A carta de libertação chegou às minas da Sardenha com uma lista de cristãos condenados, e nela faltava o nome de Calisto. Os outros foram saindo, um depois do outro. Ele se pôs de joelhos e, chorando, suplicou que também o soltassem. O ancião que tinha trazido a carta falou por ele, e o governador cedeu.
Essa cena foi guardada por Hipólito, o homem que mais combateu Calisto. Aquele condenado das minas chegaria a ser bispo de Roma, e o mesmo Hipólito o acusou então de receber de novo os pecadores arrependidos e aqueles que outros tinham expulsado. O homem que implorou para não ficar de fora de uma lista carregou, como bispo, a acusação de não deixar ninguém de fora.
O dinheiro das viúvas
Do jeito que Hipólito conta, a queda começou com dinheiro alheio, na Roma do imperador Cômodo, no final do século segundo. O que estava em jogo eram as economias de gente simples.
Calisto era escravo de Carpóforo, um cristão da casa do imperador. O dono lhe confiou uma soma considerável «por ser da fé» e o encarregou de fazê-la render abrindo um banco.
O banco foi aberto na Piscina Publica, uma região do sul da cidade. Para lá foram viúvas e irmãos, como os cristãos se chamavam entre si. Confiaram seus depósitos a Calisto, certos de que os colocavam nas mãos de Carpóforo.
Calisto perdeu tudo. Alguém avisou o dono, e Carpóforo exigiu que ele prestasse contas.
A resposta foi uma fuga para o mar. Em Porto, o porto de Roma, Calisto embarcou num navio prestes a partir. Carpóforo foi atrás dele. O navio continuava ancorado no meio do porto, e o barqueiro demorava a se mexer. Do convés, o escravo viu o dono chegar ao cais. Então se jogou na água.
Os marinheiros desceram aos botes e remaram até ele, enquanto em terra o povo gritava. Tiraram-no do mar, encharcado. Carpóforo o levou de volta a Roma e o trancou no moinho de castigo. Ali se mandavam os escravos para empurrar a roda de pedra que moía o grão.
A porta do moinho se abriu pela insistência de alguns irmãos. Foram falar com Carpóforo e pediram que deixasse Calisto sair, porque ele dizia que algumas pessoas lhe deviam dinheiro. Muitos dos que falavam por ele choravam pelos depósitos que tinham perdido. Carpóforo cedeu.
As primeiras mãos que se estenderam para o escravo caído foram as daqueles que tinham perdido seu dinheiro naquele banco.
Ele saiu sem nada com que pagar. Num sábado, entrou numa sinagoga de Roma, dizendo que ia ver quem tinha o seu dinheiro. Os judeus da cidade tinham o direito reconhecido de ler suas leis em público, e estavam reunidos para isso. Estourou um tumulto e, segundo conta Hipólito, ele saiu de lá espancado.
Levaram-no à presença de Fusciano, o prefeito de Roma. Os judeus o acusaram de tê-los impedido de ler suas leis «dizendo que é cristão».
Carpóforo compareceu ao tribunal e falou ao prefeito. «Eu lhe peço, senhor Fusciano, não acredite nele, porque ele não é cristão, mas procura uma ocasião de morrer.»
Os acusadores insistiram. Fusciano mandou açoitá-lo e o condenou a uma mina da Sardenha. Eram anos de uma perseguição que ia e vinha, e naquela mina havia outros cristãos condenados. O dono tinha negado que Calisto fosse cristão, e mesmo assim ele foi parar junto deles.
Hipólito chama aquela condenação, com zombaria, de «martírio» de Calisto. Mas quem sofre assim pelo nome de Cristo e sobrevive tem na Igreja outro nome, confessor da fé.
Açoitado e condenado, Calisto partiu para a ilha das minas.
Longe das minas, uma mulher muito próxima de Cômodo estava prestes a pedir a lista daqueles condenados.
A lista da Sardenha
Aquela mulher era Márcia, que compartilhava a vida do imperador e, segundo Hipólito, amava a Deus. Queria fazer uma boa obra, e escolheu a libertação dos cristãos condenados na Sardenha.
Para isso, precisava dos nomes deles. Pediu-os ao bispo de Roma, Vítor. Com a lista na mão, Márcia obteve de Cômodo uma carta que libertava todos os que estavam nela.
Na lista de Vítor estavam os irmãos que trabalhavam nas minas da ilha. Faltava um. O nome de Calisto tinha ficado de fora.
Jacinto, já idoso, atravessou o mar com a carta e a entregou ao governador da ilha, que libertou todos os que estavam na lista.
Os que partiam livres, Hipólito chama, sim, de mártires, como os cristãos chamavam as testemunhas de Cristo. Desta vez ele diz isso sem nenhuma ironia.
Calisto continuava na mina. Voltou-se para Jacinto, o ancião que tinha trazido a carta. Caiu de joelhos diante dele e, entre lágrimas, implorou que o deixassem ir também.
Jacinto se deixou vencer pelas súplicas de Calisto. Foi até o governador e pediu a libertação daquele homem que a carta não mencionava, garantindo-lhe que Márcia tinha dado permissão. O governador cedeu. Calisto saiu das minas atrás dos outros.
Primeiro tinham sido os irmãos que choraram por ele diante de Carpóforo. Agora era um ancião que intercedia por quem não estava na lista.
Restava Roma. A volta de Calisto pesou para Vítor. Nas palavras de Hipólito, o bispo «ficou muito triste com o que tinha acontecido, mas, como era um homem compassivo, não tomou nenhuma medida».
Mas também não o abandonou à própria sorte. Mandou-o morar em Anzio, no litoral, longe da cidade, e lhe deu uma pensão mensal para se sustentar.
Assim, daquela vez, a misericórdia teve a forma de uma pensão a cada mês e de um lugar junto ao mar. Calisto viveu em Anzio enquanto Vítor governou os irmãos da cidade.
Quando Vítor morreu, Roma ganhou um novo bispo, Zeferino. E Zeferino mandou buscar o homem de Anzio.
O cemitério de todos os irmãos
Do que mudou nele entre a mina e Anzio, as fontes não dizem nada. O que elas contam é o que ele fez depois. O homem do litoral não voltou a Roma para ficar à margem. Zeferino o tomou como colaborador no cuidado do clero, ou seja, dos que serviam os irmãos em nome do bispo. Depois lhe deu mais uma tarefa. O cemitério da comunidade ficou nas mãos dele.
Até então, a Igreja o tinha sustentado de longe. Agora, o cuidado do cemitério da Igreja de Roma era confiado àquele que tinha perdido as economias das viúvas.
A Igreja se lembra dele, nesses anos, como diácono, um dos ministros que ajudavam o bispo no serviço da comunidade. Era o homem que tinha voltado de um longo exílio na Sardenha.
Calisto desceu ao cemitério da Via Ápia. Sob os campos havia galerias escavadas no tufo, uma pedra vulcânica macia que se deixa cortar. Nas paredes se enfileiravam os nichos, um em cima do outro, fechados com lápides. A única luz era a de uma lamparina de barro, acesa com óleo.
Aquele cemitério não pertencia a uma família nem a uma corporação. Era de toda a comunidade e estava aberto a todos os irmãos. O homem que tinha empurrado a mó do moinho e descido à mina trabalhava outra vez debaixo da terra, agora pelos mortos da sua Igreja.
Os irmãos que deixavam ali os seus mortos esperavam a ressurreição que Cristo tinha prometido. Cuidar daqueles túmulos era essa mesma fé transformada em trabalho de cada dia. É a mesma esperança com que ainda hoje se reza diante do túmulo de alguém querido.
Ao longo das galerias foram abertas umas câmaras pintadas nas primeiras décadas do século terceiro. São chamadas de cubículos dos Sacramentos e guardam algumas das pinturas mais antigas das catacumbas. Com o tempo, na cripta desse mesmo cemitério seriam sepultados quase todos os bispos de Roma daquele século.
O lugar leva ainda hoje o nome dele, catacumba de São Calisto, porque ele a guardou para todos. Aquele escravo chegaria a ser papa, e por isso hoje tanta gente o conhece como o papa das catacumbas.
Todo 14 de outubro, a oração da Missa se dirige a Deus, que chamou o papa São Calisto para servir à Igreja e promover a piedade pelos fiéis defuntos. E pede que o testemunho da fé de Calisto nos fortaleça.
Zeferino morreu, e os irmãos de Roma elegeram Calisto para sucedê-lo como bispo de Roma. Entre os presbíteros, os sacerdotes que formavam o conselho do bispo, houve um que se recusou a reconhecê-lo.
Um só Deus
Aquele presbítero era Hipólito, um teólogo que escrevia em grego. Por volta do ano 217, quando Calisto assumiu o governo da Igreja de Roma, Hipólito rompeu com ela imediatamente.
Um pequeno grupo o elegeu bispo, em oposição ao bispo de Roma. A Igreja chama de antipapa quem ocupa esse lugar, um bispo erguido por poucos contra o bispo legítimo. Para Hipólito, a maioria dos cristãos da cidade formava agora «a escola de Calisto».
A mão que tinha guardado a súplica de Calisto de joelhos era a mão do seu rival. Dois homens que tinham servido à mesma Igreja já não compartilhavam a mesa do Senhor.
A ruptura vinha de antes. Já nos anos de Zeferino, quando Calisto era seu diácono, em Roma se discutia sobre o próprio Deus. Se Deus é um só, quem é Jesus Cristo diante do Pai? Alguns, para defender que Deus é um só, apagavam a diferença entre o Pai e o Filho, como se fossem dois nomes para um só.
Um dos que ensinavam assim era Sabélio. Já bispo, Calisto o excomungou, isto é, o afastou da comunhão da Igreja.
Hipólito estava no extremo oposto. Distinguia o Filho do Pai com tanta força que Calisto o acusou, a ele e aos seus, de crer em dois deuses. As palavras com que o bispo de Roma se defendeu chegaram por um caminho inesperado. Quem as guardou foi o próprio rival, que as citava para acusá-lo. Foram estas as palavras de Calisto.
«Não professarei crer em dois deuses, Pai e Filho, mas em um só.»
Hipólito não aceitou essa resposta. Acusou Calisto de misturar a doutrina de Sabélio com outros erros, de dizer com outras palavras o mesmo que tinha condenado.
Os fatos desenham outra figura. O bispo tinha afastado da comunhão aquele que confundia o Pai com o Filho. E tinha rejeitado também aquele que parecia separá-los a ponto de fazer deles dois deuses. Entre os dois extremos, tudo indica que ele se manteve na fé da Igreja, que adora um só Deus e confessa Jesus Cristo como o Filho do Pai.
Aquela disputa dividiu uma comunidade que sepultava os seus mortos nas mesmas galerias. As palavras pesavam porque delas dependia a quem se rezava.
No entanto, a acusação mais dura de Hipólito não tratava de Deus. Tratava dos pecadores, e da porta pela qual Calisto os deixava voltar.
A arca
Hipólito anotou cada uma das suas críticas. A primeira dizia respeito aos penitentes, os cristãos que, depois de um pecado grave, cumpriam o tempo de penitência que a Igreja pedia antes de readmiti-los. Calisto os recebia de novo na comunhão. Eles voltavam à mesa do Senhor, junto dos seus irmãos.
Recebia também os que outros grupos tinham expulsado das suas assembleias, e o bispo de Roma não lhes fechava a porta.
As outras críticas iam na mesma direção. Calisto admitia no clero homens casados mais de uma vez e permitia que uma mulher de alta posição tivesse como marido um homem livre ou escravo, ainda que a lei não reconhecesse essa união.
Calisto defendia esse modo de governar, e o defendia com a Escritura. Falava da arca de Noé. Lá dentro, enquanto a água cobria a terra, viajavam cães, lobos e corvos. Viajavam animais puros e impuros, todos sob o mesmo teto de madeira. A Igreja, dizia ele, é essa arca.
Lembrava também uma parábola de Jesus. Um homem semeia trigo no seu campo, e de noite um inimigo semeia joio no meio do trigo. Os servos querem arrancar o joio. O dono lhes diz que deixem os dois crescerem juntos até a colheita, porque então um será separado do outro.
E repetia a pergunta do apóstolo Paulo aos cristãos de Roma, quem és tu para julgar o servo alheio? É diante do seu próprio senhor que ele fica de pé ou cai.
Muitos anos antes, um escravo tinha sido tirado da água em Porto. Alguns irmãos que tinham perdido as suas economias pediram que ele saísse do moinho. Numa mina, um ancião se arriscou por ele, e em Roma um bispo entristecido preferiu não castigá-lo. A arca que Calisto descrevia diante do seu acusador já tinha carregado o próprio Calisto.
A mesma porta tinha inimigos do outro lado do mar. Em Cartago, no litoral da África, vivia Tertuliano, um cristão que tinha defendido a fé com os seus escritos e que já tinha se afastado rumo a uma disciplina muito mais dura. Ele zombou do édito de um bispo a quem chamava com ironia de «Pontífice Máximo, bispo dos bispos». O édito, porém, falava sério, e Tertuliano copiou as suas palavras para atacá-las.
«Eu perdoo os pecados de adultério e de fornicação a quem cumpriu a penitência.»
Ou seja, quem tinha caído e feito penitência podia voltar à comunhão da Igreja. O édito não traz nome, e quem o publicou continua sendo uma pergunta em aberto, porque uns pensam no bispo de Roma e outros em Agripino, o bispo de Cartago.
O que Tertuliano atacava era o mesmo que Hipólito criticava em Roma. Os dois se opunham a que a Igreja recebesse de novo, depois da penitência, quem tinha cometido certos pecados.
A Igreja não os seguiu. Manteve aberta a porta que aqueles dois críticos queriam fechar, e continuou recebendo, depois da penitência, quem voltava para casa.
Calisto governou a Igreja de Roma uns cinco anos, e morreu sem que saibamos ao certo como. Restava a Roma decidir com que nome iria lembrá-lo.
Mártir
A sua morte chegou num tempo estranho. Por volta do ano 222 governava o imperador Alexandre Severo, e os cristãos da cidade viviam um tempo de relativa paz.
Por isso a morte de Calisto tem algo de enigma. Em Trastevere se fala de um motim de pagãos, de uma multidão que teria se voltado contra ele.
Já o que a Igreja fez com a sua memória ficou escrito.
No século quarto, a Igreja de Roma mantinha um calendário em que anotava os seus mártires e o dia em que celebrava a sua memória. Ao lado do dia 14 de outubro aparece uma linha muito curta.
«Callisti in via Aurelia miliario III». Calisto, na Via Aurélia, a três milhas da cidade.
Calisto é o primeiro bispo de Roma inscrito nessa lista de mártires. A Igreja o considerou mártir, isto é, testemunha de Cristo até dar a vida, e ainda hoje o celebra assim.
Hipólito tinha usado essa palavra com zombaria, para a condenação de um escravo às minas. Agora era a Igreja de Roma que a escrevia, sem ironia e no seu próprio calendário.
Uma única linha não bastava aos fiéis. Muito tempo depois, alguém contou a sua morte num relato longo, cheio de nomes e de prodígios, que hoje se lê como lenda.
Nesse relato, o cônsul Palmácio acusa os cristãos, e os soldados que vão buscar Calisto ficam cegos ao entrar onde ele está. Uma vestal, uma das virgens consagradas ao fogo sagrado de Roma, vê o prodígio e proclama o «Deus de Calisto».
Vencido pelo que vê, Palmácio pede o batismo, e Calisto o batiza.
Esse mesmo relato conta que mataram um presbítero de Roma, Calepódio, e lançaram o seu corpo no Tibre. Alguns pescadores o tiram da água e Calisto o sepulta. Hoje esse nome, Calepódio, é o do cemitério onde se encontrou o túmulo do próprio Calisto.
Depois chega a hora do próprio Calisto. Ele é trancado numa prisão, e ali, na escuridão, Deus o conforta com uma visão. Um soldado se aproxima do prisioneiro, e o prisioneiro o cura.
No fim, o levam até um poço.
E o atiram lá dentro.
Assim termina o relato antigo. Séculos mais tarde, junto ao seu túmulo, alguém pintou essa cena na parede. No afresco, o bispo cai no poço com uma pedra amarrada ao pescoço.
Esse afresco não está na Via Ápia, no cemitério que leva o nome dele. Está junto a uma escada, em outra estrada de Roma.
Ao pé da escada
A outra estrada é a Via Aurélia, a que saía de Roma pelo lado de Trastevere. À mesma distância anotada no calendário dos mártires, os cristãos do bairro tinham o seu próprio cemitério, provavelmente o mais antigo daquelas estradas. Hoje esse cemitério leva o nome de Calepódio, o presbítero que o relato antigo tira das águas do Tibre.
Ali está, portanto, o lugar onde Calisto repousou. Foi posto entre os seus, os cristãos de Trastevere. O seu túmulo ficou ao pé da escada primitiva, a mais antiga das que desciam às galerias.
Os seus restos não ficaram na Via Aurélia. Séculos depois, subiram até Trastevere, à basílica que o papa Júlio tinha erguido «junto a Calisto», a que hoje se chama Santa Maria em Trastevere. Ali se veneram as suas relíquias.
A poucos passos dali, na pequena igreja que leva o seu nome, os fiéis se aproximam de um poço. Diante da boca do poço, o povo de Trastevere reza ao bispo que, no relato do seu martírio, foi atirado lá dentro.
Longe dessas orações, as galerias da Via Aurélia foram se arruinando. A escada e o túmulo ficaram esquecidos sob a poeira e os desabamentos.
A partir dos anos sessenta do século vinte, alguns escavadores voltaram a descer por aquela escada. Ao pé dos degraus, apareceu o túmulo. Na parede restavam fragmentos do afresco do poço. E junto à sepultura, um fiel tinha gravado algumas letras na pedra.
«Sancto Callisto Alfius votum solvit». Álfio cumpriu a sua promessa a São Calisto.
Essa inscrição não diz o que ele pediu. Diz que rezou junto a este túmulo, que prometeu algo se fosse ouvido, e que voltou para cumprir. É uma prece com nome próprio.
Certa vez, na Sardenha, um condenado se ajoelhou para suplicar. Junto ao túmulo de Calisto, outro homem tinha deixado a lembrança de uma promessa cumprida.
O seu túmulo ficava na Via Aurélia, mas o cemitério que ele tinha guardado na Via Ápia continuou recebendo os bispos de Roma do seu século. Um deles, um sucessor seu, chegaria de muito longe, da mesma ilha das minas. E não chegaria sozinho.
Volta à Sardenha
Aquele regresso tinha atrás de si uma ferida longa, porque a divisão não tinha terminado com a morte de Calisto. Hipólito continuou à frente do seu pequeno grupo. Durante anos, os cristãos de Roma tiveram dois pastores que não compartilhavam a mesma mesa.
Aquela divisão se fechou no tempo de um desterro. No ano 235, sob o imperador Maximino, Ponciano, o bispo da cidade, e Hipólito, o homem que se opunha a ele, foram desterrados para a Sardenha.
Era a ilha das minas. A mesma terra onde um condenado, ao ver que o seu nome faltava na carta de libertação, tinha pedido chorando que não o deixassem para trás.
Na época daquele desterro, Hipólito voltou à comunhão da Igreja. Era o presbítero sábio que tinha contado a queda de Calisto. Voltou à fé compartilhada e à mesa do Senhor, junto ao bispo que ele tinha se recusado a reconhecer.
A misericórdia que Calisto tinha suplicado naquela ilha acabou alcançando o homem que havia escrito aquela súplica para derrubá-lo.
Os restos dos dois voltaram a Roma num 13 de agosto. Ponciano ficou na cripta dos papas, e Hipólito repousou em outra estrada, a Via Tiburtina. A Igreja venera os dois como mártires de Cristo.
O rival de Calisto é, por isso, um santo.
Calisto tinha falado de uma arca onde viajavam juntos animais puros e impuros, e de um campo onde o trigo e o joio esperam a mesma colheita. Nessa arca acabou entrando também quem a tinha querido fechar.
O escravo que suplicou de joelhos nas minas defendeu como bispo uma Igreja sem portas fechadas ao arrependido.
Calisto saiu das minas porque um ancião falou por ele diante do governador. Quase todos temos alguém assim na vida, alguém que deu a cara por nós quando não conseguíamos sozinhos.
São Calisto, de joelhos pedistes não ficar fora da liberdade dos vossos irmãos. Guardastes o descanso dos defuntos de Roma e abristes a porta da Igreja aos que voltavam arrependidos. Alcançai-nos de Cristo um coração que não deixe ninguém fora da sua misericórdia. Acompanhai com a vossa oração os nossos defuntos e consolai os que hoje choram por eles, até o dia da ressurreição. Rogai por nós. Amém.





