitério de Rednal guardou silêncio. Em 2008, a Igreja abriu aquele túmulo.
Das sombras à verdade
Na encosta de Rednal, em 2 de outubro, festa dos Santos Anjos da Guarda, os que cavavam esperavam encontrar um caixão revestido de chumbo. Era de madeira, e aquela terra era muito úmida.
Apareceu a placa de latão com o seu nome e o seu título de cardeal. Apareceram restos de latão, de madeira e de tecido. Do corpo, quase nada restava. O Oratório sempre tinha guardado algumas mechas do seu cabelo.
O sacerdote que conduzia a sua causa lembrou então uns versos de Newman, de «O Sonho de Gerôncio», em que a alma que deixa o corpo sente uma leveza que não se pode exprimir. E viu naquela terra um sentido providencial. Em novembro, aquelas mechas e o que se encontrou no túmulo foram levados para a igreja do Oratório de Birmingham.
Antes e depois daquele túmulo aberto, houve quem invocasse Newman. Jack Sullivan, um homem de Massachusetts, estava quase paralisado por uma grave doença da medula. Pediu a intercessão de Newman e, segundo o seu testemunho, recuperou-se de repente e por completo. Pouco depois, foi ordenado diácono permanente.
A Igreja examinou aquela cura e a aprovou como o milagre da sua beatificação. Quando Bento XVI declarou Newman beato em Birmingham, perto das ruas onde a multidão tinha se despedido do seu corpo, foi aquele diácono quem proclamou o Evangelho.
Anos depois, em Chicago, uma mãe grávida, Melissa Villalobos, perdia sangue sozinha em casa, sem forças para pedir ajuda. Ela disse: «Cardeal Newman, me ajude». A hemorragia parou naquele instante. Naquela tarde, os médicos viram que a ruptura que a fazia sangrar tinha desaparecido, e a sua filha nasceu saudável.
Os médicos consultados pela Igreja julgaram aquela cura instantânea, perfeita e duradoura, e a Igreja a aprovou como o milagre da sua canonização.
Quando o papa Francisco o proclamou santo na Praça de São Pedro, aquela menina de Chicago estava lá, com cinco anos.
Em 2025, Leão XIV o proclamou Doutor da Igreja, mestre cujo ensinamento a Igreja propõe a todos, e copadroeiro da educação ao lado de santo Tomás de Aquino. O que, nos seus anos de suspeita, ele tinha deixado nas mãos de Deus para cem anos depois já havia pesado no Concílio Vaticano Segundo. Ali se notou a sua marca, na escuta dos leigos, numa doutrina que cresce sem deixar de ser a mesma e na consciência como eco da voz de Deus. A sua memória, a de são João Henrique Newman, foi fixada para toda a Igreja em 9 de outubro, o dia daquela tarde em Littlemore.
No pequeno oratório onde ele foi recebido, ainda se celebra a missa. Ali, onde um homem cansado entrou enfim no único redil de Cristo, a Igreja pede agora com ele para ser levada das sombras e das imagens à plenitude da verdade. E escuta as palavras de sempre: «Deus me criou para lhe prestar algum serviço determinado».
A luz que ele pediu para um só passo continua iluminando o caminho de quem reza com ele.
São John Henry Newman, presbítero e Doutor da Igreja, que seguistes a luz bondosa um passo de cada vez, que deixastes tudo pela verdade naquela noite de Littlemore e servistes com paciência o povo de Birmingham, alcançai-nos uma consciência honesta, coragem para dar o passo que Deus nos mostra e fidelidade no serviço que Ele nos confiou, até que, das sombras e das imagens, cheguemos à verdade. Rogai por nós. Amém.





