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FIDES VIVA

25 de julho

São Santiago el Mayor, Apóstolo

De Galileia a Compostela, um legado vivo

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Capítulos
  1. 0:00As redes junto ao lago
  2. 4:29Filho do trovão
  3. 6:45Os três que viram a glória
  4. 12:48O cálice que pediu sem saber
  5. 17:44A espada e o beijo de paz
  6. 27:04A memória que caminha
  7. 34:58Até onde seguir

Ainda tinha as mãos molhadas quando ouviu seu nome. Soltou as redes, deixou o barco e o pai, e seguiu atrás de uma voz. Sem discutir. Sem se despedir. Que tipo de coração responde assim?

As redes junto ao lago

O mar da Galileia é, na verdade, um lago: uma lâmina de água doce encaixada entre colinas douradas, com aldeias de basalto negro apertadas contra a margem. No início do século primeiro, aquela margem tinha cheiro de peixe, de piche e de redes de linho estendidas ao sol. Roma governava de longe e cobrava de perto: nos cais, os cobradores de impostos pesavam cada captura, e toda a região vivia sob Herodes Antipas, um príncipe a soldo do império. E por baixo de tudo, como brasa sob a cinza, ardia uma espera antiga: a de um povo que aguardava um enviado de Deus, ainda que ninguém soubesse lhe dar rosto.

Numa dessas aldeias de pescadores, entre Betsaida e Cafarnaum, nasceu Tiago, filho de Zebedeu e de Salomé, irmão mais velho de João. De sua infância não ficou escrita uma linha só; o lago, porém, deixa imaginá-la inteira. A sua não era uma casa pobre: Zebedeu tinha barco próprio e jornaleiros a seu serviço, e seu nome tinha peso nos cais. Ainda assim, na Galileia ninguém comia sem se molhar. O menino cresceu aprendendo o ofício desde o começo: remendando linho, tirando água, puxando cordas, até que as palmas das mãos se cobriram de calos.

Cresceu forte e fibroso, de ombros largos de tanto puxar redes, com aquele gênio pronto que o lago não abranda. Trabalhava de noite, quando o peixe sobe à superfície, e dormia de dia, quando o sol castiga. Sabia ler a água e o vento como outros leem um rolo. Nos sábados, na sinagoga, ouvia as promessas antigas: que Deus não tinha esquecido o seu povo. Sua vida já estava traçada: o barco do pai seria um dia o barco dos filhos, e os dias se pareciam todos, um atrás do outro, como as ondas.

Até que deixaram de se parecer.

Numa manhã, a faina era a de sempre: o barco encalhado, as redes de linho estendidas sobre os joelhos, Zebedeu distribuindo o trabalho entre os filhos e os jornaleiros. Marcos conta isso em poucas palavras, como quem sabe que as palavras sobram. Pela margem vinha um caminhante de Nazaré, um artesão chamado Jesus, e a água devolvia sua voz. Pouco antes, tinha chamado Simão e André, sócios de pesca dos Zebedeu, enquanto lançavam a rede:

«Vinde após mim, e eu farei de vós pescadores de homens.»

Alguns passos mais adiante, viu o outro barco, e nele os dois irmãos, as redes nas mãos calejadas pela corda e pelo anzol. Olhou para eles. Os chamou. E aqui o evangelho não registra uma só palavra de resposta: diz apenas que, no mesmo instante, deixaram o barco e o pai, e o seguiram. As redes ficaram pela metade, sem remendar. O peixe ficou sem ser pesado. A herança inteira de uma família, encostada contra a borda como mais um equipamento de pesca.

Zebedeu não disse nada. Ou, se disse algo, ninguém escreveu. Resta apenas a imagem: um pai de barba grisalha, de pé entre os jornaleiros, vendo os dois filhos se afastarem pela margem atrás de um desconhecido. Todo chamado tem um preço, e uma parte dele é sempre paga por quem fica olhando.

Aquela prontidão já dizia quase tudo do homem que a teve. Quase tudo. Porque o mesmo coração capaz de deixar tudo num instante era capaz também de arder por aquilo que não devia. Muito em breve o próprio Jesus daria um nome a esse fogo — e não seria um nome manso.

Filho do trovão

O nome veio pouco depois. Jesus subiu a um monte da Galileia, reuniu os que o seguiam e escolheu doze entre todos, para que estivessem com ele e para enviá-los a pregar. Entre os doze estavam os dois irmãos do barco. E a eles, só a eles, impôs um apelido: Boanerges. Filhos do trovão.

Ninguém apelida assim um homem morno. Um apelido como esse é um retrato. Pintava de corpo inteiro os filhos de Zebedeu: a decisão que não espera, a palavra que se adianta ao pensamento, o zelo que arde e às vezes queima. Jesus conhecia aquele fogo melhor do que eles mesmos. E não escolheu Tiago a despeito do trovão: o escolheu com o trovão dentro, como quem aceita um caráter inteiro para lhe dar outro rumo.

Eram os dias do fervor. Os caminhos da Galileia fervilhavam de gente: doentes que chegavam em macas, aldeias inteiras saindo aos cruzamentos, palavras nunca ouvidas sobre um Reino que se aproximava. O filho do trovão via tudo de perto, com a poeira nas sandálias e os olhos acesos. Estava convencido de que aquele Reino ia estourar de um momento para outro, como estoura uma tempestade sobre o lago. Muitos naquela terra esperavam tronos, exércitos, uma Galileia livre de Roma. Ele também sonhava grande, a seu modo; e queria estar na primeira fila quando tudo chegasse.

A caminho de Jerusalém, uma aldeia da Samaria lhes fechou as portas. E a Tiago não lhe tremeu a voz: «Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma?». Jesus se voltou e o repreendeu: não sabiam de que espírito eram filhos. O Reino não abria caminho destruindo. Foi a primeira poda daquele caráter, e não a última. Jesus não apagou o fogo de Tiago. Ele o tomou para si. E bem em breve começou a levá-lo aonde só três entravam.

Os três que viram a glória

A primeira porta se abriu em Cafarnaum. Um homem abriu caminho entre a multidão e se lançou aos pés de Jesus. Se chamava Jairo, um dos chefes da sinagoga: sua filha de doze anos estava morrendo. No caminho até a casa chegou a notícia que nenhum pai quer ouvir: a menina tinha morrido: para que incomodar ainda o Mestre? Jesus a escutou, e a Jairo pediu uma única coisa: que não temesse, que acreditasse. E, ao chegar à casa, não deixou que ninguém entrasse com ele, exceto três: Pedro, Tiago e João.

Dentro já se ouviam o pranto das carpideiras, as flautas do luto, o rumor da morte instalada na casa. Jesus disse que a menina não estava morta, e sim dormindo, e riram dele. Então mandou que todos saíssem. Levou consigo o pai, a mãe e os três pescadores, e entrou onde a menina estava. Um quarto em penumbra. Uma cama. Um silêncio total. Segurou a mão dela e mandou que se levantasse.

E a menina se levantou, e começou a andar.

Tiago estava a três passos. Um pescador de mãos calejadas sabia o que era a morte — a tinha visto no lago, nas aldeias, nos invernos. E acabava de vê-la obedecer a uma voz. A mesma voz que um dia o tinha chamado desde a margem. Não houve trovão daquela vez nele: só um espanto que não encontrava palavras. Jesus mandou que não contassem a ninguém o que tinha acontecido. Aquele segredo compartilhado uniu os três de um jeito novo, como se unem os que viram juntos algo demasiado grande.

Tinha sido um quarto pequeno, uma menina, uma mão. Da próxima vez que Jesus os afastasse do resto, não haveria paredes: haveria uma montanha inteira, e uma luz que nenhum olho humano estava preparado para ver.

A montanha veio depois. Jesus tomou de novo os mesmos três e os levou à parte, a um monte alto que a tradição identifica com o Tabor. Era um cume batido pelo vento, de rochas e carvalhos, isolado sobre a planície. Subiram sem perguntar. E lá no alto, diante deles, o Mestre se transfigurou: seu rosto mudou. Suas vestes se tornaram de um branco fulgurante, um branco que ninguém na terra saberia produzir.

Junto a ele apareceram dois homens conversando: Moisés e Elias, a Lei e os Profetas. Pedro balbuciou algo sobre levantar três tendas; não sabia o que dizia. Então uma nuvem luminosa os cobriu, e da nuvem uma voz chamou Jesus de seu Filho amado, e ordenou que o escutassem. Os três caíram por terra.

Prostrado sobre a rocha, com o rosto banhado naquela claridade, estava o homem que tinha pedido fogo do céu. Agora o tinha diante de si: um fogo que não consumia nada, que só mostrava quem era aquele a quem seguia desde a margem do lago. Reis e profetas tinham desejado ver algo assim. Um pescador o viu.

Quando ergueram os olhos, não havia mais ninguém além de Jesus, só, com sua túnica de sempre. Desceram do monte em silêncio, guardando de novo um segredo. Mas uma claridade assim não se esquece. Deslumbrado por ela, Tiago ia querer reservar para si um lugar naquela glória — sem suspeitar o preço do posto que pediria.

Com aquela claridade ainda nos olhos, abaixo os esperava a poeira. Jesus tomou com decisão o caminho de Jerusalém, e a rota mais curta atravessava Samaria. Judeus e samaritanos se desprezavam havia séculos: adoravam o mesmo Deus e não se sentavam à mesma mesa. Jesus enviou mensageiros na frente, para preparar pousada numa aldeia samaritana. E a aldeia, ao saber que aquele grupo ia a caminho de Jerusalém, lhe fechou as portas.

Então o trovão falou. Os dois irmãos se adiantaram com o rosto afogueado: «Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma?». Não era uma forma de falar: diziam a sério. Tinham acabado de ver Elias envolto em glória sobre a montanha; agora queriam o fogo dele. Pediam ver um povo inteiro —mulheres, crianças, anciãos— reduzido a cinzas por uma porta batida na cara.

Jesus se voltou para eles e os repreendeu: não sabiam de que espírito eram. Só isso. Nenhum raio sobre a aldeia, nenhuma sentença sobre os irmãos. O grupo recolheu os alforjes e seguiu andando para outra aldeia, e o céu da Samaria ficou intacto sobre os tetos.

Foi uma poda, a primeira. Jesus não apagou aquele fogo; torceu sua direção. Não expulsou o impaciente; manteve-o ao seu lado, como quem cuida de uma brasa que ainda não sabe para que arde. O Reino que anunciava não ia conquistar destruindo, e Tiago teria que aprender isso com os anos, golpe a golpe, caminho a caminho.

Mas o trovão tinha outro lado, mais calado e mais profundo que a ira. Não pedia castigo para os de fora: pedia lugar para os de dentro. E naquele mesmo caminho até Jerusalém, ele ia se atrever a lhe dar um nome.

O cálice que pediu sem saber

Se atreveu já perto de Jerusalém, em plena marcha. Em Mateus, é Salomé, a mãe, quem se aproxima e se prostra para pedir; em Marcos, são os próprios irmãos, face a face, sem intermediários. Talvez tenham sido as duas coisas: uma família inteira empurrada pela mesma ambição. Porque o pedido era enorme: os dois primeiros lugares do Reino, um à direita e outro à esquerda do Mestre, no dia em que chegasse sua glória.

Jesus não se indignou. Olhou para os dois e lhes devolveu uma única pergunta: «Podeis beber o cálice que eu hei de beber?». Na língua de Israel, beber o cálice de alguém era compartilhar sua sorte até o fim: seu caminho, sua dor, sua morte. Os irmãos não hesitaram um instante: «Podemos». Era a resposta de sempre, a do rapaz que soltou as redes sem pensar duas vezes: generosa, audaz, cega. Não sabiam o que estavam prometendo.

E Jesus levou a promessa a sério. Os lugares de honra, disse ele, não eram seus para dar. O cálice, sim: «O meu cálice, vós o bebereis». Tiago ouviu uma promessa de glória e guardou aquelas palavras como um tesouro. Acabava de receber, velado, o anúncio da própria morte.

O primeiro gole esperava perto, mais perto do que ninguém imaginava: num jardim de oliveiras, de noite, do outro lado das muralhas.

A noite chegou poucos dias depois. Depois da ceia da Páscoa, Jesus atravessou com os seus o ribeiro Cedrom e entrou num jardim de oliveiras chamado Getsêmani. E uma vez mais afastou os mesmos três —Pedro, Tiago, João—, os que tinham entrado na casa de Jairo, os que tinham visto a luz na montanha. Dessa vez não havia glória para contemplar. «Vigiai comigo e orai», pediu a eles. Depois se adiantou alguns passos entre os troncos e caiu por terra.

Tiago quis vigiar. Apertou o manto contra o frio da madrugada, fixou os olhos na sombra onde o Mestre orava. Mas a tristeza pesa mais do que o próprio sono, e as pálpebras foram cedendo. A poucos passos, Jesus agonizava sozinho, com um suor que caía como gotas de sangue. Três vezes voltou até eles; três vezes os encontrou dormindo.

O homem que tinha dito «podemos» não soube manter nem uma hora de vigília. E, mesmo assim, Jesus não o descartou. Não houve repreensão que o apagasse dos Doze; só aquele olhar que o tinha chamado junto ao lago e que continuava esperando por ele.

Depois vieram as tochas entre as oliveiras, a prisão, a fuga. Também Tiago correu na escuridão, como todos. A cruz se ergueu sem ele ao pé.

Parecia o fim de tudo. Mas a água onde tudo tinha começado ainda guardava uma margem.

Semanas depois, o lago voltou a vê-los. Sete discípulos voltaram à Galileia, e entre eles os filhos de Zebedeu. Numa tarde, Pedro disse: «Vou pescar», e os outros subiram com ele ao barco. A noite toda puxaram redes vazias, como nos velhos tempos, e com as mesmas mãos.

Ao clarear o dia, alguém os esperava na margem. «Lançai a rede à direita», disse a eles. A lançaram, e não conseguiam tirá-la, de tantos peixes. Então João foi o primeiro a entender: «É o Senhor». Era Jesus, vivo, de pé sobre a areia, com brasas aceitas, pão e peixe preparados para eles.

Tiago saltou em terra com os outros e desjejuou junto ao fogo com o Ressuscitado. A água que tinha sido princípio agora voltava como reencontro. Ninguém mencionou a fuga do jardim. Não foi preciso: aquele pão compartilhado ao amanhecer já era o perdão.

Tinha dito «podemos» sem saber o que prometia. Agora sabia o que custava, e continuava de pé. O cálice chegaria, mas de um jeito que ele não escolheu. Passariam anos em silêncio; depois, um rei buscaria o favor dos poderosos, e a promessa se cumpriria por fim, palavra por palavra.

A espada e o beijo de paz

Os anos seguintes o encontraram em Jerusalém. Cinquenta dias depois daquela Páscoa, o Espírito desceu como fogo sobre os apóstolos reunidos, e os homens que se haviam escondido saíram às ruas para proclamar Jesus Cristo ressuscitado. Desde então, o pescador foi se tornando coluna: sustentava, com Pedro e com o irmão João, a primeira comunidade dos crentes, entre o Templo e as casas onde se partia o pão.

Daqueles anos quase não restam palavras. Se adivinha onde ele estava, ali onde estavam os Doze: ensinando sob os pórticos, orando nas casas, impondo as mãos. Quase catorze anos de trabalho silencioso, sem trovão. A barba foi se enchendo de fios brancos; o olhar ardente se tornou sereno sem perder o fogo.

E o horizonte se ampliava: o Mestre já o tinha enviado até os confins da terra. Aqueles anos de caminho terminaram trazendo-o, de novo, a Jerusalém.

A tradição da Espanha guarda uma memória audaciosa: que Tiago foi o que chegou mais longe. Que embarcou rumo ao ocidente, cruzou o mar e pisou a Hispânia, o extremo do mundo conhecido, para anunciar Jesus Cristo onde ninguém ainda tinha pronunciado o seu nome. Estradas romanas sob o sol, colônias de pedra e barro, deuses de mármore em cada fórum. O pescador do lago, pregando no fim da terra.

Não foi uma semeadura fácil. A palavra caía em terra dura; poucos escutavam, e o caminho era longo. E em Saragoça —a Caesaraugusta romana— se conta desde tempos imemoriais que, numa noite, junto ao Ebro, o desânimo pôde mais que o trovão. Que o apóstolo orava exausto à margem do rio, e que Maria, a mãe de Jesus, viva ainda em carne mortal, veio consolá-lo sobre um pilar de jaspe vermelho. Que não temesse: aquela terra haveria de crer. O homem que tinha visto a luz do Tabor recebeu, na noite mais escura de sua missão, uma luz mais humilde e mais próxima.

Assim o guarda aquela terra, que desde então o chama de seu. O certo é que, passados os anos, o apóstolo estava de novo em Jerusalém.

E ali o esperava um rei.

O rei se chamava Herodes Agripa, e trazia no sangue o nome mais temido da Judeia: era neto de Herodes, o Grande. Tinha crescido em Roma, entre príncipes, aprendendo a arte difícil de agradar os poderosos. E a arte lhe deu fruto: o imperador acabou pondo em suas mãos o reino do avô. Mas um trono emprestado precisa de apoios. Agripa buscou o favor dos notáveis de Jerusalém. E encontrou uma presa fácil: a pequena comunidade dos que seguiam Jesus.

A memória da primeira Igreja o guardou numa frase: «Por esse tempo, o rei Herodes estendeu as mãos sobre alguns da Igreja, para os maltratar.» E entre os presos caiu o primeiro dos grandes: Tiago, irmão de João. Os soldados o levaram amarrado pelas ruas da cidade onde tinha visto morrer o seu Mestre. Corria para o ano quarenta e quatro; tinham passado uns catorze desde aquela Páscoa.

Compareceu diante do tribunal com a túnica rasgada, o lábio partido, os pulsos amarrados com corda. Já havia fios brancos na barba, mas as mãos continuavam sendo as de um pescador. Não negociou, não se calou, não pediu clemência: confessou Jesus Cristo diante dos juízes, com a mesma prontidão com que um dia tinha soltado as redes. O trovão continuava dentro dele. Só que agora não pedia fogo para ninguém: ardia inteiro, quieto, na própria voz.

A sentença foi a espada.

E naquela sala havia um homem encarregado de sustentar a acusação. Tinha reunido as acusações, tinha apontado o dedo para o apóstolo. Agora estava de pé, bem perto, escutando cada palavra do condenado. E algo, dentro dele, começava a se rachar.

Uma memória muito antiga, que os primeiros cristãos foram passando de boca em boca até que Clemente de Alexandria a deixou escrita, conta o que aconteceu então. Aquele homem, ao ouvir o apóstolo confessar Jesus Cristo sem que a voz lhe tremesse, já não conseguiu sustentar seu papel. Tinha ido para condenar um réu e saiu atingido por ele. Ali mesmo, diante dos juízes, se declarou cristão. A sentença o abraçou também: a mesma espada, o mesmo dia.

Levaram os dois juntos ao suplício. E pelo caminho, aquele que tinha levantado a acusação se voltou para sua vítima e lhe pediu perdão.

Tiago o olhou por um instante. «A paz esteja contigo», disse a ele. E o beijou.

Era a saudação dos irmãos: o beijo de paz que os cristãos trocavam entre si ao se reunirem, o sinal de pertencer a uma mesma família. Tiago o deu ao homem que o levava à morte. Anos antes tinha querido que um fogo do céu consumisse uma aldeia por lhe fechar a porta. Agora, a caminho do cadafalso, abria a sua de par em par ao último que bateu. Não morreu ganhando uma disputa. Morreu gerando um irmão.

Caminharam juntos o último trecho: dois homens amarrados, um único batismo de sangue esperando por eles no fim.

A rua terminou num pátio de pedra, e no pátio esperava o executor com o gladius desembainhado: a espada curta com a qual se cumpriam as sentenças do rei. Tiago não ofereceu resistência. Não houve discurso final. Se ajoelhou sobre a pedra quente e descobriu o pescoço.

Anos antes, num caminho da Judeia, tinha respondido «Podemos» sem medir o que prometia. Naquela manhã, mediu tudo. O cálice que tinha pedido com audácia chegou finalmente aos seus lábios, e ele o bebeu até o fim: não num trono junto a Jesus glorioso, mas sob uma espada, unido a Jesus entregado.

A espada caiu.

Corria, por aqueles dias, para o ano quarenta e quatro. O primeiro dos Doze a derramar o sangue por Cristo foi o filho do trovão. E de todos os apóstolos, é o único cuja morte ficou escrita no Novo Testamento: uma linha breve, seca, sem nenhum ornamento, como uma lápide. Seu irmão João, o outro Boanerges, morreria idoso, o último de todos. Tiago abriu a porta.

Depois, silêncio. Nenhuma última palavra registrada, nenhum prodígio no céu de Jerusalém. A cidade seguiu com seus mercados e suas orações, e o silêncio pesou mais do que qualquer palavra.

A sentença não foi a última notícia daquele ano. Meses depois, Herodes Agripa desceu a Cesareia Marítima, a grande cidade portuária de seu reino, junto ao mar. Numa manhã de festa, entrou no teatro com um manto tecido de prata. O sol da costa bateu no tecido, e o rei todo pareceu arder em luz. Falou ao povo do alto, e a multidão, deslumbrada, começou a gritar que aquela era a voz de um deus, e não a de um homem.

Agripa não recusou o elogio. Os Atos dos Apóstolos contam sem rodeios: naquele instante o feriu o anjo do Senhor, porque não deu a Deus a glória. Uma dor fulminante o dobrou diante de todos, e poucos dias depois o rei que tinha mandado matar Tiago para conquistar um aplauso estava morto.

A espada do perseguidor não tinha detido nada. A palavra de Jesus Cristo continuou crescendo, casa por casa, caminho por caminho, enquanto o trono que quis apagá-la ficava vazio.

E quanto ao apóstolo, tudo parecia encerrado: uma linha seca num livro, um corpo chorado pelos seus. Mas Deus escreve devagar. Aquela memória iria dormir durante séculos, e despertar muito longe, onde a terra termina e o mar começa.

A memória que caminha

O que vem agora já não está nos Atos dos Apóstolos. Quem conta é a lenda jacobeia, que os peregrinos repetiram de geração em geração até ficar registrada no Códice Calixtino, o grande livro medieval do Caminho de Santiago. E é uma história bonita.

Ela diz que dois discípulos do apóstolo, Atanásio e Teodoro, recolheram o corpo em Jerusalém e o levaram até a costa. Que o puseram numa barca sem leme, confiada só a Deus, e que em sete dias as ondas a empurraram até a Gallaecia romana, no noroeste da Hispânia. Ali, num porto chamado Iria Flavia, a terra é verde e a bruma sobe do oceano. A tradição chamou aquela viagem de Traslatio: o traslado do corpo, da cidade que o matou até a margem que o esperava.

Em terra os esperava uma rainha daquelas montanhas, chamada Lupa. Os discípulos pediram ajuda a ela, e ela lhes deu, com segundas intenções, um par de touros bravos para puxar o carro funerário. Mas os touros desceram do monte mansos como bois: baixaram a cabeça, deixaram que lhes pusessem o jugo e começaram a andar sem que ninguém os guiasse. Onde o carro parou por conta própria, ali abriram a sepultura.

Foi assim que, durante séculos, a memória do Caminho de Santiago pintou a cena, em seus códices iluminados e na pedra de seus pórticos: o galileu que numa manhã deixou um barco num lago e chegou, adormecido para sempre, a um porto em outro barco. Foi enterrado num bosque terra adentro, e o tempo fez o que costuma fazer: o nome foi se apagando, a mata cresceu sobre a pedra, e aquele túmulo ficou esquecido. Quase oitocentos anos.

Até que, numa noite da terceira década do século nono, algo tremeu sobre aquela mata. Um eremita chamado Pelayo, que vivia retirado no bosque de Libredón, viu clarões entre as árvores. Eram luzes que se depositavam, uma vez e outra, sobre o mesmo ponto, como uma estrela caída que não quisesse se apagar. É assim que a memória de Compostela guarda essa memória. Pelayo não guardou silêncio: foi contar ao bispo de Iria Flavia, um homem chamado Teodomiro.

O bispo subiu ao bosque, jejuou, mandou desbravar a mata. E sob séculos de terra e raízes apareceu um pequeno sepulcro de pedra, antigo, esquecido. Teodomiro o reconheceu como o túmulo do apóstolo Tiago. E daquele bispo, ao menos, não há dúvida: sua lápide, com o nome e o ano de 847, foi encontrada sob a catedral em 1955. Ele quis ser enterrado junto ao homem que tinha encontrado.

A notícia correu até Oviedo, e o rei Afonso II das Astúrias se pôs em marcha com sua corte para ver aquilo com os próprios olhos. Aquela caminhada real, por montes e vales, foi a primeira peregrinação: a trilha que ela abriu se chama, até hoje, Caminho Primitivo. Sobre o túmulo, o rei mandou erguer uma igreja simples, e em torno dela começou a crescer um lugar com nome novo. A memória popular sempre leu esse nome assim: campus stellae, o campo da estrela. Compostela.

Um túmulo perdido no fim do mundo acabava de se tornar destino. Faltava dar ao apóstolo um rosto que os caminhantes pudessem olhar.

Foi a pedra que deu esse rosto a ele. A igreja simples de Afonso logo ficou pequena para tantos caminhantes. Sobre ela se ergueu outra, e depois a grande catedral românica, que levou mais de um século para crescer. Em 1188, um escultor a quem chamavam Mestre Mateus coroou a entrada com sua obra mais alta: o Pórtico da Glória. Um portal imenso, povoado de profetas, apóstolos e anciãos com instrumentos musicais. E na coluna central, recebendo de frente todo aquele que chega, sentou Tiago.

Ninguém tinha guardado suas feições; esse rosto não é um retrato, mas a memória dos séculos esculpida em pedra. E, no entanto, ele diz muito: a barba dividida em duas pontas, os cabelos com risca no meio caindo para os lados, o olhar em paz de um homem maduro. O pescador do trovão transformado em pai que espera no fim do caminho. Pouco depois, no século treze, outra imagem sua foi instalada sobre o altar-mor: uma estátua sentada de pedra pintada. Na época barroca a revestiram com uma esclavina de prata cravejada de conchas, a capa do peregrino.

É a essa imagem que os peregrinos sobem por trás, por uma escada estreita, para a abraçar com os braços. Assim se completa o Caminho de Santiago há séculos: não com um documento nem com um selo, mas com um abraço.

A pedra ficou ali, serena, vendo a gente chegar. Mas o que ela guardava por baixo —os ossos do altar— ainda tinha pela frente sua própria travessia.

A travessia chegou de surpresa, e veio do mar. Em 1589, quando a frota do corsário inglês Francis Drake desembarcou em Corunha, a poucas jornadas de Compostela, a cidade tremeu por seu tesouro. Para o pôr a salvo, os restos do apóstolo foram retirados de seu lugar de sempre e escondidos no interior da catedral. Escondidos tão bem que, passado o perigo, o lugar exato foi esquecido. Por quase trezentos anos os peregrinos continuaram chegando, subindo a escada, abraçando a imagem — sem que ninguém soubesse dizer com certeza onde repousavam os ossos que tinham dado origem a tudo.

Em 1879, alguém decidiu procurar. As escavações por trás do altar-mor, à luz dos lampiões, trouxeram à luz um nicho oculto com restos humanos de três pessoas. Foram estudados, foram comparados, e em 1884 o papa Leão XIII resolveu a questão com uma bula solene: aquelas relíquias eram as do apóstolo Tiago.

(sobreimpreso: "Deus Omnipotens, León XIII, 1884")

Assim a Igreja o declarou, com todo o seu peso; parte dos historiadores ainda discute isso até hoje. O que ninguém discute é o que veio depois. Os restos foram depositados numa urna de prata lavrada com o monograma de Cristo e as figuras dos apóstolos. Repousam numa cripta aberta sob o altar-mor, onde qualquer um pode se ajoelhar a um passo deles. E a velha trilha, que definhava, voltou a se encher de passos.

Um bosque perdido da Galícia, onde numa noite tremeram uns clarões, se transformou na meta de milhões. E a trilha que nasceu daquela estrela não pertence ao passado: continua cheia de passos agora mesmo, nesta manhã, sob o mesmo céu do noroeste.

Até onde seguir

Hoje amanhece sobre essa mesma trilha, e ela não está vazia. Nos trigais de Castela avança uma fila de silhuetas com a primeira luz; nos bosques úmidos da Galícia, as botas soam sobre a terra molhada. Mochilas, bordões, e a cada trecho um marco de pedra com a vieira amarela, a concha que indica a direção. Vêm de todos os continentes. Cada um caminha por algo diferente: uma promessa, um luto, uma pergunta que ainda não sabe seu nome. Alguns sabem rezar; outros já não lembram como se fazia, e caminham do mesmo jeito.

Nunca foram tantos. Em 2025, o escritório que acolhe os caminhantes em Compostela entregou mais de quinhentas e trinta mil compostelas, o documento que atesta ter chegado até o sepulcro. É o número mais alto de sua história. E algo maior está próximo: em 2027, o vinte e cinco de julho, festa do apóstolo, cairá num domingo, e isso transforma o ano inteiro em Ano Santo. A Porta Santa da catedral, murada no resto do tempo, se abrirá em 31 de dezembro de 2026. Por ela passarão milhões.

No fim de cada etapa espera o mesmo gesto. Lá embaixo, na cripta, a urna de prata repousa em sua penumbra de lamparinas. Lá em cima, nas grandes festas, o botafumeiro —um incensário enorme que se balança sobre a nave— voa de um extremo a outro, enchendo o ar de fumaça e de espanto. E detrás do altar-mor, uma escada estreita sobe até a estátua sentada do apóstolo, para abraçá-la por trás, com as mãos sobre seus ombros de pedra. Uns choram, outros se calam, outros dizem apenas obrigado. Vinte séculos depois daquela manhã no lago, cada abraço prolonga a mesma cena: alguém que deixou algo atrás para chegar até um amigo de Jesus Cristo.

A pergunta do início não saiu dali. Que tipo de coração responde assim, sem discutir, sem se despedir. Sua vida inteira foi a resposta. Quis o primeiro lugar, e o ocupou: foi o primeiro dos Doze a dar a vida, com o pescoço descoberto diante da espada. O fogo que pedia castigo para uma aldeia acabou ardendo num beijo de paz ao homem que o entregou. Não lhe mudaram o coração; lhe mudaram a direção.

Também nós guardamos redes entre as mãos: um trabalho que dá segurança, uma casa difícil de deixar. E também uma manhã qualquer em que algo chama, bem baixinho, pelo nosso nome. Que redes ainda sustentam essas mãos quando essa voz ressoa. A pergunta não envelheceu. Hoje é nossa.

O lago ficou atrás há vinte séculos. A voz que passou por aquela margem continua passando, a cada amanhecer, por todas as margens do mundo.

Tiago Maior, apóstolo do Senhor, primeiro a beber o cálice e padroeiro dos peregrinos, rogai por nós.

Fontes

Fuentes primarias (s. I)

  • Evangelios de Mateo, Marcos, Lucas y Juan — texto canónico (Nova Vulgata), vatican.va
  • Hechos de los Apóstoles, cap. 12 — texto canónico, vatican.va
  • Eusebio de Cesarea, Historia Eclesiástica, II,9 (citando a Clemente de Alejandría), c. 324
  • Flavio Josefo, Antigüedades judías, XIX, c. 93-94

Fuentes hagiográficas y tradición jacobea

  • Breviarium Apostolorum (ss. VI-VII)
  • (Ps.-)Isidoro de Sevilla, De ortu et obitu Patrum (s. VII)
  • Himno 'O Dei Verbum', círculo de Beato de Liébana (c. 785)
  • Codex Calixtinus (Liber Sancti Iacobi), c. 1138-1145 — Catedral de Santiago (UNESCO, Memoria del Mundo)
  • Acta Sanctorum, Iulii VI, De S. Jacobo Majore — Société des Bollandistes, 1729
  • Alban Butler, Lives of the Saints (ed. rev. Thurston-Attwater)

Documentos y estudios eclesiásticos/académicos

  • León XIII, Bula 'Deus Omnipotens', 1 de noviembre de 1884
  • Martirologio Romano (25 de julio), ed. típica 2004
  • Lauda sepulcral de Teodomiro (año 847), Museo Catedral de Santiago
  • J. Guerra Campos, 'Roma y el sepulcro de Santiago', Verbo 247-248, 1986
  • A. M. Pazos (ed.), Las reliquias de Santiago (2022)
  • Catholic Encyclopedia, 'St. James the Greater' (New Advent, 1910)

Iconografía

  • Maestro Mateo, Pórtico de la Gloria (1188) y estatua sedente del altar mayor (s. XIII), Catedral de Santiago
  • Francisco de Zurbarán, 'Santiago el Mayor' (1639), Museo del Prado
  • Rembrandt, 'Saint James the Greater' (1661)

Contexto contemporáneo

  • Oficina de Acogida al Peregrino de Santiago — estadísticas 2025
  • Catedral de Santiago / Xacobeo — Año Santo Compostelano 2027
  • Santa Sede (vatican.va) — León XIV, 267.º papa

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quinta-feira, 29 de outubro · Evangelho

Jesus segue para Jerusalém e chora sobre a cidade que mata os profetas

Naquele tempo, no mesmo dia, aproximaram-se alguns fariseus e disseram a Jesus: “Sai e vai embora daqui, porque Herodes quer matar-te”. Ele lhes disse: “Ide dizer a essa raposa: Eis que expulso demônios e realizo curas…