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FIDES VIVA

24 de agosto

São Bartolomeu

perguntou se de Nazaré podia sair algo bom e foi esfolado vivo

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Capítulos
  1. 0:00Sob a figueira: a pergunta sem disfarce
  2. 5:56O apóstolo invisível: caminhar sem deixar marca
  3. 8:55Até o confim do mundo: a memória toma o relevo
  4. 12:15A corte e o ídolo: a prova ante os poderosos
  5. 16:07A entrega total: martírio na Armênia
  6. 19:29Relíquias disputadas, memória viva
  7. 21:52A pele e a arte: um testemunho sem palavras
  8. 23:44Um santo para os que perguntam: legado e presença
  9. 25:50O lugar onde somos vistos: contemplação final

Um homem está sentado à sombra de uma figueira, com um pequeno rolo de pergaminho sobre os joelhos. É um homem de Escritura e de silêncio, feito para esperar na sombra. Pelo caminho aparece um amigo, sem fôlego: encontraram aquele que Moisés e os profetas anunciaram. E vem de Nazaré.

O homem não finge. Diz em voz alta o que pensa:

«Será que de Nazaré pode sair algo bom?»

A pergunta fica tremendo no ar quieto da tarde. É o primeiro século; Roma manda, e Nazaré é uma aldeia tão pequena que a Escritura nunca a nomeia. A objeção é razoável. Qualquer um a teria assinado.

E no entanto, essa mesma tarde o cético dará meia volta à sua objeção, não porque alguém a discuta com ele, mas por algo que ainda não pode suspeitar.

Dos Doze apóstolos, é o que menos palavras deixou. Uma cena, apenas. Nenhuma carta. Nenhum discurso. E no entanto, no outro extremo do mundo conhecido, há uma Igreja inteira que se chama apostólica porque remonta sua fé a ele e a outro dos Doze.

Os evangelhos o chamam Natanael; a Igreja, desde muito antigamente, o reconhece naquele que as listas dos Doze nomeiam Bartolomeu: bar-Tolmai, o filho de Tolmai.

Antes daquela tarde houve uma sombra: a de uma figueira numa aldeia que a Escritura conhece, sim. Caná da Galileia.

Sob a figueira: a pergunta sem disfarce

Amanhece na Galileia. Pelos caminhos de poeira passam caravanas e soldados; no posto da estrada, os cobradores de Herodes Antipas — tetrarca por concessão de Roma — pesam o grão e contam as redes. É uma terra que aguenta: as aldeias judias do norte — pobres, observantes, teimosas — arcam com o desdém das elites de Jerusalém. E junto ao rio corre um rumor novo: um homem que batiza no deserto e anuncia que algo está por chegar.

No meio daquelas colinas, entre vinhas, cisternas entalhadas na rocha e figueiras de tronco cinzento, se aglomera um punhado de casas de basalto e adobe: Caná. Ali, ao começar o século, a memória mais antiga situa seu nascimento: uma criança de família devota. A memória lhe guarda dois nomes: Natanael, «dom de Deus», e o do pai: bar-Tolmai, filho de Tolmai. Cresce entre muros baixos e campos de aldeia, familiarizado com a Lei e os Profetas, e se torna um homem magro, de mãos grandes e olhar fixo.

Franco até a aspereza, incapaz de disfarçar, duvida para comprovar, não para se eximir. E tem um lugar seu: a figueira. Em Israel, sentar-se sob a figueira é a imagem mesma de quem medita a Escritura e ora a sós. Naquela sombra malhada passa suas horas mais profundas, com um rolo de pergaminho sobre os joelhos, esperando por um Messias que demora.

Por volta do ano vinte e sete — um pouco antes, um pouco depois: os anos de aldeia não se anotam em atas — seu amigo Filipe desce até o Jordão, onde João batiza, e volta com o coração inflamado. Vai atrás dele e solta o anúncio de uma vez: encontramos aquele de quem escreveram Moisés e os profetas; é Jesus, filho de José. De Nazaré. A resposta chega sem adorno, de frente: «Será que de Nazaré pode sair algo bom?». Não é zombaria vazia: Nazaré não aparece nem uma vez na Escritura; de um lugar assim ninguém espera o Messias. Filipe não discute. Apenas abre uma porta: «Vem e vê».

E ele vai. Esse gesto já o retrata: o cético se põe a caminho para comprovar. Descem juntos rumo à margem do Jordão, a Betânia, na outra margem. Jesus o vê vindo de longe e fala primeiro, diante de todos: «Eis aqui um verdadeiro israelita, em quem não há engano». Um elogio antes da primeira palavra. Desconcertado, o de Caná pergunta de que o conhece. E então cai a frase que o desarma: «Antes que Filipe te chamasse, quando estavas debaixo da figueira, eu te vi».

Ninguém o tinha visto ali. Aquela sombra era seu canto sem testemunhas, e resulta que havia uma testemunha. A defesa inteira cai de uma vez. De sua boca sai a confissão mais antiga do quarto Evangelho: «Rabi, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel». Tudo o que objetou há poucas horas se rende numa única frase.

Jesus não fica no elogio. Promete-lhe mais: «Vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem». É o eco do sonho de Jacó: uma escada estendida entre o céu e a terra. Ao homem em quem não há engano a esse homem não se promete poder, nem honra. Promete-se a ele apenas ver. O que verá, e quanto lhe custará vê-lo, ainda não pode suspeitar. Deixa a figueira, deixa Caná, e vai andando atrás do homem de Nazaré. Precisamente de Nazaré.

O apóstolo invisível: caminhar sem deixar marca

Por volta do ano vinte e oito, na Galileia, Jesus escolhe de entre os seus doze homens. Mateus, Marcos e Lucas conservam as listas, e nas três se repete o mesmo detalhe pequeno: Bartolomeu aparece sempre imediatamente depois de Filipe. O amigo que disse «vem e vê» e o que foi ver ficam juntos para sempre, nome contra nome, como dois que caminham ombro com ombro.

E isso é quase tudo o que a Escritura volta a dizer dele.

Durante os anos do ministério não protagoniza nenhuma cena. Não pergunta em voz alta, como Pedro; não pede fogo do céu, como os filhos de Zebedeu. Caminha. Escuta. Está. A túnica se lhe gasta e se remenda no ombro, os pés se lhe enchem de calos, o vento do lago lhe desordena o cabelo, e nenhum evangelista se detém a contá-lo. O homem que o confessou Filho de Deus se tornou quase invisível, e isso não parece lhe importar. Quem foi visto de verdade uma vez já não precisa ser olhado.

Volta a aparecer uma só vez, e vale por todas. Depois da cruz, depois do sepulcro vazio, sete discípulos saem a pescar no mar de Tiberíades. João os enumera, e ali está, com nome e povo: «Natanael, o de Caná da Galileia». Puxam a rede a noite toda, sem pescar nada, e ao amanhecer uma voz desde a margem lhes manda lançar a rede à direita. A barca quase não consegue com a carga. Junto a umas brasas acesas sobre os seixos, o Ressuscitado os espera com pão. Ninguém se atreve a perguntar-lhe quem é: sabem que é o Senhor. E o homem da figueira, molhado e em silêncio, está vendo cumprir-se a promessa: coisas maiores.

Pouco depois está em Jerusalém, na sala alta do cenáculo, com os Onze e com Maria, a mãe de Jesus. Os Atos dos Apóstolos o nomeiam entre os que perseveram na oração esperando o Espírito Santo. É sua última aparição na página sagrada: um homem quieto, as mãos cruzadas, aguardando.

Depois de Pentecostes, seu nome desaparece da Escritura. Nem uma viagem anotada, nem uma carta, nem uma linha. O silêncio que envolve este apóstolo se parece com o silêncio em que transcorre quase qualquer vida: trabalho que ninguém registra, fidelidade que ninguém aplaude. Mas um nome pode apagar-se das páginas sem apagar-se do mundo. Longe da Galileia, muito longe, alguém ia lembrar-se por onde passou.

Até o confim do mundo: a memória toma o relevo

Daqui em diante a crônica cala, e tomam a palavra as Igrejas antigas do Oriente, que guardaram seu rastro como se guarda um tesouro de família. Essa memória o coloca em caminho para onde se acaba o mapa. Enquanto Pedro e Paulo caminham para o coração do Império, Bartolomeu toma a direção contrária: para o nascente, para terras onde Roma já não manda e onde ninguém ouviu o nome de Jesus.

Nessas décadas, do trinta ao cinquenta, ele gasta seus anos com isso. Arábia, com suas caravanas e seus poços contados; Mesopotâmia, entre os dois rios velhos do mundo; Pérsia, o planalto interminável dos partos. Anos inteiros cabem numa só frase porque ninguém os escreveu: só ficou, em cada lugar, a lembrança de que um galileu passou por ali anunciando Cristo ressuscitado. Dorme onde o recebem. Aprende palavras de línguas que não são a sua. Envelhece pelo caminho: as têmporas embranquecem, a barba se enche de fios brancos, a pele racha de sol e de pó.

Um homem do qual só ficou escrita uma confissão, uma só frase, cruza meio mundo para sustentá-la. Não leva escolta, nem cartas de recomendação, nem certeza de voltar. Leva um embrulho envolvido em couro, atado ao peito com uma correia: o Evangelho de Mateus, escrito em caracteres hebraicos. E em algum ponto daquelas terras o deixa, como quem planta uma árvore que não verá crescer.

Esse livro teve destino próprio. Mais de um século depois, um mestre cristão de Alexandria chamado Panteno viajou até a «Índia» — nome imenso com que os antigos chamavam a Arábia, a Etiópia, as terras de medos e partos. Ali achou um Evangelho de Mateus em caracteres hebraicos, guardado pelos que já conheciam a Jesus Cristo. A memória de quem havia deixado aquilo para eles seguia viva: Bartolomeu. É o eco mais antigo de sua missão. Um homem desaparece das páginas, e mais de um século depois um livro seu ainda fala no fim do mundo.

Por volta do ano sessenta e cinco, já ancião, sobe para o norte. A Grande Armênia: um altiplano de pedra vulcânica sob cumes nevados, fortalezas de pedra escura, um reino disputado entre Roma e Pártia, com templos de ídolos em cada vale. A memória armênia o recebe junto a outro dos Doze, Judas Tadeu, e os venera a ambos como os primeiros que acenderam a fé naquele povo. Por eles, séculos depois, essa Igreja se chamará apostólica.

Tem o cabelo branco e as costas ainda eretas. Cruzou o mundo conhecido inteiro para chegar até aqui. E aqui, nestes vales frios, o espera a palavra mais alta de sua vida: a que se diz sem falar.

A corte e o ídolo: a prova ante os poderosos

Naqueles vales se erguia Albanópolis, a cidade onde o caminho do apóstolo ia se deter. O que ali sucedeu não foi nenhum cronista quem escreveu o que ali sucedeu: quem o guarda é um relato antigo, a Paixão de Bartolomeu, copiado durante séculos por mãos que o amavam, mais narrador que notário. E merece contar-se como sempre se contou, com toda sua cor.

Reinava na cidade um homem chamado Polímio, e o rei tinha uma ferida em casa: uma filha atormentada por um espírito. Sofria, diziam, o tormento de um espírito que ninguém conseguia acalmar. No grande templo se erguia Astarot, o ídolo ao qual aquele reino consultava, e para a filha do rei não tinha havido resposta. Então chegou ao rei a notícia de um estrangeiro que falava em nome de um Deus sem templo nem estátua, e que curava. Mandou chamá-lo.

Entrou na sala do trono um ancião de mais de sessenta anos, com uma túnica vermelha poeirenta e um manto claro surrado, um livro apertado contra o peito. À sua volta, sedas bordadas, tiaras com fitas, guardas com armaduras de escamas. O contraste era total, e ele não fez nada para suavizá-lo. Pediu ver a jovem, invocou sobre ela o nome de Jesus Cristo, e o espírito a soltou. A filha do rei ficou em paz, livre, olhando para os seus como quem desperta.

Ficava o ídolo. Bartolomeu foi até o templo e, diante de seus sacerdotes, o mandou calar para sempre: Astarot não era um deus, mas um engano que Cristo havia acorrentado. Desde aquele dia o oráculo emudeceu. E num reino acostumado a comprar respostas com sacrifícios, aquele silêncio disse mais que qualquer oráculo comprado com sacrifícios.

O rei pediu o batismo. Com ele desceram às águas sua esposa, sua casa inteira e doze cidades de seu reino. O homem que um dia perguntou se de Nazaré podia sair algo bom via agora um rei do Oriente tirar a tiara para receber Jesus.

Mas um rei convertido deixa um templo vazio, e um templo vazio arruína os que viviam dele. Os sacerdotes despojados não foram discutir com o apóstol: foram procurar Astíages, o irmão do rei. Lhe falaram de deuses ofendidos, de tronos que caem quando caem os altares, de um reino que lhes escapava das mãos por culpa de um ancião estrangeiro. Astíages escutou em silêncio. Temia a ruína do culto e temia perder o que sustinha seu poder. E tomou uma decisão.

Mandou prendê-lo. Não houve julgamento que merecesse esse nome: houve uma ordem, cordas e guardas. Ante Astíages, o ancião não se retratou de nada do que dissera; havia confessado a Cristo diante de um rei e não ia negá-lo diante de seu irmão. Sabia fingir tão pouco quanto naquele dia longínquo junto ao Jordão. A sentença foi a dos verdugos: esfolado vivo e depois decapitado.

Levaram-no para fora, para o lugar do suplício. Caminhava direito entre as lanças, com os pulsos atados, sem dizer palavra. Ninguém em Albanópolis sabia ainda até onde vai uma testemunha quando o poder inteiro se vira contra ele. Estavam prestes a vê-lo.

A entrega total: martírio na Armênia

Devia ser por volta do ano setenta, ou por esses anos. Ao amanhecer o levaram para fora das muralhas, a um descampado de pedra escura onde já esperavam os postes de madeira. O carrasco levava uma faca de lâmina curva, a mesma que usam os esfoladores com o gado. Essa era a ordem de Astíages: que morresse devagar, e que todos o vissem morrer.

Tiraram-lhe o manto claro e a túnica vermelha, as duas peças que o acompanhavam de tão longe, e o deixaram com um pano de linho na cintura. Ataram-lhe os pulsos com cordas de esparto. Rondava os sessenta e cinco anos: um corpo consumido pelos caminhos, o cabelo e a barba brancos, as costas ainda direitas. A vida inteira, fora um homem incapaz de se esconder. Agora não iam deixar-lhe nem a pele.

A faca começou seu trabalho, e a pele foi arrancada em franjas desde o ombro. Da dor não é preciso dizer mais. O que a memória daquelas terras quis guardar não foi a ferida, mas o rosto. Não houve gesto de raiva. Não houve maldição nem súplica. Os olhos seguiram abertos, fixos, como estiveram sempre: o olhar do homem que olha de frente e não sabe disfarçar.

Tremia de esgotamento, e seguia de pé. Muitos anos atrás, Jesus lhe havia prometido que veria coisas maiores: o céu aberto, os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem. Pode ser que naquele descampado da Armênia, enquanto lhe arrancavam a última envoltura, estivesse vendo por fim o prometido. Sua serenidade não parecia resistência. Parecia a de alguém que já está olhando para outra coisa.

Depois veio a espada. Um único golpe. E o silêncio.

Aquela manhã não se perdeu. A memória das Igrejas do Oriente a guardou e foi passando-a de boca em boca, até que os anos se perderam e ficou o essencial: um ancião que preferiu dar a pele antes que negar o nome de Jesus.

O apóstol das poucas palavras havia dado a última, e não foi um discurso: foi todo seu corpo. Outras testemunhas deixariam cartas, sermões, respostas célebres ante seus juízes. Ele deixou o único que lhe restava para dar: a própria envoltura de si mesmo, entregue a Jesus Cristo sem regatear, igual àquele primeiro dia em que se rendeu com uma só frase. Nunca havia sabido crer pela metade. Tampouco soube morrer pela metade.

A memória armênia conservou que os seus recolheram o que restava de seu mestre e o guardaram como se guarda o mais querido. Sobre aquele lugar do altiplano, séculos mais tarde, se ergueria um mosteiro de pedra avermelhada, meta de peregrinos durante gerações. Porque o corpo de Bartolomeu, que em vida cruzou meio mundo, ainda não havia terminado de viajar.

Relíquias disputadas, memória viva

E seguiu viajando durante séculos. Na ilha de Lípari, frente às costas da Sicília, os pescadores contavam que a arca com seus restos havia chegado pelo mar, flutuando. Diziam que o povo desceu à margem para recebê-la como se recebe um pai. Ali foi venerado durante gerações, até que a ameaça das incursões sarracenas obrigou a pô-lo a salvo: por volta do ano 838, as relíquias cruzaram para terra firme e encontraram refúgio em Benevento, no sul da Itália.

Um século e meio depois entra em cena um imperador. Oto III, um imperador ainda muito jovem, de cabelo louro escuro e piedade intensa, quis ter o apóstol no coração da cristandade. Por volta do ano 998 fundou para ele uma basílica em Roma, sobre a Ilha Tiberina, essa ilha com forma de nave ancorada no meio do rio. Ali, diz Roma, repousa o corpo sob o altar-mor, dentro de um sarcófago de pórfido vermelho, com uma placa de bronze que diz simplesmente: corpo de são Bartolomeu apóstol.

Mas Benevento nunca aceitou tê-lo perdido de todo: até hoje sustenta que o verdadeiro corpo segue em sua basílica. No século XI, um braço do apóstol viajou ainda mais longe, doado à catedral de Canterbury, na Inglaterra. Duas cidades reclamam os mesmos ossos, e um fragmento se venera do outro lado da Europa.

Vista de perto, essa disputa não é uma briga: é uma declaração de amor. Ninguém litiga durante mil anos pelos restos de um homem que não lhe importa. Os povos queriam Bartolomeu perto de si precisamente porque quase não deixou palavras: um corpo entregue inteiro diz mais que muitos livros, e tê-lo sob o próprio altar era ter à mão essa maneira de crer, franca e sem reservas. Sobre a ilha do Tibre, a basílica segue de pé, e a pergunta segue aberta: como se faz presente, hoje, a memória de uma testemunha assim.

A pele e a arte: um testemunho sem palavras

A arte deu uma resposta, e a deu sem desviar o olhar. Entre 1536 e 1541, Michelangelo pintou o Juízo Final na Capela Sistina, e ali, entre os santos que rodeiam a Cristo, pôs a Bartolomeu: um ancião de barba branca e corpo vigoroso que sustenta numa mão a faca e na outra sua própria pele, vazia, pendurada como um manto. E no rosto deformado dessa pele, o pintor escondeu seu próprio autorretrato. Como se dissesse que também ele, ante essa testemunha, se sentia olhado por dentro.

Vinte e um anos depois, em 1562, Marco d'Agrate esculpiu para o Duomo de Milão uma das imagens mais impressionantes do apóstol. Um homem de pé, talhado em mármore branco, com cada músculo e cada nervo à mostra, e a pele deitada sobre os ombros como quem leva uma estola. Na mão, o Evangelho. Na base, o escultor assinou com orgulho: não me fez Praxíteles, mas Marco d'Agrate.

Chama a atenção que a arte cristã nunca quisesse ocultar a ferida. Pôde vesti-lo, coroá-lo, apagar todo rastro da faca. Escolheu o contrário: mostrar o homem de pé, sereno, levando ele mesmo o que lhe arrancaram. Porque a pele já não é a marca de uma derrota, mas a medida de uma entrega: alguém amou a Jesus Cristo até não se reservar nem a envoltura do próprio corpo. O mármore converteu o horror em dignidade. E essa dignidade, já fixada no mármore, segue dizendo o mesmo cada vez que alguém se detém a olhá-la.

Um santo para os que perguntam: legado e presença

Essa casa está no meio do Tibre, na basílica da Ilha Tiberina. Desde o Ano Santo de 2000 é Santuário dos Novos Mártires. Nas suas capelas laterais se guardam memórias de cristãos dos cinco continentes que morreram, no século XX e no XXI, por confessar a Jesus Cristo. Um missal, uma carta, um rosário gasto. Objetos humildes de gente sem crônica, custodiados a alguns passos do sarcófago de pórfiro vermelho. O apóstol que entregou até a pele recebe agora, sob o mesmo teto, os que entregaram a vida ontem pela manhã. Ninguém precisou explicar o parentesco. Se entende só de entrar.

Em Milão, a Veneranda Fabbrica del Duomo restaurou a estatua de Marco d'Agrate e em 2025 a devolveu à vista do público. Cada dia passa ante ela gente vinda de todas as partes; muitos não sabem nada do homem de Caná, e mesmo assim se detêm. Há algo naquele rosto sereno que segue fazendo a mesma pergunta que fazia em vida: se o que se crê, se diz de verdade.

E cada 24 de agosto, quando o verão começa a se render, seu nome percorre em andas dezenas de povoados. Em San Bartolomé de Tirajana, nos San Bartolo do México, da Colômbia, do Peru, a imagem sai com seu manto vermelho, a faca na mão e o demônio acorrentado aos pés. Tudo entre danças, novenas e festas. A Armênia inteira o venera como pai de sua fé; o mundo hispano o celebra como vizinho. Gente simples que reza a um apóstol de quem mal ficou uma frase, e que não precisa de mais: lhes basta saber que foi sincero e que foi fiel.

Vinte séculos depois, a pergunta que ele fez sob uma figueira segue tendo resposta em cada um daqueles rostos.

O lugar onde somos vistos: contemplação final

Aquela dúvida dita em voz alta não encontrou resposta num argumento, mas num olhar. De Nazaré sim saiu algo bom: saiu Aquele que o conhecia antes de ele perguntar. E o cético de Caná passou o resto de sua vida respondendo a esse instante: cruzou desertos e planaltos, deixou um Evangelho em terras sem nome e deu, ao final, tudo o que um homem pode dar por Jesus Cristo. Sua dúvida sincera não lhe fechou a porta. Foi a porta.

E fica a figueira. Cada vida tem a sua: um lugar escondido onde a gente é, sem testemunhas, quem de verdade é. A sinceridade que ali se vive pesa mais, ante Deus, que a correção das respostas. Também somos vistos nesse lugar. Na cozinha às escuras quando chega a má notícia; no corredor do hospital; na pergunta que fazemos em voz baixa sem esperar que ninguém ouça. O que responderemos no dia em que sentirmos esse olhar sobre o que de verdade somos?

Ele respondeu com a frase mais breve e mais total de quantas deixou: "Tu és o Filho de Deus". E a sustentou durante quatro décadas sem escrever um livro, sem deixar discursos, até não ter sequer pele que interpor entre ele e seu testemunho.

As vidas sem crônica não se perdem. Deste homem ficaram apenas duas frases, e sobre ela repousam a fé de uma nação, uma basílica no meio de um rio e a memória dos mártires de hoje. O que não fica escrito não fica perdido: fica semeado. Sob uma figueira da Galileia, alguém o viu primeiro; e ele respondeu com a vida inteira.

São Bartolomeu, apóstolo e mártir, coluna da Igreja, pai da fé da Armênia, rogai por nós.

Fontes

Fontes primárias (Novo Testamento e patrística)

  • Evangelho segundo são João, 1,45-51 e 21,1-14, Novo Testamento
  • Evangelho segundo são Mateus 10,3; são Marcos 3,18; são Lucas 6,14; Atos dos Apóstolos 1,13
  • Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica, V,10 (c. 324) — newadvent.org/fathers/250105.htm
  • Martyrologium Romanum, ed. típica 2004, 24 de agosto — Libreria Editrice Vaticana

Fontes hagiográficas e tradição

  • Passio Bartholomaei / Historia certaminis apostolici (Pseudo-Abdias, s. V-IX)
  • Jacobus de Voragine, The Golden Legend: Readings on the Saints, trad. William Granger Ryan, Princeton University Press, 1993 (ed. original c. 1260)
  • Alban Butler, The Lives of the Fathers, Martyrs, and Other Principal Saints, 24 de agosto (1756-1759) — gutenberg.org/ebooks/57281
  • Société des Bollandistes, Acta Sanctorum, Augusti tomus V, De S. Bartholomaeo Apostolo (1741) — bollandistes.org

Documentos e estudos eclesiásticos e acadêmicos

  • "San Bartolomeo all'Isola", Wikipedia, en.wikipedia.org/wiki/San_Bartolomeo_all'Isola
  • "La Basilica di San Bartolomeo", Associazione Isola Tiberina — isolatiberina.org/la-basilica-di-san-bartolomeo
  • "Basilica di San Bartolomeo all'Isola (Roma)", Cathopedia, l'enciclopedia cattolica — it.cathopedia.org
  • "Church of San Bartolomeo all'Isola", Turismo Roma — turismoroma.it
  • "Saint Bartholomew Monastery", Wikipedia — en.wikipedia.org/wiki/Saint_Bartholomew_Monastery
  • John Sanidopoulos, "The Armenian Monastery of Saint Bartholomew", johnsanidopoulos.com (2010)
  • "Bartholomew the Apostle", Wikipedia — en.wikipedia.org/wiki/Bartholomew_the_Apostle

Iconografia

  • "Capolavori di scultura in Duomo: San Bartolomeo e Cristo alla colonna", Veneranda Fabbrica del Duomo di Milano — duomomilano.it
  • "Saint Bartholomew Flayed", Marco d'Agrate (1562), Google Arts & Culture — artsandculture.google.com
  • "Marco d'Agrate", Wikipedia — en.wikipedia.org/wiki/Marco_d'Agrate

Contexto contemporâneo

  • "Pope Leo XIV | The Current Pope of the Catholic Church", Catholic Answers — catholic.com
  • "Pope Leo XIV", Wikipedia — en.wikipedia.org/wiki/Pope_Leo_XIV

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quinta-feira, 29 de outubro · Evangelho

Jesus segue para Jerusalém e chora sobre a cidade que mata os profetas

Naquele tempo, no mesmo dia, aproximaram-se alguns fariseus e disseram a Jesus: “Sai e vai embora daqui, porque Herodes quer matar-te”. Ele lhes disse: “Ide dizer a essa raposa: Eis que expulso demônios e realizo curas…