Uma mulher de luto, sozinha num caminho de poeira. Seu irmão leva quatro dias enterrado. Diante dela, o amigo que chegou tarde. E uma pergunta que pede toda sua fé: «Crês nisto?». Ela vai responder.
A casa onde o Senhor descansava
O mundo em que ela vivia tinha cheiro de poeira, de pão e de azeite de oliva. A Judeia vivia sob o domínio de Roma: um prefeito governava desde Cesareia, seus soldados vigiavam os caminhos, e os publicanos cobravam os impostos do imperador em cada aldeia. Em Jerusalém, o Templo erguido por Herodes brilhava como uma montanha de pedra dourada. À sua sombra crescia a tensão entre os poderosos do santuário e um povo cansado, que esperava o seu Deus. No meio dessa espera sobrevivia um dever antigo, quase sagrado: abrir a porta a quem chegava, oferecer água, pão e sombra. A hospitalidade não era cortesia. Era uma forma de fé.
A três quilômetros ao leste de Jerusalém, na encosta oriental do Monte das Oliveiras, se apertava uma aldeia de casas cúbicas de calcário claro: Betânia. Junto aos seus muros passava o caminho empoeirado que subia de Jericó até a cidade santa. Ao redor, oliveiras, figueiras e amendoeiras; mais além, o deserto da Judeia tremendo sob o sol. Ali vivia uma mulher chamada Marta.
De sua infância quase não sobrou memória: a aldeia, o eco de uma família de posses, uma casa que, com os anos, viria a ser sua. Essa casa, sim, podemos ver: um pátio com forno de barro e talhas de água fresca, uma sala de esteiras e mesas baixas. Lamparinas de azeite nas paredes, uma escada que sobe ao terraço. Cheiro de pão fresco, de lenha, de figos secando ao sol. E no centro de tudo, sustentando tudo, ela.
As chaves de ferro pendiam de sua cintura: o sinal de que aquela casa era dela, e de que era ela quem a governava. Naquele mundo, era coisa pouco comum que uma mulher fosse reconhecida como senhora de uma casa; era preciso ter caráter, e a ela sobrava. Tinha pouco mais de trinta anos, a pele de oliva quente de quem trabalha entre o pátio e o poço. As mãos calejadas e avermelhadas pela cozinha; um passo firme, que não esperava que os outros resolvessem. Com ela viviam seus dois irmãos: Maria, a mais jovem, de gestos suaves e olhar recolhido; e Lázaro, querido em toda a aldeia.
Sua porta ficava aberta para quem chegasse. Amassava o pão antes do amanhecer, buscava água, acendia o forno, punha a mesa uma vez e outra. Servia até se esgotar, com aquela mistura de amor e cansaço que conhecem todos os que carregam uma casa nos ombros. Ninguém a chamava de santa então. Era, simplesmente, a mulher que sustentava o lar.
E, no entanto, dessa casa o Evangelho dirá algo que não diz de nenhuma outra: «Jesus amava a Marta, e a sua irmã, e a Lázaro». Uma única frase, e dentro dela cabe um lar inteiro. Porque o Mestre da Galileia, que não tinha onde reclinar a cabeça, encontrou em Betânia uma mesa posta, um teto amigo, três rostos que o esperavam. Quando descia a Jerusalém, com as suspeitas do Templo crescendo à sua volta, era ali que se refugiava. Betânia foi a casa onde o Senhor descansava.
A essa porta bateria um dia o hóspede que mudaria tudo. E sua primeira visita, aquela que o mundo ainda recorda, não começou com um prodígio, mas com algo muito mais pequeno e mais nosso: uma discussão entre duas irmãs. Num entardecer, o caminho trouxe passos conhecidos. A porta se abriu — e com o hóspede entrou a cena que marcaria para sempre o nome de Marta.
Marta, Marta
Jesus cruzou a soleira, e a casa toda entrou em movimento. Marta o recebeu como sabia receber: fazendo. Água para os pés empoeirados, lenha para o forno, a melhor farinha, o vinho guardado para as ocasiões. Com o Mestre vinham discípulos, vozes, fome de estrada; e cada hóspede era, para ela, uma dívida sagrada que se paga com as mãos. Ela arregaçou as mangas, ajustou a faixa e desapareceu entre o pátio e a despensa. O véu ia se soltando com a pressa; o calor do forno colava na testa os fios de cabelo soltos. Ninguém lhe pediu tanto. Foi ela mesma quem exigiu isso de si.
Maria, por sua vez, fez algo que à irmã deve ter parecido um luxo impossível: se sentou. Se sentou no chão, aos pés de Jesus, como os discípulos se sentavam diante do mestre, e ficou ali, escutando a palavra dele. Quieta. Inteira. Como se o pão pudesse esperar. Na penumbra quente da sala, duas irmãs e dois mundos: uma imóvel, bebendo cada frase; a outra atravessando repetidas vezes com a jarra e a bandeja.
Cada viagem entre o forno e a mesa pesava um pouco mais. Não era só cansaço. Era aquela ferida silenciosa de quem cuida e não é visto: amar muito, trabalhar muito, e sentir que a ninguém importa. Até que a queixa, amadurecida a fogo lento, estourou na frente de todos. Não foi repreender a irmã num canto. Foi direto ao Mestre, com a franqueza de quem se sabe amiga: «Senhor, não te importa que minha irmã me deixe sozinha a servir?».
Por um instante, a sala ficou em silêncio. A queixa da senhora da casa flutuava no ar, diante do hóspede. E Jesus a olhou. Não com o gesto de um juiz, mas com o de um amigo que vê mais adentro. Então pronunciou o nome dela. Duas vezes.
«Marta, Marta, tu te inquietas e te preocupas com muitas coisas; mas uma só é necessária. Maria escolheu a parte melhor, que não lhe será tirada».
Na Escritura, ser chamado duas vezes pelo nome não é repreensão, é escolha: foi assim que Deus chamou Abraão, chamou Samuel; assim chamaria Jesus a Simão. Pura ternura, essa insistência de quem ama e quer ser ouvido. Antes de corrigi-la, o Senhor a nomeou como se nomeiam os escolhidos.
E a correção não foi a que ela temia. Jesus não condenou o serviço dela; não disse que a mesa fosse desnecessária, nem que o pão dava no mesmo. Não tirou dela o avental: ordenou-lhe o coração. O problema não era fazer, mas fazer dividida: inquieta, dispersa em muitas coisas, com o amor virado em conta a cobrar. Maria tinha escolhido a única coisa que não se serve numa bandeja: escutar aquele que estava sentado em sua casa. E essa parte, disse o Senhor, não lhe seria tirada.
Não sabemos o que Marta fez naquele momento; o Evangelho se cala. Mas quem recebe uma correção assim, dita com seu nome pela boca de um amigo, não a esquece. Algo ficou semeado naquela tarde: uma pergunta trabalhando por dentro, entre o forno e as talhas. Qual era essa única coisa necessária, debaixo de suas muitas coisas? A resposta não chegaria na cozinha, nem em outra visita tranquila. Chegaria pelo caminho mais duro que uma casa pode atravessar.
O tempo passou. A mesma casa, a mesma mesa, o mesmo ir e vir de Marta com as chaves na cintura. Até que, numa manhã, o ritmo de sempre parou de repente: Lázaro, o irmão, ardia em febre e não se levantava. Sobre a casa de Betânia caía sua primeira sombra.
O que tu amas está doente
A febre não baixava. Marta lutou como lutava com tudo: fervendo água, trocando panos, velando noite após noite junto ao leito do irmão. Mas, dessa vez, suas mãos — as mesmas que sustentavam a casa inteira — não alcançavam. E as duas irmãs pensaram, ao mesmo tempo, no mesmo nome. Mandaram um recado a Jesus, tão breve que cabia num suspiro: «Senhor, aquele que tu amas está doente». Nada mais. Nenhum pedido detalhado, nenhuma instrução. Só pôr a ferida diante do amigo, certas de que o amor saberia o que fazer.
O mensageiro partiu, e na casa começou a espera. Marta conhecia aquele caminho de memória: por ele o Mestre tinha entrado tantas vezes, com a poeira da viagem e a fome da jornada. Agora ela o vigiava da soleira, a todo instante, com o ouvido preso em passos que não chegavam. Passou um dia. Passou outro. Para Marta era a espera mais dura que já tinha conhecido: ter pedido ajuda a quem ela ama, e não receber mais que silêncio. A febre subia, a aldeia continha a respiração, e o horizonte continuava vazio. Aquele que os amava não vinha.
Lázaro morreu sem voltar a ver o amigo. A casa que tinha dado de comer a tantos se encheu de pranto. Envolveram-o em linho e o levaram, ainda naquela tarde, para fora da aldeia, a um sepulcro escavado na rocha calcária. Uma pedra fechou a entrada. E o baque surdo da pedra ao encaixar foi, para Marta, o som de um mundo que ficava sem resposta.
De Jerusalém, a menos de uma hora de caminho, foram chegando muitos para consolar as irmãs. A casa da hospitalidade voltou a se encher de gente, mas ao contrário: agora eram os outros que traziam o pão, e Marta quem recebia o consolo. Recebê-lo por completo, porém, ela não sabia. Com o véu de luto cobrindo o rosto, permanecia de pé, atendendo a cada visita, firme como a viga que sustenta um teto. Quatro noites sem dormir tinham deixado seus olhos vermelhos e o rosto mais fino; a vontade, essas noites não a tinham tocado.
Por dentro era outra coisa. Por dentro, uma frase não parava de voltar à sua mente desde a primeira noite, ainda sem voz. O recado não tinha mentido: aquele que tu amas. E então por que o silêncio, por que o caminho vazio, por que quatro dias? Porque já eram quatro. Quatro dias de sepultura são a certeza sem fissuras: ninguém confunde esse sono, ninguém espera que ele se rompa. O luto tinha se instalado em Betânia como se instala o inverno: para ficar.
E então, no quarto dia, um murmúrio atravessou o pátio. Alguém vinha pelo caminho de Jericó. O Mestre estava perto; já chegava à aldeia. Maria ficou sentada na casa, entre as mulheres de luto. Marta não. Ela se afastou das visitas, cruzou o pátio, empurrou a porta e saiu sozinha para o caminho, com tudo o que levava por dentro. Quatro dias de perguntas iam com ela, buscando enfim a quem dizê-las.
Mesmo agora, eu sei
Ela o viu de longe, na saída da aldeia, onde o caminho se estreita entre as oliveiras. Ele vinha a pé, com a poeira do caminho nas sandálias, rodeado de seus discípulos. Era o amigo de tantas ceias, o hóspede de sua mesa. E era também aquele que não tinha chegado a tempo. Ela caminhou até ele sem afrouxar o passo, e, ao chegar perto, por um instante, ninguém falou.
Então disse o que a corroía por dentro havia quatro dias. Não uma saudação, não uma fórmula de condolências. A verdade, inteira: «Senhor, se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido». Era a queixa que carregava por dentro desde o enterro, dita agora, por fim, em voz alta. Se tivesses chegado antes. Se o silêncio não tivesse durado tanto. Ela disse isso de frente, com a franqueza de sempre, a mesma com que um dia reclamou pela irmã junto ao forno.
Mas, em sua boca, a queixa não viajava sozinha. Antes que a ferida terminasse de falar, já falava a esperança: «Mas, mesmo agora, sei que tudo o que pedires a Deus, te concederá». Mesmo agora. Com o irmão há quatro dias sob a pedra. Com toda a evidência em contrário. Ela não entendia o atraso, não entendia o silêncio; e, ainda assim, não lhe soltava a mão. Sua fé não se apoiava no que compreendia: se apoiava em quem ele era.
Jesus respondeu que seu irmão ressuscitaria. Ela assentiu como quem repete o que aprendeu desde criança: sim, na ressurreição do último dia. Ela cria mesmo nisso. Mas era um consolo distante, um horizonte no fim dos tempos, tão afastado do sepulcro recente quanto o céu daquele meio-dia. Esperava uma promessa. Estava para receber muito mais.
Então ele a olhou. E disse o que não tinha dito a mais ninguém: «Eu sou a ressurreição e a vida: quem crê em mim, ainda que tenha morrido, viverá; e quem vive e crê em mim não morrerá para sempre». Ele não anunciou isso no Templo, diante dos doutores da Lei. Não confiou isso aos Doze reunidos em segredo. Ele o disse num caminho de poeira, a uma mulher de luto com os olhos vermelhos. A ressurreição já não era uma data distante: estava de pé diante dela, respirava, tinha nome. E chegou a pergunta que pedia tudo: «Crês nisto?».
Nenhum milagre ainda. A pedra em seu lugar. O sepulcro fechado, quatro dias de morte entre a pergunta e qualquer prova. Ninguém tinha visto nada; ninguém podia lhe prometer nada que seus olhos confirmassem. Crer, naquele instante, era se debruçar sobre o vazio com as mãos vazias, sem outro apoio além do rosto que tinha diante de si.
E ela respondeu: «Sim, Senhor: eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, aquele que havia de vir ao mundo».
Uma das confissões de fé mais altas de todo o Evangelho acabava de ressoar num caminho de aldeia, na boca de uma mulher de coração partido. Pedro tinha dito palavras gêmeas em Cesareia de Filipe, e sobre aquela fé se edificaria a Igreja. A de Marta nasceu no luto, com o túmulo do irmão ainda fechado, antes de ver qualquer coisa. Ela não confessou um prodígio, porque não havia nenhum. Confessou uma pessoa. Creu que Jesus era mais forte que a morte quando a morte já levava quatro dias vencendo.
A mulher das muitas coisas tinha tocado, enfim, a única necessária, e a tinha encontrado onde ninguém a busca: no meio da dor, no pior dia de sua vida. A palavra recebida um dia junto ao forno tinha amadurecido ao relento do luto, e agora dava seu fruto. Nada, fora dela, tinha mudado. A pedra continuava em seu lugar. O luto continuava sobre seus ombros. Mas a fé recém-pronunciada estava a ponto de ser posta à prova diante do próprio sepulcro.
Antes, porém, restava alguém que também precisava ouvir que o Mestre estava perto. Marta olhou para a aldeia, para a casa cheia de visitas onde sua irmã continuava sentada entre as mulheres de luto. E voltou pelos próprios passos para buscá-la.
Lázaro, sai para fora
Ela não entrou anunciando a notícia aos gritos. Na casa cheia de visitas de Jerusalém, procurou a irmã entre as mulheres de luto, se inclinou para ela e falou baixinho ao seu ouvido: «O Mestre está aqui e te chama». Aquela que tinha ouvido o próprio nome dito duas vezes com ternura sabia agora chamar assim os outros. Ela acabava de pronunciar a confissão mais alta de sua vida, e seu primeiro gesto foi se afastar: abrir espaço para que a irmã tivesse também o seu encontro.
Maria se levantou de repente e saiu. Os que a consolavam foram atrás dela, pensando que ia ao sepulcro para chorar. Mas ela chegou até Jesus, caiu a seus pés e disse, entre lágrimas, as mesmas palavras de Marta: se você estivesse aqui. Ao redor, todos choravam, com aquele pranto que se contagia nos lutos de aldeia.
Então Jesus se comoveu profundamente. Perguntou onde o tinham colocado. E chorou. Aquele que acabava de se chamar a si mesmo a ressurreição e a vida chorou pelo amigo morto, diante de todos. Não chorou por falta de poder: chorou porque amava. Os de Jerusalém diziam uns aos outros o quanto ele o tinha amado. Antes de devolver a vida, Deus chorou com os que choravam.
Caminharam até o túmulo, uma gruta escavada na rocha com uma pedra fechando a entrada. Jesus ordenou que a removessem. E então Marta falou. A fé recém-confessada não a tinha tirado do chão: «Senhor, já cheira mal: já são quatro dias». Era a verdade, e ela nunca soube calar a verdade. Ela cria que aquele homem era o Cristo; também sabia o que quatro dias fazem com um corpo. Jesus olhou para ela: «Não te disse eu que, se creres, verás a glória de Deus?».
Removeram a pedra. A boca do sepulcro ficou aberta, escura, muda. Jesus levantou os olhos ao céu e deu graças ao Pai em voz alta, para que a multidão cresse que ele o tinha enviado. Depois gritou, com uma voz que atravessou o silêncio: «Lázaro, sai para fora!».
E o morto saiu. Saiu com os pés e as mãos atados com faixas, o rosto coberto pelo sudário, de volta à luz de um dia que não esperava ver. Jesus ordenou que o desatassem e o deixassem andar. Marta viu as faixas caírem. Viu o rosto do irmão — aquele que tinha preparado para o sepultamento, aquele por quem tinha chorado quatro noites — pestanejando sob o sol, respirando, vivo. Tinha crido sem ver. Agora via.
Muitos dos judeus que tinham vindo de Jerusalém consolar as irmãs creram naquele dia em Jesus. Mas outros foram contar tudo às autoridades. O Sinédrio se reuniu alarmado: se o deixassem continuar, todos acabariam crendo nele, e temiam que Roma arrasasse o Templo e a nação. Naquele dia decidiram condená-lo à morte. Betânia ficava unida, desde então, ao caminho da Cruz: o dom da vida dado a Lázaro foi, para o amigo que o deu, o começo de sua própria morte.
Na casa, enquanto isso, havia um homem devolvido à própria mesa e duas irmãs que não se cansavam de olhar para ele. Sobre essa alegria já pesava a decisão tomada em Jerusalém, que eles ainda não conheciam por completo. Restava uma última vez em que estariam todos juntos: o amigo, o irmão resgatado, as duas irmãs. Seis dias antes da Páscoa, a casa de Betânia se abriria de novo — e Marta voltaria a servir, ainda que já não do mesmo modo.
A casa se encheu de fragrância
Jesus voltou mais uma vez a Betânia. Sabia o que o esperava em Jerusalém, a três quilômetros dali, do outro lado do monte. Mesmo assim, antes de subir à cidade, quis passar mais uma tarde na casa onde sempre tinha podido descansar. Prepararam para ele uma ceia. Lázaro, que tinha passado quatro dias no sepulcro, se sentou à mesa com ele. Um homem vivo, comendo pão ao lado do amigo que o tinha chamado pelo nome de fora do túmulo.
E o Evangelho o diz em duas palavras: «Marta servia».
O mesmo verbo de sempre. O mesmo gesto das mãos calejadas, a mesma bandeja, as mesmas chaves na cintura. Mas nada era igual. Nenhuma queixa atravessou o salão aquela noite. Não olhou de lado para a irmã, não reclamou ajuda, não fez a conta do que fazia sozinha. Servia àquele que ela mesma tinha confessado como o Cristo, o Filho de Deus, e cada prato posto na mesa era seu modo de dizer isso de novo. O afã daquela primeira visita tinha se tornado atenção; a carga, oferenda. Fazia o de sempre — e algo dentro dela tinha deixado de correr.
Então Maria se levantou. Trazia um frasco com uma libra de nardo puro, um perfume que valia o salário de quase um ano. Derramou todo o perfume sobre os pés de Jesus e os enxugou com os cabelos. E a casa se encheu de fragrância.
O aroma envolveu tudo: o pão, as lamparinas, os rostos. A casa que cheirava a forno aceso, e depois a morte de quatro dias, agora cheirava a um perfume derramado sem medida. Alguém reclamou do gasto. Jesus defendeu Maria: aquele gesto falava, sem que se soubesse por completo, do seu sepultamento próximo. Uma irmã ungia os pés dele; a outra lhe servia a mesa. As duas, cada uma a seu modo, o amavam por completo.
Foi a última vez que a casa de Betânia acolheu seu amigo antes da Páscoa. Marta não volta a aparecer no relato. Seu rastro na Escritura termina ali, de pé, servindo em silêncio, com a casa perfumada. Mas a memória dos povos guardou algo mais. Com os séculos, essa amizade continuou sendo contada de outro modo — além do mar, em terras da Gália.
Além do mar: a memória de Tarascon
Conta a tradição provençal que, anos depois que o Senhor ressuscitou, Marta saiu de casa outra vez — agora para sempre. Embarcou com Maria, com Lázaro e outros companheiros do caminho, e o mar os levou longe da Judeia, até a costa da Gália, na atual Provença. Desceram numa terra desconhecida, de outra língua e de deuses de pedra, sem mais bagagem que aquilo que tinham visto e ouvido. E ali fizeram o que tinham aprendido em Betânia: abrir a porta, servir a mesa, falar de Jesus Cristo, o amigo que tinha vencido a morte.
Junto ao rio Ródano, o medo tinha nome. O povo falava da Tarasca: uma fera que saía da água e devorava os viajantes. Os homens armados não tinham conseguido vencê-la. Marta foi sozinha, sem espada e sem escolta, com uma cruz de madeira numa mão e água benta na outra. Fez o sinal da cruz sobre o monstro, aspergiu água sobre ele, e a fera se aquietou como um animal cansado. Então a amarrou com o próprio cinto e a entregou, mansa, ao povo que a temia. A mulher das chaves e da bandeja venceu o mal sem levantar a voz: com a fé simples de quem já tinha visto a morte recuar.
Ficou naquela região pelo resto de seus dias. A lenda a recorda envelhecida e luminosa: a túnica simples de lã sem tingir, o rosto afiado pelos jejuns, o olhar em paz. Passou os anos orando e ensinando o povo do rio a rezar a Jesus Cristo, o Deus a quem ela tinha servido à mesa. Morreu ali, e ali a enterraram, no lugar que desde então guarda seu nome: Tarascon.
O que veio depois já pode ser tocado com as mãos. Em 1187, durante a reconstrução da igreja de Tarascon, encontraram relíquias que o povo reconheceu como as de sua santa, e as levaram a um novo santuário; dez anos depois, em primeiro de junho de 1197, o arcebispo de Arles a consagrou em sua honra, elevada com o tempo a colegiada real. Em sua cripta repousa um antigo sarcófago de pedra dos primeiros séculos, venerado como seu túmulo, e ao lado dele um monumento de mármore branco que um rei encomendou no final do século quinze: sobre a tampa, a efígie de uma mulher adormecida com véu de matrona; nos relevos, Marta com a Tarasca a seus pés.
E a Igreja de hoje não a guarda como uma figura do passado. Em 26 de janeiro de 2021, Roma inscreveu no calendário de toda a Igreja a memória conjunta dos santos Marta, Maria e Lázaro, em 29 de julho. Os três irmãos ficaram juntos outra vez, como nas ceias de Betânia. O decreto lembra por quê: ela hospedou generosamente o Senhor Jesus, sua irmã o escutou atentamente, e seu irmão saiu do sepulcro por ordem daquele que humilhou a morte. Hospitalidade, escuta, fé: os três gestos de uma só casa.
Vinte séculos depois, uma lamparina segue queimando na penumbra daquela cripta, sobre a pedra antiga. Os peregrinos descem os degraus, tocam o mármore, deixam uma oração. E a pergunta que um meio-dia lhe foi feita num caminho de poeira, às portas de sua aldeia, não foi enterrada com ela. De Betânia a Tarascon, da mesa servida ao túmulo venerado, continua aberta — e espera em cada casa.
Uma só coisa necessária
Aquela pergunta, feita em pleno meio-dia às portas de uma aldeia, pedia tudo o que uma mulher quebrada podia dar. Seria possível crer, com o coração partido e sem ter visto nada ainda, que quem está diante é mais forte que a morte? Marta não respondeu com uma lição. Respondeu com a própria vida. Disse sim quando a pedra ainda estava no lugar e o irmão já levava quatro dias sob a terra. Creu antes de ver. E depois não fez nada extraordinário: voltou para casa, pegou a bandeja de sempre e serviu a mesa — como quem serve um amigo.
Não deixou escritos, nem fundou comunidades, nem percorreu o mundo pregando. Deixou uma casa onde Jesus Cristo podia descansar. Um fogo aceso, uma porta aberta, um lugar à mesa. E isso bastou: sua família é aquela de quem o Evangelho diz, simplesmente, que Jesus a amava.
Também nós conhecemos esse peso. A casa que se sustenta porque alguém a sustenta; a mesa ainda posta pela metade enquanto os outros conversam; o cuidado de cada dia que ninguém nomeia. Vivemos inquietos por muitas coisas — o trabalho, as contas, os que dependem das nossas mãos — e, debaixo de todas elas, calada, espera a única necessária.
Não está longe, nem exige grandes gestos. Talvez tenha a forma de uma manhã qualquer: o pão sobre a mesa, a porta que se abre, o nome de alguém dito com ternura. E, no meio disso, um instante de silêncio para escutar o Amigo que já está dentro.
Até a queixa, dita de frente e com o coração partido, pode ser oração: ela mostrou isso num caminho, sem soltar a mão do amigo. A pergunta daquele meio-dia não envelheceu. Marta já deu sua resposta, com o túmulo ainda fechado. A nossa continua sendo nossa.
Crer antes de ver. Servir como quem serve um amigo. Enquanto em alguma casa se acender uma lamparina ao anoitecer e alguém puser a mesa pensando no outro, a mulher de Betânia seguirá tendo quem a entenda. E o Senhor, um lugar para descansar.
Santa Marta de Betânia, amiga do Senhor, a que creu antes de ver, padroeira da hospitalidade, rogai por nós.





