É noite em um vale escondido entre florestas. Um homem vestido de lã branca escreve à luz de uma vela, em uma cela de pedra nua. Está tão magro que a mão sobre o pergaminho parece de osso. De repente se detém. Deixa a pena.
Lá fora, à porta do mosteiro, espera um mensageiro. Traz o selo de um rei.
Não é o primeiro. Chegam de Roma, de Paris, das cidades do Império, e todos buscam a mesma coisa: sua palavra. Corre o século doze, e este monge enfermo, abade de um mosteiro pobre em um vale de Champanha, é o homem mais ouvido da cristandade. Os papas lhe pedem conselho. Os reis abrem suas portas para ele. Os concílios aguardam sua voz.
E ele, ao entrar no claustro, havia pedido uma só coisa: desaparecer. Silêncio. É o único que o mundo jamais lhe concedeu.
Resolveu um cisma que dividia a Igreja em dois. Pregou uma cruzada diante de um rei e um imperador. Se interpôs entre uma multidão armada e as casas dos judeus do Reno. E escreveu sobre o amor de Deus como não se escrevia desde os antigos Padres da Igreja.
Se chamava Bernardo de Claraval.
Mas antes da cela, antes das cartas e dos reis, houve uma colina de Borgonha, um castelo, e uma criança que ninguém imaginava monge.
O sonho e a promessa: nascer para outro destino
O século onze chegava ao fim. Era um mundo de vinhedos e florestas, de fortalezas de pedra e sinos que marcavam o tempo antes dos relógios, e onde o poder se media em espadas. A Igreja travava então uma luta longa por sua liberdade diante dos príncipes, e nos grandes mosteiros ardia o ouro de uma liturgia esplendorosa. Mas sob esse esplendor crescia uma sede distinta: a de uma fé mais nua, mais pobre, mais parecida com o Evangelho.
Assim o recorda a memória cisterciense: no castelo de Fontaine-lès-Dijon, sobre uma colina que domina a planície, uma mulher grávida sonhou com um cachorrinho branco, de lombo avermelhado, que latia sem descanso. O sonho a inquietou, até que a família terminou por entendê-lo como uma promessa: o filho que esperava seria um guardião, e seu latido defenderia a casa do Senhor. Ela guardou essas palavras no coração.
Por volta de 1090 nasceu aquele menino, e o chamaram Bernardo. Terceiro de sete filhos de Tescelin, o Ruivo, cavaleiro do duque de Borgonha, e de Aleth de Montbard, cresceu entre muros de guerra que cheiravam a couro e a fumaça de lar.
A casa era de armas, mas a alma da casa era dela. Aleth se vestia como uma dama e vivia quase como uma monja: levava pão aos pobres com as próprias mãos, e educou em fé seus sete filhos antes de qualquer outra coisa. Dela recebeu o menino sua primeira piedade. Aquela mulher de voz baixa foi sua primeira escola, e a mais profunda.
Por volta dos dez anos o enviaram a Châtillon-sur-Seine, à escola dos cônegos de Saint-Vorles. Aulas frias de pedra dourada, luz estreita, tabletes de cera e estilete. Ali aprendeu gramática, retórica e dialética, e as aprendeu com uma facilidade que anunciava uma carreira de letras. O rapazinho pálido, alto, de olhos azuis e olhar fixo, amava as palavras: sua música, seu peso, seu fio. Quem o via imaginava para ele uma carreira brilhante: as letras, a corte, talvez as armas de seu pai. Qualquer destino, menos um claustro.
E então, por volta de 1107, morreu Aleth. Seu filho tinha uns dezessete anos. A mulher que havia sido o centro silencioso da casa se apagou, e com ela se apagou o mundo tal como o jovem o conhecia. Os estudos seguiam ali, os caminhos abertos, o porvir prometido. Mas por dentro se havia aberto outra coisa: uma ferida. E no fundo da ferida, uma pergunta que não sabia nomear ainda.
Durante seis anos a carregou consigo. De Châtillon a Fontaine, entre livros e caminhos, entre irmãos feitos às armas de seu pai, o luto foi trabalhando em silêncio, como a água trabalha a pedra. Pouco a pouco, aquela pergunta começou a ter uma direção. Ninguém na casa suspeitava para onde. E ninguém suspeitava, sobretudo, que quando aquele jovem desse ao fim sua resposta, não a daria ele sozinho.
A renúncia que arrasta: trinta portas se fecham
A resposta chegou em 1113. E não chegou sozinha.
Entre todos os mosteiros de Borgonha, o jovem havia escolhido o mais improvável: Cister, uma fundação recente perdida entre pântanos e florestas, onde um punhado de monges tentava viver a Regra de São Bento sem concessões. Nem ouro no altar, nem rendas, nem esplendor: trabalho, jejum, silêncio. A vida ali era tão dura que mal chegavam vocações, e a reforma inteira estava morrendo por falta de braços. Precisamente por isso a escolheu: queria um lugar onde nada ficasse entre a alma e Deus.
Qualquer outro teria partido em segredo, de madrugada, antes que a família pudesse detê-lo. Ele fez o contrário: falou. Falou com seus irmãos, com seus tios, com seus amigos, um por um, com aquela palavra sua que já então ardia. Um a um os foi persuadindo, até que aquela palavra sua tornou desejável o que a qualquer um lhe teria parecido uma perda sem remédio. Gerardo, o soldado da família, se resistiu com força; também ele terminou cedendo. Quando o grupo se pôs ao fim em caminho, eram cerca de trinta: irmãos, parentes, companheiros de estudos e de armas. Trinta portas da nobreza borgonhesa se fecharam ao mesmo tempo.
À porta do mosteiro ficaram os cavalos, as espadas, os tecidos finos. As capas senhoriais cederam lugar à túnica de lã branca crua, sem tingimento: a lã dos pobres. Com o tempo chegou também a tonsura: a coroa raspada e o anel estreito de cabelo da coroa monástica. Estêvão Harding, o abade inglês que governava a casa, viu entrar cerca de trinta noviços em um mosteiro que agonizava. A reforma que se morria acabava de receber seu futuro.
No noviciado, o recém-chegado se repetia uma pergunta como quem afina uma lâmina: "Bernardo, a que vieste?". Se a faria toda a vida, na cela e nos caminhos. Era seu modo de não esquecer que havia vindo buscar a Deus, e somente a Deus.
Dois anos bastaram. Em 25 de junho de 1115, Estêvão Harding o enviou com doze monges para fundar uma casa nova em um vale de Champanha que chamavam o vale do Absenta: um lugar estreito, sombrio, de encostas arborizadas e solo ingrato. Eles o rebatizaram com um nome que era quase uma profissão de fé: Claraval. Vale claro. O abade daquela fundação de cabanas tinha uns vinte e cinco anos.
Os começos foram de uma pobreza que assusta. Levantaram cabanas de madeira e terra, desbravaram o monte com as mãos, semearam tarde e colheram pouco. Houve invernos em que o pão escasseava tanto que cozinhavam folhas de faia para enganar a fome. E no entanto cantavam. Sete vezes ao dia deixavam a enxada e voltavam ao louvor, porque para isso haviam vindo: para que nenhuma hora do dia ficasse sem Deus. Naquela escassez havia uma alegria que ninguém soube explicar nunca por completo.
O abade jovem exigia muito, e a ninguém tanto quanto a si mesmo. Jejuava além do razoável, dormia quase nada, tratava seu corpo como a um adversário. Aquele excesso lhe arruinou o estômago para sempre: desde então viveria enfermo, quase descarnado, sustentado por uma energia que não vinha da carne. Até que interveio Guilherme de Champeaux, o bispo da região, com autoridade de pai: lhe impôs o que ele jamais se teria concedido, um ano inteiro de descanso, uma cela apartada, uma dieta. Obedeceu. E nessa obediência aprendeu a lição que depois ensinaria a meia Europa: a penitência não é a meta. A meta é o amor.
Conta a memória de seus monges que um dia chegou ao vale sua irmã Humbelina, casada com um nobre e vestida de tecidos finos e joias, com um séquito que encheu de cores o caminho. Seu irmão a repreendeu com uma dureza que a feriu. Mas a ferida trabalhou por dentro, como antes havia trabalhado nele: voltou para casa transformada, mudou de vida, e terminou deixando o mundo para tomar o hábito negro das beneditinas em Jully. A Igreja a venera hoje como beata. O arrastamento daquele homem não se detinha à porta do claustro: alcançava até mesmo quem vinha apenas de visita.
Um só havia acendido trinta; os trinta acendiam já comarcas inteiras, e as vocações chegavam ao vale como chega a água a um leito aberto. Entre o ranger da neve e o canto em latim das vigílias, naquele rincão escondido de Champanha estava amadurecendo uma voz. Muito em breve viriam buscá-la de muito além do vale.
De la celda al mundo: la voz que no quiso ser escuchada
Os primeiros a baterem à porta foram os bispos. Em 1128, um concílio reunido em Troyes examinava algo que não existia antes: cavaleiros que haviam jurado proteger os peregrinos em Terra Santa e queriam viver como monges sem soltar a espada. Ninguém sabia o que fazer com eles. O abade de Claraval foi convocado, escutou, e ajudou a dar forma à regra daquela milícia nova que a história chamaria o Templo. Para eles escreveu depois um tratado, o Elogio da Nova Milícia, onde os advertia que a primeira batalha, a decisiva, se trava dentro do próprio coração.
Aquela viagem parecia um parêntese. Era um anúncio. Dois anos depois, em 1130, morreu o papa Honório II, e em Roma duas eleições rivais proclamaram dois papas ao mesmo tempo: Inocêncio II e Anacleto II. A cristandade inteira se partiu em duas obediências. Reinos, cidades e mosteiros tiveram que escolher lado, e escolher mal podia custar reinos e almas. Inocêncio, expulso de Roma, atravessou os Alpes em busca de apoio. E no meio daquela confusão, o olhar de todos começou a se voltar para o mesmo ponto: um vale escondido de Champanha.
O rei de França convocou um concílio em Étampes para decidir a qual papa seguiria o reino. E ocorreu algo insólito: bispos e senhores acordaram confiar o discernimento a um monge sem sede, sem púrpura e sem exército. O abade magro de Claraval estudou os fatos, orou, e se pronunciou por Inocêncio II. Quando falou, o reino o seguiu. Desde aquele dia, sem buscá-lo e sem querê-lo, começou a ser o árbitro da cristandade.
Seguiram-se oito anos de caminhos. A dorso de uma mula, com um manto de lã basta coberto de pó, percorreu França, Itália e as terras do Império, defendendo a causa da unidade cidade por cidade, corte por corte. Falou perante reis e foi ganhando sua adesão. Falou perante o imperador, e também o Império se inclinou. Entrou em Pisa, em Milão, em Roma, e as multidões saíam aos caminhos para ver passar o monge branco. Nas salas onde se decidia o destino da Europa, entre púrpuras cardinalícias e arminhos reais, seu hábito de lã crua era o único branco da cena. Não tinha tropas nem tesouros. Tinha uma palavra que ardia, e uma vida que a respaldava inteira. Em 1138 o cisma se apagou ao fim. A Igreja voltava a ter um só pastor, e meia Europa sabia a quem o devia.
Desde então ninguém o deixou em paz. Lhe escreviam bispos enredados em disputas, abades com dúvidas, príncipes com pleitos, e até os papas pediam conselho àquele abade que não havia querido ser nada. De seu escritório saíram ao longo de sua vida mais de quinhentas cartas, ditadas entre um ofício e outro, a caminho de um concílio ou de volta de uma corte. Um homem que havia entrado no claustro para desaparecer se havia tornado impossível de esquivar: a cristandade inteira passava, cedo ou tarde, pelo vale claro.
Ninguém viu o preço. O estômago enfermo que quase não tolerava alimento, as febres em pousadas alheias, as noites sem coro e sem claustro. Cada légua o afastava do único que havia pedido à vida. Na mula, a caminho de outra cidade e de outra disputa, a velha pergunta do noviciado voltava a alcançá-lo: a que vieste? E a resposta já não era simples. Acudia porque a Igreja de Jesus Cristo estava despedaçada, e não sabia amar a Cristo sem se doer de sua túnica partida. Acudia por obediência, nunca por gosto. Mas cada vez que o mundo o chamava, o silêncio lhe escapava um pouco mais entre os dedos.
E no entanto, sempre voltava. Voltava ao vale como quem volta a respirar. Em 1135, na sala capitular de Claraval, começou a comentar ante seus monges o livro mais ardente de toda a Escritura: o Cântico dos Cânticos, esse poema de amor entre a esposa e o Esposo. Verso a verso, dia após dia, foi mostrando que aquele canto nupcial fala da alma e de Cristo: de uma sede que só Deus sacia, de um amor que busca e é buscado. Os ditaria durante dezoito anos, oitenta e seis sermões, e a morte o surpreenderia com a obra inacabada. Daquelas páginas nasceu o melhor de sua doutrina, e não nasceu de uma cátedra: nasceu da oração, do coro na madrugada, da pedra nua.
Já bem avançada a série deixou escrita a frase que o retrata inteiro: "Amo porque amo, amo para amar". O amor não precisa de razões fora de si mesmo; não é um meio para conseguir outra coisa. Quem o ouvia na sala capitular não escutava uma teoria: escutava um homem que falava do que vivia. Por isso sua palavra sabia a mel: era fruto do claustro, não das escolas.
Assim ficou dividida sua vida em duas metades que nunca deixariam de disputá-la: a cela e o caminho, o Esposo e as cortes. Cada vitória pública lhe trazia mais cartas, mais petições, mais caminhos. O eco de sua palavra crescia por toda a cristandade; e na medida exata desse eco, se lhe ia encolhendo o silêncio.
O amor e a herida: lágrimas no coro
Em 1138, no meio daqueles anos de sermões e caminhos, a morte entrou no vale. Levou Gerardo. Entre os irmãos, havia sido um dos que mais se resistiram à chamada de 1113: um cavaleiro feito à espada e à intempérie, que demorou a ceder. E era, desde fazia anos, o homem sem o qual Claraval não funcionava. Como celeireiro levava as chaves da abadia: os granéis, as obras, as contas, o pão de cada dia de toda a comunidade. O abade podia orar, pregar e partir aos concílios porque Gerardo sustentava tudo o mais. Era suas mãos.
Nos dias do luto, o abade não chorou. Seguiu com a comunidade seu ofício e sua regra, com o rosto seco, e mais de um pôde pensar que não sentia nada. Sentiu demais. Dias depois, comentando o Cântico dos Cânticos ante seus monges, começou o sermão pelo verso que tocava. E no meio da frase, a voz se quebrou.
Chorou diante de todos. O mestre que havia ensinado a meia Europa a ciência do amor divino chorava um amor humano, sem escondê-lo e sem pedir desculpas por ele. E em lugar de se recompor e seguir com o verso, fez de seu luto a matéria mesma do sermão. Confessou quanto havia amado seu irmão, quanto lhe doía a casa sem ele. Disse ante todos que as lágrimas não desmentem a fé, e que chorar a quem se amou não é trair o amor de Deus. Aquele sermão, o número vinte e seis, é a página mais desarmada de toda sua obra: a doutrina do amor sem medida, escrita desta vez não com tinta, mas com uma ferida. Quem o escutou aquele dia entendeu algo que nenhuma cátedra ensina: o verdadeiro amor não se aprende nos livros que o explicam, mas nas perdas que o provam.
Outra herida, muito distinta, o esperava fora do vale. Nas escolas de Paris brilhava então o intelecto mais deslumbrante e polêmico da geração: Pedro Abelardo, mestre de dialética, capaz de desmontar e remontar qualquer argumento diante de aulas repletas. Seu método aplicava a razão aos mistérios mais fundos: a Trindade, a graça, a redenção. Para muitos era uma aurora. Para outros, um perigo: a fé convertida em problema de escola. Guilherme de Saint-Thierry, amigo íntimo do abade, leu aquelas obras com alarme e escreveu a Claraval: era preciso responder. Chocavam duas maneiras de se aproximar do mistério de Jesus Cristo: a que o examina para entendê-lo, e a que se ajoelha ante ele para amá-lo.
Por volta de 1140, um concílio reunido em Sens juntou os dois homens. O abade chegou com uma lista de proposições extraídas dos livros de Abelardo, preparada de antemão; os bispos as examinaram e as condenaram. Abelardo, vendo a causa decidida antes de abrir a boca, recusou o debate e apelou a Roma. Em Sens, a firmeza do abade roçou a dureza. O homem que chorava por seu irmão não tremeu ao cair sobre um adversário, convencido de que defendia algo maior que ambos.
O final daquela disputa não o escreveu nenhum dos dois. Caminho de Roma, Abelardo caiu enfermo e encontrou refúgio na grande abadia de Cluny, sob o cuidado de seu abade, Pedro, o Venerável. Ali, apagado e em paz, morreu em 1142, reconciliado com a Igreja. O velho leão das aulas adormeceu como mais um monge, e a controvérsia que havia sacudido a cristandade se fechou não com uma sentença, mas com uma misericórdia.
Três anos depois, em 1145, chegou ao vale uma notícia que deixou o abade entre o assombro e o tremor. Em Roma acabavam de eleger papa. E o eleito era Bernardo Paganelli: um monge de Claraval, formado sob sua regra, ao qual ele mesmo havia enviado em 1140 a Itália como abade de Tre Fontane. Tomou o nome de Eugênio III. Pela primeira vez na história, um filho de Cister se sentava na cátedra de Pedro. O hábito branco havia chegado ao trono mais alto da Igreja.
Escreveu-lhe logo, com uma liberdade que ninguém mais na cristandade podia permitir-se: a de um pai ante seu filho e a de um súdito ante seu senhor, na mesma tinta. Mas sob a alegria latejava um peso novo. Se o próprio papa era filho seu, quem o protegeria das chamadas do mundo? A resposta não tardou em chegar. O coração que havia amado sem medida ia ser chamado à prova mais pública e mais amarga de sua vida.
Cumbre y abismo: la cruzada, la defensa y el fracaso
A prova chegou de muito longe. Em 1144, no outro extremo do mundo conhecido, havia caído Edessa: uma cidade cristã do Oriente, um dos primeiros territórios que a geração anterior de cruzados havia ganho, e o primeiro a se perder. A notícia atravessou a Europa como um arrepio. O papa Eugênio III convocou uma nova expedição para socorrer a Terra Santa, e na hora de escolher a voz que deveria acendê-la, não hesitou. Encarregou a pregação ao homem que o havia formado no silêncio de um vale. O abade, já velho, já enfermo, obedeceu. Toda sua vida havia ensinado que a obediência não escolhe suas tarefas.
Em 31 de março de 1146, na colina de Vézelay, sob a basílica de Santa Maria Madalena, o esperava uma multidão que transbordava a encosta inteira. A igreja ficou pequena; foi preciso levantar um estrado em plena encosta, ao vento frio de fins de março. Estava o rei de França, Luís VII, com sua corte. E estava ele: cinquenta e seis anos, o cabelo branco, o corpo que apenas se tinha em pé. Mas quando falou, a voz preencheu a encosta inteira. Pregou a cruz de Cristo, o socorro dos irmãos do Oriente, o perdão oferecido a quem tomasse o caminho. A multidão se lançou para o estrado pedindo cruzes. As cruzes de pano preparadas se esgotaram em pouco tempo, e foi preciso rasgar seu próprio hábito para seguir cortando mais. Também o rei tomou ali a cruz.
Não foi o final do caminho, mas o começo. Na Natal desse mesmo ano, na catedral imperial de Espira, de arenito avermelhado e cheia de uma corte abrigada em peles, o monge branco se plantou ante o imperador Conrado III. O alemão se resistia. Bernardo insistiu, com essa voz sua que não deixava saída honrosa à tibieza, e o imperador terminou tomando a cruz. Os dois maiores tronos do Ocidente marchavam já para o Oriente, movidos pela voz de um monge que pesava menos que sua própria cogula.
Mas enquanto ele pregava, outro monge pregava também, e pregava sangue. Chamava-se Radulfo, e percorria as cidades do Reno incitando as multidões com uma lógica atroz: antes de atravessar o mar para combater longe, matar os judeus que viviam ao lado. Na Renânia começaram as agressões. Quando a notícia chegou a Bernardo, sua resposta foi imediata e sem um só matiz. Escreveu cartas duras àquelas cidades, e em uma delas deixou a frase que a memória conserva: "Não devem ser perseguidos os judeus, não devem ser mortos". Uma cruzada pregada em nome de Cristo não podia se manchar com esse sangue. E como as cartas não bastaram, o ancião enfermo subiu em sua mula e viajou até Mogúncia. Enfrentou-se cara a cara com Radulfo, o desautorizou diante de todos e o obrigou a voltar a seu mosteiro. A violência se apagou. A memória judaica do Reno conservou com gratidão o nome do monge branco que se interpôs.
Por aqueles mesmos caminhos do Reno correu outra carta, muito distinta. Nos claustros renanos, contava-se que uma abadessa chamada Hildegarda, do mosteiro de Bingen, lhe escreveu por essa época pedindo conselho: as visões a visitavam e não sabia se deveria calá-las ou escrevê-las. O abade respondeu, encorajando-a, e sua palavra pesou quando o papa Eugênio aprovou os escritos daquela mulher. Dois mundos espirituais se reconheceram em umas poucas linhas: o vale do silêncio e a voz de fogo do Reno.
Em 1147 os exércitos partiram. E tudo saiu mal. Nas planícies da Anatólia, a fome, a desordem e as emboscadas desfizeram a expedição alemã. O que ficou das forças cristãs chegou dizimado à Terra Santa, e em 1148 o cerco de Damasco terminou em retirada. Nada havia sido ganho. A Europa havia entregado seus filhos, seu ouro e suas orações, e recebia em troca colunas de sobreviventes derrotados. O desastre pedia um culpado, e toda a cristandade mirou na mesma direção: para o vale. Para o homem que havia prometido, com aquela voz irresistível, que Deus abençoava o caminho. O homem a quem todos escutavam se voltou, quase de um dia para outro, o homem a quem todos apontavam.
Pôde se defender. Tinha uma pena temida em toda a cristandade e argumentos de sobra: ele não havia dirigido os exércitos, não havia escolhido as rotas, não havia ordenado o cerco. Não escreveu nada disso. Estava compondo então, para seu filho Eugênio III, um livro sobre o ofício de ser papa, De consideratione, e em seu segundo livro enfrentou o desastre de frente, sem rodeios e sem desculpas. Aceitou que o golpe caísse sobre ele. E ante a pergunta que toda a Europa se fazia — por que Deus havia permitido aquilo — respondeu com uma só frase, nua como seus muros: "Os juízos de Deus são um abismo profundo". Até ali chegava o que um homem podia dizer. Preferiu ficar sem defesa antes que ficar sem fé.
No meio daqueles anos escuros, Deus lhe enviou um consolo com forma de despedida. Em 2 de novembro de 1148, o arcebispo Malaquias de Armagh, reformador da Igreja da Irlanda e um de seus amigos mais queridos, caiu enfermo em Claraval, onde havia feito parada caminho de Roma. Morreu ali mesmo, no vale, assistido por Bernardo até o último alento. O abade celebrou seu funeral e depois fez o único que sabia fazer com o amor: escrevê-lo. Redigiu a vida de seu amigo para que não se perdesse sua memória. Dois santos compartilharam aquela cela: um morria em paz, e o outro lhe guardava o nome para os séculos.
Cume e abismo haviam passado já por sua vida, e as duas coisas o haviam deixado igual de pobre e mais leve. Ao ancião lhe restavam poucos anos e um corpo que se apagava. Não pediu prorrogação. Depois de tantos caminhos que não escolheu, só aguardava o encontro que nenhum mensageiro poderia interromper: os caminhos, por fim, haviam se acabado.
O silêncio ao fim: morte e legado
Chegou devagar, ao longo do verão de 1153. O corpo, castigado durante quarenta anos de jejum e caminhos, já não retinha alimento; as pernas inchavam; o rosto era quase o de um defunto, mas os olhos azuis seguiam lúcidos. E a palavra seguia trabalhando. Até o final esteve ditando seus sermões sobre o Cântico dos Cânticos, a obra de toda sua maturidade: levava oitenta e seis quando a morte lhe tirou o cálamo da mão. O comentário ficou inacabado, detido no meio do canto de amor. Talvez não pudesse se terminar de outro modo: havia ensinado que o amor a Deus não tem medida, e uma obra sobre esse amor não podia ter última página.
Em 20 de agosto de 1153, na enfermaria de Claraval, sobre um colchão de palha, com um crucifixo de madeira entre as mãos, morreu rodeado de seus monjes. Tinha sessenta e três anos. Não houve pompa, porque a regra que ele mesmo havia abraçado a proibia: só o círculo de hábitos brancos, os círios, o murmúrio dos salmos. O homem a quem reis, papas e multidões haviam disputado durante décadas se apagou em um rincão calado de Champanha, no vale que havia levantado com suas mãos. O silêncio que perseguiu toda a vida o recebeu, ao fim, sem condições.
O vale chorou seu pai, e a cristandade inteira chorou com o vale. Mas a morte não deteve aquela voz; a libertou. Suas cartas, seus tratados, seus sermões seguiram correndo de claustro em claustro, copiados sem descanso, e as fundações nascidas de Claraval seguiram multiplicando-se por toda a Europa. A Igreja não tardou em dizer em voz alta o que os monjes já sabiam. O papa Alexandre III, em 18 de janeiro de 1174, apenas vinte e um anos depois de sua morte, o inscreveu entre os santos.
Com o tempo, a piedade dos séculos foi acrescentando imagens a sua memória, mais ternas que exatas. Contou-se que, orando ante uma imagem da Virgem, recebeu de seu peito umas gotas de leite: o sinal de que sua sabedoria não vinha dos livros, mas de Maria. E contou-se também que, enquanto orava ante o Crucifixo, Cristo descravou um braço da cruz para estreitá-lo contra si. Os grandes pintores da Espanha levaram essas duas cenas à tela, e ainda pendem nos museus. A história não as sustenta; mas dizem, a sua maneira, algo que é verdade, sim: que toda sua ciência nasceu desse abraço e dessa doçura.
A palavra oficial chegaria mais tarde, e com um nome de mel. Em 1830, o papa Pio VIII o proclamou Doutor da Igreja: mestre da fé para todos os tempos. O título que lhe deram diz tudo: Doutor Melífluo, o da palavra que flui como mel. Por isso sua imagem leva, desde há séculos, uma colmeia aos pés: a doçura como fruto do trabalho escondido, elaborada na obscuridade da cela assim como o mel na obscuridade do favo.
A sua casa, porém, o tempo não a perdoou. Assim o recorda a memória cisterciense: durante a Revolução Francesa, a abadia de Claraval foi suprimida e desmantelada; os monjes se dispersaram e os muros passaram a outros usos. As relíquias do santo se salvaram e se veneram hoje na catedral de Troyes, não longe de seu vale. E naquela mesma cidade sobreviveu outro tesouro: os códices do scriptorium de Claraval, copiados desde os dias de Bernardo, conservados até hoje e abertos agora aos leitores de todo o mundo.
Oito séculos depois de sua morte, em 1953, o papa Pio XII lhe dedicou uma encíclica inteira, selando aquele título de mel. E em 2009, Bento XVI o chamou "o último dos Padres", porque em pleno século doze fez falar de novo, com voz própria, a grande teologia dos primeiros séculos. Um monge que quis desaparecer segue sendo lido, citado e rezado quase novecentos anos depois. A razão é simples e desconcertante ao mesmo tempo: sua palavra não envelhece porque não falava de seu tempo, mas do amor de Jesucristo, que não tem época. Os impérios que o reclamaram caíram; os tronos que arbitrou são pó. O que escreveu na cela permanece.
A voz se apagou em um vale de Champanha uma manhã de agosto. O que essa voz perguntava, ainda não.
Reflexão: O amor sem medida e a pergunta que permanece
Fica a pergunta que abriu esta vida: o que ocorre quando o que um homem mais deseja é precisamente o que lhe é negado. Ele quis uma cela e recebeu caminhos; quis calar e lhe pediram a voz. E sua resposta não foi uma teoria: foi obedecer cada chamada sem soltar o desejo, voltar ao vale depois de cada corte e cada concílio, e amar nos dois lugares com o mesmo fogo. Deixou escrito em uma única frase, a mais sua de todas: "A razão de amar a Deus é Deus mesmo; a medida, amá-lo sem medida." Viveu dividido entre o claustro e o mundo, mas nunca viveu dividido no amor.
Também nós conhecemos essa distância entre a vida que escolhemos e a que nos toca: o trabalho que se desmorona de um dia para outro, o diagnóstico que reordena todos os planos. Há o chamado que nos tira do canto onde, enfim, estávamos em paz. O que fazemos com o amor que não cabe em nossos planos?
Ele escolheu gastá-lo inteiro, ali onde o colocassem.
Quase nove séculos depois, sua palavra segue acendendo a quem a lê. Os planos que o mundo lhe impôs passaram; o amor com que os carregou não passou nem passará.
São Bernardo de Claraval, abade e doutor melífluo, pai de Cister, mestre do amor sem medida, rogai por nós.





